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starobinski:1982:3

3 Outrem

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

“A RELAÇÃO COM OUTREM”

O ENSAIO DA INDEPENDÊNCIA

1. Montaigne proclama incessantemente seu desejo de independência e seu ódio mortal às obrigações de qualquer espécie, esforçando-se por nada dever a outrem e por não recorrer a ninguém além das obrigações comuns e naturais.

2. Montaigne desenvolve essas considerações para justificar a viagem que o conduziu a Roma, pois os distúrbios civis o reduziram a depender da benevolência dos vizinhos, situação em que não pode escapar ao sentimento de ser devedor de sua própria salvaguarda.

3. A vida é um dom de Deus e não deveria ser considerada recompensa ou graça especial, pois muitos preferiram perdê-la a devê-la a outrem, e Montaigne detesta toda espécie de obrigações, sobretudo as que resultam de um ponto de honra.

4. Qualquer dom que implique reconhecimento parece demasiado oneroso, e Montaigne quer valer-se de serviços pagos, dando dinheiro em troca destes e dando-se a si mesmo em troca dos outros, agradecendo a Deus por somente dever à Sua bondade tudo o que possui.

5. Deus, invocado com tanta reserva, é aqui agradecido por tê-lo preservado de ser o devedor de outrem, e Rousseau se inspirará nessa argumentação ao fazer profissão de ingratidão, pois os benefícios escravizam aquele que os aceita, reservando-se o dom de si ao único amigo.

6. O viajante que escapa à dependência doméstica e aos favores dos vizinhos reencontra no caminho o risco da dependência em outros aspectos, não podendo esquivar o olhar dos outros quando gasta seu dinheiro, e confessa não ser insensível a essa consideração.

7. Viver a comparar-nos com os outros causa mais prejuízos do que benefícios, pois nos privamos do que nos é útil para fazer como os demais e menos nos importam as condições em que vivemos do que o que exibimos em público.

8. Desertamos de nosso ser e deixamo-nos roubar, e a culpa pode ser-nos imputada na medida em que nos submetemos voluntariamente à opinião comum, permanecendo indecisa a questão de saber se é artifício ou impulso natural que nos inspira esse comportamento.

9. Sobre o rapto de nosso ser pelo olhar de outrem, essas linhas de Montaigne formulam, na linguagem tradicional da reprovação moral, uma constatação que será retomada por Sartre em sua descrição fenomenológica do para outrem, retraduzida em lição moral quando Sartre dá forma teatral ao inferno são os outros.

10. Montaigne elabora os preceitos de um para si em oposição simétrica aos malefícios da relação com outrem, sendo preciso remeter-se apenas a si para conhecer seus vícios e suas virtudes, e em Do arrependimento atribui ao artifício a parte de nós mesmos acessível ao olhar dos outros.

11. Só nós mesmos sabemos se somos covardes e cruéis ou leais e religiosos, pois os outros não nos vêem mas apenas nos adivinham de acordo com conjecturas duvidosas, percebendo não a natureza real mas a aparência que mediante artifícios conseguimos exibir, devendo-se atentar unicamente para a própria opinião.

12. Os vícios e as qualidades de que somos as únicas testemunhas definem disposições em relação a outrem, e o que é recusado é a submissão ao julgamento dos outros, e de maneira nenhuma o sistema dos valores éticos que regulam a conduta em relação aos outros.

13. A independência rompe os laços da obrigação e instaura um afastamento, e se se permanece entre os homens e se aceitam funções públicas, ela toma facilmente os ares da superioridade desdenhosa, podendo valer a hostilidade daqueles de quem se mostra dessemelhante.

14. Para escapar a esse destino, a solução consiste em preservar a integridade da relação consigo enquanto se interpõem, para outrem, as aparências exigidas pelas circunstâncias, oferecendo-se no exterior uma imagem sem verdade menos para enganar os outros do que para proteger a si mesmo.

15. Quando nos misturamos à multidão cabe abrir o caminho aos empurrões, avançar e recuar, e viver não como desejaríamos mas como querem os outros, segundo o tempo, os homens e as coisas.

16. A reivindicação de autonomia, reforçada pelos conselhos da prudência, fixa as condições nas quais, na corte e diante dos inimigos dissimulados, não é desonroso usar a máscara ou separar os sentimentos interiores da conduta exterior, conformando-a a um modelo comum que não dê ensejo à atenção maldosa.

17. O sábio precisa concentrar-se e deixar a seu espírito toda a liberdade de julgar as coisas com serenidade, mas quanto ao aspecto exterior delas cabe-lhe conformar-se sem discrepância com as maneiras geralmente aceitas, pois a opinião pública nada tem a ver com o nosso pensamento.

18. Esses preceitos de independência podem conduzir a um conformismo de fachada, mais próximo do abandono complacente do que da comédia deliberada, mas não deixam de ser uma lição de duplicidade, pois os homens são feitos de tal maneira que é preciso enganá-los para o seu bem.

