6 Obra de cada
STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
“CADA UM ESTÁ EM SUA OBRA”
A NATUREZA E A OBRA
1. Nada conheceremos de nosso ser, diz Montaigne, mas em outra parte afirma que o homem não pode ser senão o que é, pois por afastado que esteja da verdade essencial o homem mantém sua posição entre aquilo que existe.
2. Por mais insuficiente que seja sua condição, o homem não deixa de representar bem ou mal um modo particular do ser que faz com que seja o que é, e enquanto ao longo de sua argumentação cética Montaigne descreve os obstáculos entre a consciência e o Ser verdadeiro, propõe alhures uma definição inteiramente diferente ao dizer que a vida consiste em movimento e ação.
3. À ideia do ser imutável que nos transcende sucede-se então a imagem de um ser dinâmico, não apenas fonte de mudança e criador de formas moventes, mas ele próprio conduzido por sua potência móvel.
4. Se carecemos de uma autoridade nosso recurso não se deve dirigir à natureza, pois não é ela precisamente movimento e ação, e reina universalmente, e por que não estaria igualmente presente no curso confuso e sonhador de nossos instantes.
5. No que somos e que parece tão frágil em comparação à ideia quimérica de um Ser fixo devemos reconhecer a vontade dessa Mãe admirável que engendra a uma só vez a inesgotável diversidade do mundo e seu inexaurível reflexo em nós.
6. Para viver em conformidade com a natureza é preciso desta vez sem ilusão ontológica abandonar-se maleavelmente à espontaneidade interior a qual muito frequentemente contrariamos, e eis aí então a despeito do eclipse do absoluto uma norma redescoberta que nos desembaraça de toda preocupação com os longes.
7. Se a natureza não pode ser conhecida no movimento das causas pode ser aceita no sistema de seus efeitos, e não se trata mais de apreender o segredo da Natureza mas de se deixar levar por ela.
8. Teríamos podido crer que nossa separação em relação à Verdade transcendente nos deixava sujeitos à arbitrariedade e à cegueira, ora eis que uma lei se enuncia não para além de nossa existência mas no interior desta, pois a Natureza nos inclui e está ativa em nós, e escutemo-la e deixemo-la agir.
9. Sempre acertaremos seguindo a natureza, e por mais cambiante que seja o impulso da natureza obedecê-lo constitui uma sabedoria sólida e além disso uma sabedoria cujo fundamento é universal e pode unir os homens.
10. Em todo homem que não foi formado em oposição à natureza foram lançadas raízes mercê do senso comum, e sem passar pela especulação filosófica e sem exigir que essa razão se eleve até a clareza conceitual o homem possui em si mesmo a regra infalível que lhe permite viver bem, morrer com serenidade e ser plenamente o que quer a natureza.
11. Pois nosso dever coincide com o ditado da necessidade natural, e bastam uma pura obediência e uma passividade tranquila, e tudo se passa como se esse quietismo naturalista nos devolvesse sob forma diferente uma comunicação com o ser que a curiosidade filosófica depois de a ter esperado se resignou a jamais possuir.
12. Apenas esse vínculo com a Natureza tão logo descoberto é instantaneamente posto em discussão, pois o homem não é de todos os animais o único que tem o poder de recusar e de contrariar a natureza.
13. Não resta em nós nenhum vestígio da natureza, pois com esta fizeram os homens o que os perfumistas fizeram com o azeite, sofisticaram-na tanto com argumentos e raciocínios alheios a ela que ela apresenta hoje um caráter essencialmente variável peculiar a cada um, tendo perdido o que lhe era inerente e a todos se aplicava.
14. É possível que haja leis naturais como ocorre em certos animais mas nós as perdemos porque nossa bela razão humana em tudo se mete para dominar e comandar, perturbando e confundindo a fisionomia das coisas a seu talante segundo sua vaidade e sua inconstância.
15. Constata-se aqui novamente que a natureza do homem consiste paradoxalmente na faculdade racional de contradizer e de desfigurar o dado natural e de particularizar o universal, e não seremos talvez mais felizes quando quisermos deixar agir a natureza do que quando desejávamos perceber-lhe a verdadeira fisionomia.
16. Uma ética segundo a Natureza não é menos difícil do que uma ciência da natureza, pois o poder da Natureza não é ilimitado, existe um fora da natureza e o homem tem a faculdade de a ele apelar para sua infelicidade.
