4.2 Rebelião do Corpo
STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
O MOMENTO DO CORPO
A REBELIÃO DO CORPO
1. O impudor nada quer deixar ignorar a respeito do corpo, pois o homem é conjuntamente espírito e corpo, e não é ter-se pintado suficientemente se se deu conta apenas das imaginações de sua alma, requerendo a pintura completa a representação não menos exaustiva das condições corporais.
2. Montaigne não deixa de fazê-lo e entretém-nos com sua altura, seu temperamento, suas doenças e seus apetites, e esse aspecto da pintura de si é o que ao longo dos séculos suscitou ora a irritação ora a distração condescendente dos leitores, cujas razões foram mal compreendidas.
3. No que se refere à vida corporal, Montaigne devia inevitavelmente encontrar-se em presença das pretensões da medicina, esse saber cuja competência concerne precisamente ao corpo, e a doença iria dar a esse confronto sua forma mais dramática.
4. Trata-se de uma matéria suficientemente importante para que Montaigne a ponha em particular evidência no último ensaio do segundo livro e depois como em eco no último ensaio do terceiro livro, sendo a disposição final significativa por mais de um motivo.
5. À primeira vista trata-se apenas de um pretexto para uma crítica geral da presunção do saber sobre o exemplo particular oferecido pela mais conjetural, pela mais pretensiosa e pela mais perigosa de todas as disciplinas tradicionais, e Montaigne não visa apenas a fragilidade desse pretenso saber mas o fato de que avança sobre um terreno sensível e pretende legislar sobre o corpo.
6. De imediato esperar-se-ia certa indulgência em relação à medicina, pois de todas as ciências herdadas da Antigüidade é a que presta mais atenção à individualidade, deixando a doutrina dos temperamentos o campo livre à infinidade das combinações possíveis.
7. Desde suas origens a medicina clássica grega associa raciocínio e experiência temperando um pelo outro, sabe fazer justiça às ocorrências particulares e pratica a observação dubitativa antes mesmo que uma escola cética se tenha constituído entre os filósofos, sendo acolhedora para a diversidade e a singularidade.
8. Mas as queixas de Montaigne contra o oceano tão vasto e turvo dos erros cometidos pelos médicos não são infundadas, pois a medicina em sua fidelidade literal à autoridade de Galeno não soube resistir à tentação de se constituir em sistema e de se imobilizar em dogma.
9. Mesmo quando faz profissão de respeitar o temperamento particular do doente, a medicina alega entidades ilusórias e apóia-se em uma física e em uma fisiologia que substancializam os dados da percepção sensorial sem os recolocar em causa.
10. A experiência que alega atua no sentido da autoconfirmação e não da descoberta, e seus próprios fracassos não a instruem, pois encontra em sua linguagem com que os interpretar e explicar.
11. Assim como não duvida das qualidades substanciais que reencontra em todos os corpos do universo, a medicina vangloria-se de conhecer a natureza exata das doenças e a ação específica das drogas, autorizando-se a intervir em qualquer ocasião como se detivesse a chave dos fenômenos.
12. Mas quando aplica ao paciente os remédios que compôs já se afastou da experiência ou da série de experiências fundadoras de que se vale, agindo às cegas e tomando iniciativas que são outras tantas experiências sem garantia com as quais padecerá o doente a quem prometeu mundos e fundos.
13. No que se refere ao conceito de experiência, Montaigne faz ver que ele se presta a dois empregos radicalmente diferentes, pois de um lado está o uso que dele fazem todos os médicos que com base em constatações freqüentemente muito insuficientes citam os casos de que tiveram conhecimento e tiram conseqüências abusivas.
14. Bem ao contrário está uma atitude mais modesta, a sua, que se prende ao fenômeno sensível mas se limita a registrá-lo sem o conceituar e permanece o mais perto possível da coisa vivida, na qual seria inútil buscar o meio de um saber mais vasto.
15. Encontramo-nos na linha divisória semântica de onde se separarão posteriormente a experiência objetiva, fundada na qual se instruirá a ciência moderna, e a experiência pessoal ou interior na qual o indivíduo experimenta a qualidade singular de sua própria existência.