19. Essa convicção aristocrática ou maquiavélica autoriza o cortesão, o magistrado ou o legislador a usar de impostura quando o fim visado justifica semelhante meio, pois o que estes apreciam são as aparências, e se os homens são incapazes de apreciar a moeda verdadeira usa-se a falsa.

20. É reconhecer que, se nós mesmos saímos do reino da opinião, convém levar em conta sua inelutável presença nos assuntos humanos, e o homem responsável, prevenido contra a aparência sedutora, dela se fará o utilizador experimentado a fim de preservar a ordem social e a paz pública.

21. Ao não deixar transparecer nada de seus verdadeiros sentimentos, não se escapa à dependência do olhar público senão o enganando, e não se muda uma relação desequilibrada senão a invertendo em detrimento de outrem, agravando-se o mal que afeta os laços dos homens em sociedade.

22. A infecção não nos atingirá, mas à custa da cirurgia que afasta tudo que não é estritamente nosso lançamos os outros na ilusão da qual nos libertamos, e a partir desse lugar separado dirigimos melhor as coisas do mundo mas não estamos mais no mundo, entre os vivos.

23. A pergunta que se coloca é se semelhante ruptura pode ser indefinidamente sustentada e se corresponde a uma verdadeira libertação, examinando-se no que converte a vida interna do eu quando se abole a dualidade polêmica entre o dentro e o fora.

24. Para enunciar a sentença que será minha e para que me mantenha nela é preciso paradoxalmente que eu perpetue em mim a cisão que separava o interno e o externo, mantendo o esquema dualista a distância entre a consciência que julga e o objeto que meu ser é para esta.

25. A intimidade sólida que Montaigne queria recriar em si mesmo e a plenitude que desejava substituir à dispersão externa não se deixam instaurar, pois há espaço demais dentro para que a pluralidade e a alteridade não o invadam, e ao tentar retomar-se pelo julgamento precisa criar ou sofrer uma distância que o torna estranho a si mesmo.

26. Algo nele se torna fato para um olhar que não é um fato mas uma pura e livre exigência, e o ato pelo qual se percebe o faz existir como uma coisa análoga a todas as coisas do mundo exterior, chegando deliberadamente a considerar-se como a um vizinho ou árvore.

27. A mobilidade e a instabilidade, que de início pareciam vícios exclusivos do mundo exterior, também o atingem, pois quanto mais tenta recompor-se mais variegada e contraditória lhe parece sua própria natureza, entregue a uma mutação que o arrebata continuamente e o impede para sempre de encontrar o repouso.

28. Ele não pode coincidir com sua própria fonte, pois um longo desvio o separa de sua origem, e um fator de descontinuidade e de heterogeneidade vem deformar tudo quando desperta para a possibilidade do artifício.

29. O parecer, executor das altas obras da mutação, não insinua seus malefícios entre mim e eu, e o próprio devir e a passagem são irrepreensíveis, mas o topos do fluxo perpétuo põe em xeque toda realização do topos moral da apropriação de si mesmo.

30. Montaigne tenta consentir na natureza e deixar-se molemente arrastar por ela, dando livremente a palavra a uma profunda desenvoltura nas frases e nos gestos e à imprecisão da improvisação, mas fala nos lagos convenções comuns da inteligibilidade.

31. No limite, incapaz de liberar-se inteiramente das servidões da sociedade, a consciência descobre-se sem amago, artificial e artificiosa, o que a levará a perguntar a si mesmo se o homem não se define precisamente pela aptidão para colocar as forças moventes da natureza a serviço de uma obra.

32. Seus hábitos transformaram-se em natureza, e ao descobrir e descrever-se é forçoso reconhecer que não pode impedir-se de intervir entre o dado fortuito da experiência imediata e o ato pelo qual tenta representar o que experimenta, pois falar é sempre um ato social.

33. De resto, Montaigne evita contradizer a tradição que define o homem como naturalmente sociável, pois a natureza parece particularmente interessada em implantar nele a necessidade das relações de amizade, de modo que a malícia da aparência e o mal que sofremos pela necessidade de viver pela relação com outrem pertencem a essa condição natural.

34. Obra e natureza é ingenuamente desconhecer a evidência de que a aptidão ao artifício, no homem, pertence à sua própria natureza ou, pelo menos, aí tem origem, pois o homem é por natureza esse ser que tem o poder de desnaturar o que ele naturalmente é.

35. Para o homem que quer ser a sua própria sentença, o perigo não é menor do que na relação com outrem, pois o orgulho, a vaidade e o desejo insinuam suas lisonjas e suas mentiras, e a alteridade encontra bastante oportunidade de nascer sem a intervenção dos outros.

36. O próprio Montaigne, ao definir a presunção, fornece a Pascal e aos moralistas de Port-Royal os argumentos de sua crítica, pois essa afeição impudente faz que nos representemos aos nossos próprios olhos diferentes do que somos.

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