17. É preciso mais uma vez combater ferrenhamente a razão humana e ainda considerá-la culpada de lesa-natureza no momento mesmo em que teríamos renunciado a todos os exageros do cogitar, e é o que Montaigne sustenta mais de uma vez.
18. Mas em muitas circunstâncias também defenderá a ideia inversa e tomará o partido de aprovar o poder em nós, liberdade, julgamento, razão e costume, que se opõe à natureza e lhe resiste, e o fora da natureza torna-se então como em tantos humanistas a expressão da dignitas hominis.
19. Visto que aprouve a Deus dotar-nos de alguma capacidade de raciocínio a fim de que nos assemelhássemos aos animais sujeitos às leis comuns e nos foi permitido aplicá-las judiciosamente de acordo com o nosso arbítrio, devemos atentar para os desígnios da Natureza sem contudo nos escravizarmos a ela, pois somente a razão deve regular as nossas inclinações.
20. Quanto a Montaigne não sente nenhuma simpatia por essas inclinações que surdem em nós independentemente da nossa razão, e o que então é preciso escolher se temos escolha, abandonar-nos ou rebelar-nos diante dos desígnios da natureza, e dessas duas eventualidades Montaigne adota alternadamente uma e outra sendo cada uma declarada por sua vez a única preferível e a única praticável.
21. Ora Montaigne dirá que o homem obedece querendo ou não às exigências da natureza e é a própria natureza que o proclama na prosopopéia final do ensaio, ora verá no homem a única criatura que desde o seu nascimento faz uso de sua liberdade para escapar à lei comum.
22. Os filhotes de ursos e de cães mostram sua tendência natural, os homens porém metendo-se desde logo em hábitos, preconceitos e leis mudam ou se mascaram facilmente.
23. Daí a ambiguidade da educação segundo Montaigne, pois trata-se de favorecer o desenvolvimento das faculdades naturais inatas ou trata-se ao contrário de fazer com que à força de exercícios agradáveis e de hábitos insensivelmente adquiridos a criança receba uma segunda natureza e faça sua uma forma produzida pelo esforço incessante e pelo uso.
24. Pela autoridade do exemplo e pelo efeito da prática a virtude viria incorporar-se à alma, impregn á-la e tingi-la inteiramente com sua cor, e não se sabe que à força de fingir de doente fica-se doente de fato, pois a máscara se torna face.
25. Deixe-me parecer até que me torne, canta Mignon em Goethe, e o parecer é um caminho para o ser como diz Alain, pois só uma ação humana pode impor uma forma à substância natural que deixada a si mesma permanece indeterminada.
26. Isso é um bem ou um mal, e é um estado de fato que não se pode contestar, pois como vimos a vida do corpo é um tecido de hábitos o qual é perigoso contrariar, e permanecer o mais perto possível da natureza é na maioria das vezes consentir no informe, e submeter-se ao costume é recebendo uma forma correr o risco da deformidade e da deformação.
27. Como conciliar natureza e forma, e como sem trair a natureza realizar a vocação racional do homem, e a conciliação entretanto não é impossível, pois recorre aqui ainda à oposição semântica do interior e do exterior, do meu e do estranho, que serve de critério e de regra para favorecer o processo da apropriação.
28. O valor positivo pertence à ordem do meu, do interior e do próprio, e marcado pela exterioridade o costume é qualificado negativamente, pois é nefasto como toda coerção estranha, e Montaigne nos incita a voltar a essa natureza que do interior pede apenas para dirigir-nos segundo sua lei.
29. Mas desde que o costume e o poder formador podem ser considerados atributos ou realizações do próprio sujeito e desde que podem ser ditos meus, ei-los desculpados e legitimados, e a alienação cessa no ponto em que o modelo e a coerção externos são livremente assimilados e devidamente apropriados.
30. A forma é então imposta de dentro e é o resultado de um esforço e de um trabalho interiores, e o indivíduo embora dócil ao costume social deverá apenas a si próprio o que o constitui como indivíduo, tendo operado a interiorização do que de início lhe era estranho ou hostil.
31. Assim ocorre por exemplo com o exercício pelo qual nos acostumamos a suportar a doença ou a antecipar a morte, familiarização que inverte o traço das forças adversas dirigidas contra nós pela natureza ou pelo destino, pois por efeito de um demorado uso meu estado atual passou a fazer parte integrante de mim e minha natureza está no que a sorte fez de meu ser.