16. Por ora uma aparência de unidade aproxima ainda as duas acepções da experiência, pois a experiência alegada pelos médicos tem valor de exemplo e com isso justifica sua repetição, e a experiência de que Montaigne se vale traz em si mesma sua evidência.
17. Quando Montaigne evoca a doença hereditária do cálculo renal em sua família, acompanhada por uma aversão não menos hereditária à medicina e compatível com notável longevidade, é simultaneamente à experiência e ao exemplo que ele apela para opor-se com as próprias armas da medicina às pretensões dos médicos.
18. A minha antipatia pela sua arte é hereditária, pois seu pai viveu setenta e quatro anos, seu avô sessenta e nove e seu bisavô quase oitenta, todos sem que nunca tomassem qualquer medicamento, e essa longevidade não revela também uma experiência e das mais belas.
19. Não creio que todos os médicos reunidos pudessem observar em seus registros três casos semelhantes de homens nascidos, educados e falecidos no mesmo lar e que lhes devessem sua longa vida, e esses exemplos familiares embora pouco numerosos e restritos dão-lhe alguma vantagem.
20. Experiência contra experiência, ensaio exterior contra ensaio íntimo, exemplos contra exemplos, pois Montaigne atribui a preexcelência aos arquivos autênticos de uma família iatrofóbica, e o ensaio pessoalmente verificado vale mais do que a ciência presuntiva dos sábios.
21. As coisas humanas não duram tanto, pois dezoito anos faltam apenas para que sua experiência alcance dois séculos, e não seria de espantar que desta feita tomasse outro rumo, pois já viveu quarenta e sete anos com excelente saúde e se sua vida findasse agora ainda seria das mais longas.
22. Para Montaigne a experiência pessoal do sofrimento entra no registro do ensaio, é coisa que se vive e que se diz, e tê-la assim experimentado e provado permite-lhe reivindicar para si mesmo uma autoridade bem superior a todos os discursos da medicina.
23. Quanto aos sofrimentos físicos a que não podemos obviar, Montaigne é extremamente sensível, mas outrora encarando-os com olhar amedrontado concebeu-os tão temíveis e intoleráveis que em verdade foi então maior o receio do que o mal ocorrido depois.
24. Isso confirma-o na idéia de que as faculdades da alma, como as empregamos, antes provocam em nós perturbações do que nos prestam serviços, e ele é atualmente presa da pior das doenças, a mais repentina, a mais dolorosa e a mais mortal, diante da qual os médicos se confessam impotentes.
25. Já sofreu três ataques longos e penosos, mas ou muito se engana ou ainda sobram nesse estado razões para suportá-la, conquanto não se tema a morte e não se preste às ameaças, conclusões e advertências dos médicos.
26. A dor em si não tem tal acuidade que provoque desespero e furor em um homem calmo, e essas cólicas comportam ao menos a vantagem de o familiarizar enfim com a idéia da morte, pois quanto mais o atormentam menos se sente preso à vida.
27. Vê-se perfeitamente nessa página o que caracteriza a experiência íntima em sua oposição à experiência alegada por um saber dogmático que se gaba de prognosticar a seqüência dos fenômenos físicos, pois a experiência íntima não tenta de modo algum fundar uma indução causal de ordem geral.
28. Ao contrário permanece ligada ao que experimenta no momento, à qualidade única e individual do sentir da qual não tira nenhuma lei nem regra de ação na ordem física, e sua vantagem não é o domínio do mundo mas é de ordem ética e ontológica, consistindo em se familiarizar com a morte.
29. A morte, que se situa no fim para além do desenrolar temporal dos fenômenos, é ao mesmo tempo a realidade que deve ser apreendida aqui mesmo desde agora, misturada à trama presente do sensível, e o ensinamento do cálculo renal substitui com maior insistência o exercício proporcionado pela queda de cavalo.
30. O fato natural do sofrimento limitado à consciência sofredora não aumenta em nada nossos meios de ação sobre a natureza, e dele resulta uma sabedoria que consiste em se confiar à natureza e em deixá-la fazer sua obra.
31. É radical a oposição entre a experiência médica que tendo tomado a natureza como objeto de observação procura dirigir ou contrariar suas operações e a experiência pessoal refletida que se resigna a ignorar as operações da natureza enquanto aceita tomá-la como guia.
