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vattimo:2011:3

3 Interpretação como anarquia

ZABALA, Santiago; VATTIMO, Gianni. Hermeneutic Communism: From Heidegger to Marx. New York: Columbia University Press, 2011.

1. Ao longo da história da filosofia política, interpretação e política foram consideradas domínios separados, seja em Kant, para quem a interpretação é a função social que medeia entre povo e soberano, seja em Hobbes, que a concebe como subordinação às exigências do Estado, seja em Weber, que as vê como domínios exclusivamente distintos da cultura, e embora a interpretação tenha se tornado problema central da filosofia, da psicologia e da ciência no início do século XX e publicações como a edição Politics of Interpretation da Critical Inquiry em 1982, Hermeneutics as Politics de Stanley Rosen, The Politics of Interpretation de Patrick Colm Hogan e Justice and Interpretation de Georgia Warnke tenham desenvolvido a relação entre o intérprete e a política, nenhuma investigou o projeto político revolucionário que a hermenêutica encarna nem a emancipação que ele implica em relação aos detentores do poder.

2. A política da interpretação não foi explorada sistematicamente sobretudo por razões histórico-sociais, já que os mestres modernos da hermenêutica, Nietzsche, Heidegger e Gadamer, eram tradicional, cultural e politicamente conservadores, e o fato de a dimensão ontológica da hermenêutica ter sido investigada pela primeira vez por Heidegger, membro do regime nazista, levou Popper, Habermas e outros a se afastarem de suas intuições, assim como a hermenêutica de Gadamer foi acusada em 1971 por Habermas e pelos estudantes de 1968 de aceitar acriticamente a tradição, acusação infundada, pois essa dependência não se exerce sem criticar as práticas existentes, sendo a hermenêutica mais teoria crítica que a Escola de Frankfurt por não precisar fundar sua função crítica em ideais metafísicos como as condições comunicativas de Habermas ou transcendentais de Apel, e, sem justificar as escolhas políticas desses pensadores, cabe reconhecer que, embora a hermenêutica não fosse possível sem eles, nenhum desenvolveu sua dimensão política, seu projeto político.

3. O projeto político da hermenêutica não significa que ela represente uma posição política ainda não explicitada, mas que é política em si mesma, pois se a política, como explicou Hannah Arendt, é a ação necessária para criar um espaço público de coexistência livre que proteja o espaço privado do desenvolvimento pessoal, a hermenêutica é política por apoiar-se numa pluralidade de interpretações ativas, devendo evitar tanto as pretensões metafísicas a valores universais quanto a natureza passiva e conservadora das filosofias descritivas, sendo movida por uma techne ativa oposta à theoria como conservação, neutralização e violência, de modo que a interpretação implica um apelo à emancipação politicamente revolucionário e oposto ao estado objetivo de coisas, razão pela qual a hermenêutica sempre foi a espinha dorsal latente das revoluções culturais contra os detentores do poder, e sua veia anárquica, como explicou Reiner Schürmann, não envolve ausência de regras, mas de uma regra universal única, sendo a anarquia, como resistência a princípios, convenções e categorias, não o fim, mas o começo de seu projeto político.

4. O projeto político da hermenêutica tornou-se central porque a política começa a tomar consciência do fim da metafísica, isto é, da impraticabilidade de aderir à verdade objetiva, aos valores universais e às revoltas ideológicas, fim do conhecimento originado no objeto como medida única da verdade, comum à ciência e às políticas das descrições que impõem violentamente certos sistemas, cujo fracasso se exemplifica na invasão do Iraque em 2003 para impor a democracia e no resgate bancário de 2008, e cuja dissolução se manifesta também no fim do colonialismo e no surgimento da antropologia cultural, que desfez o mito do progresso linear guiado pelo Ocidente, de modo que, na condição pós-moderna, a política deve guiar-se não pela verdade, mas pelo jogo entre minoria e maioria, isto é, pelo consenso democrático, próximo da natureza contingente, livre e arriscada da interpretação, que transforma o saber da verdade em direito dos fracos de interpretar e faz da hermenêutica a única filosofia que reflete o pluralismo das sociedades pós-modernas, expresso politicamente nas democracias comunistas progressistas, cujo delineamento exige explorar os mestres da hermenêutica, suas origens e seus desenvolvimentos políticos radicais.

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