32. Nesse momento o costume tornou-se inteiramente nosso, pertence-nos e é obra humana, e longe de alterar nossa verdade faz-nos o que somos.
33. Ser consiste em movimento e ação, e havíamos entrevisto nessa declaração a possibilidade de reencontrar o ser no movimento das potências naturais, e de fato é à ação e ao movimento humanos que se refere essa frase, pois a afirmação que a segue não deixa nenhuma dúvida ao dizer que por isso cada um está em sua obra.
34. A ideia de uma obra que encontra aqui sua definitiva confirmação indica uma atividade que não apenas se distingue da espontaneidade natural mas também se volta para esta a fim de apreendê-la e modificá-la.
35. Todos os seus esforços visaram a vida e pouco se incomodou com criar uma obra literária, e a obra é a ação reflexiva que confere forma àquele que a fez, única ação válida aos olhos de Montaigne que habitualmente tem apenas desprezo pelas ações transitivas cujo fim se encontra em algum objeto ou em algum resultado pagáveis em moeda.
36. O fazer só o interessa quando se trata de se fazer, e ele se diz pouco apto às atividades que têm como meta apenas produzir ou modificar objetos em vista do proveito ou da simples utilidade.
37. Montaigne não faz questão de ser louvado por ter sido bom magistrado nem mesmo por saber escrever, não quer ser especialista em nenhuma matéria nem sequer em bela linguagem, pois um homem de bem não tem profissão como se insistirá no século seguinte, e não é verdade que qualquer magistratura ou arte tem um objetivo situado fora de si.
38. A utilidade pública o exige e Montaigne pode apenas aprovar-lhe o princípio, mas quanto a ele lançou seu fim principal em si próprio.
39. Lançar seu fim em si próprio é mais uma vez transformar o eu em espaço e fazer do próprio eu o campo em que se manifestará sua ação, o que significa dizer que há de início um sujeito que empreende agir e que constituindo-se como o objeto privilegiado de seu gesto se faz coisa para se apreender como fim.
40. Invento assim um eu semipassivo o qual é o tema ou o mito que se propõe ao meu trabalho, e uma pseudo-exterioridade se interpõe entre o eu e ele próprio em virtude da metáfora do trabalho, e a distância que imagino expõe minha existência ao meu olhar.
41. Decerto sou o senhor dessa distância mas não a pude criar senão ao explorar uma fraqueza e uma possibilidade de desdobramento que habitam minha vida desde seu começo, pois sou não sei como dois seres em um só.
42. Não aderimos completamente a nós mesmos, e nossa espontaneidade natural tão franca em seu primeiro impulso é sempre maculada por uma fragilidade que nos deixa livres para nos desprender e nos desaprovar.
43. O que faz que em uma mesma coisa acreditemos e não acreditemos não podendo desfazer-nos do que condenamos, e antes mesmo que tenhamos tomado nossas distâncias a distância está secretamente em nós, a duplicidade nos mina e nossa identidade está fendida, restando tirar partido disso.
44. Sendo tal clivagem explorável o eu pode tornar-se sua própria obra, e pode formar sua vida como um artista modela uma estátua buscando despertar na pedra uma imagem dormente.
45. O ato reflexivo pelo qual Montaigne se olha e se aceita possui uma virtude plasmadora, pois nele a consciência de si é um pôr-se em ação, e o esforço de apreensão perceptiva comporta simultaneamente uma afeição interna e o desejo de erguer uma figura por fugidia que seja, e o prazer ótico alia-se ao prazer do modelagem.
46. Em Montaigne a vontade formadora pretende alterar apenas o mais discretamente possível o elemento movente e variável da existência espontânea, e a forma ensaiada tende a situar-se o mais perto possível do informe, e ele se proíbe de violentar a natureza fluida e indeterminada que pretende superar e que entretanto aspira a imitar.
47. Montaigne só pode amar a ação refletida até o ponto em que ela mais se aproxima da percepção voluntária, pois a economia do ato formador pretende que ele se confunda com a simples descoberta da experiência menos afetada.