32. A preferência que Montaigne concede à experiência íntima não deixa de ter relação com a oposição do ser e do parecer, pois as promessas da medicina são ilusórias, são puro parecer e vá presunção, requerendo do paciente uma confiança iludida.
33. Se os efeitos da medicina fossem sólidos e certos ela possuiria as próprias qualidades do ser, mas como esses efeitos dependem da crença que lhes é devotada ela só pode inscrever-se no registro da aparência, daí os qualificativos que lhe são atribuídos: fantástica, vã, sobrenatural.
34. A experiência interna constitui igualmente a pedra de toque que permite julgar outra ciência, a filosofia, e ver se as condutas que ela prescreve dependem do ser ou do parecer, pois para quem faz a prova da dor corporal é evidente que a serenidade prescrita pelos filósofos não passa de fingimento e máscara.
35. Montaigne sempre considerou puro exibicionismo o preceito que ordena tão rigorosa e positivamente que se mostre alguém desdenhoso e calmo ante o sofrimento físico, e a filosofia que só leva em conta o que é real e suas conseqüências se compraz nessas exterioridades.
36. Que deixe isso aos tolos e aos retóricos que tão grande importância emprestam aos nossos gestos, e que nos acorde o direito à covardia verbal desde que não provenha do caráter e a classifique entre os suspiros, palpitações, soluços e lágrimas que a natureza não nos permite evitar.
37. Desde que não atinjam o ânimo e não fraqueje a nossa mente, pouco importam as caretas e os trejeitos, pois é para nós mesmos e não para os outros que nos educa a filosofia, para que sejamos e não para que pareçamos ser.
38. Ainda que a filosofia possa fortalecer-nos a coragem, ela ultrapassa os seus direitos quando pretende reger os movimentos corporais do doente, em quem o gesto voluntário se distingue tão mal das reações involuntárias, e que a filosofia impeça então Sócrates de corar de afeição ou de vergonha, de piscar os olhos à ameaça de um golpe, de tremer e de suar aos abalos da febre.
39. Ao marcar os limites de uma filosofia do absoluto domínio, a experiência do corpo de que Montaigne faz o ensaio pela dor conduz a uma sabedoria humilde que não se revolta diante do involuntário ou diante da vontade vencida que imprimem sua marca em nossos suspiros e gemidos.
40. Por certo convém salvar o que pode ser salvo dos poderes da reflexão e do julgamento, muito mas não tudo, pois o excesso do sofrimento traça um limite e constitui um critério que separa o possível e o impossível.
41. Montaigne analisa-se durante esses ataques e sempre verificou que continua capaz de falar, pensar e responder como de costume, não contudo de maneira fluente, pois a dor perturba por vezes a atenção, e quando os que o assistem procuram poupá-lo ele mesmo se põe a discorrer sobre assuntos em nada relacionados com a doença.
42. A consciência do corpo acentuada pela doença delimita um lugar em que o sujeito não depende de nenhuma outra jurisdição que não da natureza, a qual o intima a sofrer seu destino corporal, e é o domínio do meu, do próprio, do inalienável, e também o domínio em que o tempo exerce sua devastação arrastando o corpo para a velhice e a morte.
43. A natureza é o poder ambíguo que nos salvaguarda e que nos altera, e para que servirá a intervenção da medicina que pretende modificar o corpo segundo o sistema codificado das entidades e das qualidades perigosamente atribuídas à natureza.
44. O corpo sofredor recusa com o mesmo alento a intervenção da filosofia que pretende ditar-lhe uma atitude e uma decência exterior, ao passo que a submissão a semelhante regra está fora de seu poder.
45. Se a biblioteca no topo da torre pôde ser para Montaigne um refúgio contra os avanços do mundo, o corpo mais uma vez se torna um refúgio contra os avanços das artes, com a condição de que a independência do julgamento que permite analisar-se durante esses ataques seja ao mesmo tempo preservada.
46. O que o indivíduo experimenta em seu corpo depende apenas de sua relação imediata com a Natureza, isto é, com uma autoridade capaz de manifestar-se espontaneamente nele próprio sem que um discurso técnico interponha sua interpretação.