48. Assim a ação de si sobre si será menos uma transformação inovadora do que uma visão e uma pintura daquilo que em nós e a despeito de nós mesmos está já entregue à transformação, associado ao movimento comum do mundo e à deriva universal, e pintar a passagem é ao mesmo tempo aceitá-la e transportá-la para uma obra.
49. O ato formador quase não é discernível do consentimento consigo mesmo, e com efeito é preciso um mínimo de objetivação para dar pretexto ao consentimento, pois consentir segundo a própria estrutura desse termo é afastar-se do que se sente para aprová-lo.
50. É necessário suspender ainda que por um segundo a confusão inerente consigo que nos é habitual, e encontramos a metáfora dessa separação quando Montaigne diz não me estimo a ponto de não poder distinguir-me e considerar-me como a um vizinho ou árvore.
51. O vizinho e a árvore são seguramente alheios mas são também próximos no grau mais aproximado da proximidade, e assim o julgamento abandona os impulsos da vida ordinária mais deles se afasta apenas para melhor os perceber e para lhes deixar mais liberdade.
52. Não lhes opõe senão uma atenção distinta, e se o ser se desdobra há em nós um espetáculo e um espectador distintos um do outro, e Montaigne não experimenta nessa divisão nenhuma luta interior e não procura pois for fim restabelecer a unidade perfeita.
53. A distância existe e será a menor distância, justamente aquela que é necessária para dar consistência a uma obra heterogênea, e Montaigne acolhe o espetáculo tal como se oferece e deixa o julgamento fazer seu jogo à parte.
54. O distanciamento e o desdobramento interiores favorecem a constatação e não o conflito, e o julgamento ocupa em mim o primeiro lugar e aos menos esforça-se por isso, e deixa inteira liberdade a meus apetites.
55. Nem o ódio nem a amizade nem a afeição que dedico a mim mesmo o alteram ou o corrompem, e o julgamento que conquistou sua autonomia quer tudo perceber sem ser obrigado a intervir e aspira a conciliar distância e proximidade sem nada mudar no espetáculo.
56. Mas sua presença introduz quer queira quer não uma mudança radical, pois tão próximo o julgamento não pode deixar de influenciar o que observa, e esse olhar ao objetivar os sentimentos os modifica por sua atenção mesma.
57. Resultado pelo qual é preciso se felicitar quando seu efeito é atenuar os movimentos involuntários da vida afetiva, pois se cada um observasse de perto as causas e os efeitos das paixões que o dominam como Montaigne estuda as suas ver-las-ia aproximarem-se e lhes atenuaria a violência.
58. Mas aí está por outro lado o que torna equívoca toda sinceridade, pois para quem pretende exprimir-se de boa-fé e apresentar-se nu aos olhos do mundo como evitar a atenuação e a deformação impostas necessariamente pela tomada de consciência e pelo emprego da linguagem.
59. Apreender-se e comunicar-se é criar-se a si mesmo mas é ao mesmo tempo modificar-se ao se descrever, e no momento em que nos definimos tornamo-nos nossa obra e toda obra é artifício.
60. São sobretudo os pensamentos que o agitam e em sua forma mal definida não podem traduzir-se por atos que Montaigne procura reproduzir, e já lhe custa muito traduzi-los pela voz que é coisa aérea e sem consistência.
61. Um custo é exigido para que o pensamento encontre um corpo mesmo que se trate de um corpo quase imaterial, um corpo vocal o mais tênue possível, mas assim se manifesta necessariamente o nosso ser uma vez admitido que cada um está em sua obra.
62. Esse ser só se realiza no instante em que se torna ambíguo, isto é, no instante em que tornando-se comunicável e tendo tomado forma em uma linguagem torna-se suspeito de se trair, compromete-se e se altera no movimento mesmo em que pretende exibir-se fielmente às suas testemunhas.
63. Seria preciso que a obra desaparecesse para ceder todo o lugar à realidade do sujeito, mas o sujeito é autor da obra e não pode aparecer senão por e na obra, uma obra que sempre se envergonhará de sua parte de artifício e que desejaria rivalizar com a dócil espontaneidade natural e adotar seu ritmo.
64. A obra então parece voltar-se nostalgicamente para a inconsistência, a insuficiência e a fraqueza primeira que tinha por missão superar, e não o consegue, e dessa impossibilidade resulta o caráter interminável do livro.
65. Os Ensaios representam a inconsistência natural conferindo-lhe sempre um excesso de consistência, são-lhe o registro, isto é, a imagem muito fiel e no entanto radicalmente alterada de que toma nota o julgamento.
66. Tal é o paradoxo, pois a insatisfação primeira diante das máscaras, da opinião e da mobilidade interior encontrara refúgio na unidade do livro, e nele se recolhera na falta de coisa melhor o apetite do ser e a esperança ontológica uma vez convencidos do malogro inevitável na busca metafísica da essência.
67. O livro é a única superação das aparências enganadoras, mas quando o espírito se encontra remetido ao mundo fenomênico e a si mesmo como peça desse mundo, e quando descobre recusadas toda metafísica e toda ontologia que a sabedoria está em se deixar levar pelo movimento universal, então se dá conta de que o livro e a obra pecam por excesso de unidade.
68. Esse pouco de ser e de estabilidade que os habita é ainda excessivo comparado à passagem que se trata de descrever e ao fluxo a que é lícito abandonar-se, e não se pôde alcançar o ser, e podem-se alcançar melhor as aparências.
69. A cada vez um poder adverso constitui obstáculo, mas é preciso afinal reconciliar-se com o poder adverso sem cessar de combatê-lo e fazer dele o parceiro graças ao qual conheceremos nossa força ao conhecer nosso limite.
70. Daí os prolongamentos sucessivos dos Ensaios, pois o esforço não pode jamais se produzir senão no meio unificador da linguagem mas acusando, revelando e traindo a multiplicidade e a mutação às quais Montaigne deve perfeita fidelidade se quer oferecer uma pintura verídica de si mesmo.
71. Ele apenas se separa da mutação para descobrir que sua tarefa é recriá-la e nela voltar a mergulhar cada vez com uma consciência mais aguda da vaidade da mutação e da vaidade contrária de querer escapar-lhe.
72. Montaigne condena uma obra que tomasse uma forma definitivamente fixa, pois nossas tolices adquirem dignidade quando impressas, e a obra deve ser apenas a breve parada, o instante em que se opera a apreensão do movente mas de onde irrompe novamente o movimento.
73. O escoamento da fluidez natural não se interrompe, contudo a atenção redobrada que lhe presta o julgamento fará parecer mais lento o ritmo de sua passagem e dará a cada instante um valor mais rico.
74. A passagem que vai de esvaecimento em esvaecimento e o devaneio confuso tornam-se plenitude uma vez retomados pela consciência que os espreita, pois sentem outros a doçura da satisfação e da prosperidade e Montaigne também a sente mas não de passagem e sem se apegar a ela.
75. Cabe estudá-la, saboreá-la e ruminá-la para melhor devolver àquele que no-la outorga a graça que lhe devemos, e gozamos os prazeres como gozamos o sono sem sentir, e para melhor apreciar esse prazer do sono Montaigne lembrou-se outrora de mandar que o acordassem.
76. O julgamento que percebe e domina a letargia do indivíduo não é uma faculdade intelectual abstrata e pura, pois emerge com dificuldade do sono para o entrever e saborear, e não é um olhar impassível, um espelho intelectual límpido e indiferente sem conivência com o espetáculo que reflete.
77. Ao contrário todas as aptidões sensitivas colaboram com ele, e o julgamento segundo Montaigne é uma vigilância sensual, sua apreensão é uma preensão tátil, uma pesagem e uma gustação, e ele quer duplicar o gozo pelo conhecimento.
78. No ato do julgamento o sujeito espectador participa com todo o seu corpo desse movente espetáculo que ele é para si próprio, sendo portanto um corpo aplicado por inteiro em escutar-se viver, distinto de si mesmo mas dirigido para si próprio.
79. Basta prestar atenção ao estilo de Montaigne para constatar que se a obra tende a adquirir corpo e forma é antes de tudo a obra de um ser vivo que procura consumar a posse plena e inteira de sua consciência corporal.
80. O estilo de Montaigne nos mostra que a operação do julgamento é sempre contaminada pela confusão que afeta a experiência natural do corpo, e o julgamento entreve com mais frequência do que vê, e sua visão é embaralhada e sua apreensão é tateante.
81. Precisa constantemente recomeçar e renovar continuamente a tentativa de apreensão, pois o ato que visa a apreensão é tão efêmero e tão ameaçado de esvaecimento quanto o objeto movente de que procura apoderar-se.
