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1 Problema

SOURIAU, Étienne. Les différents modes d'existence. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1943. (Reedição contemporânea monumental com longo ensaio introdutório de Bruno Latour e Isabelle Stengers: Paris: PUF, 2009).

Primeiro capítulo: Posição do problema

1. A existência do pensamento, da matéria, de Deus, de Hamlet, da Primavera, de Peer Gynt, das raízes quadradas de números negativos ou da rosa azul constitui uma série de perguntas cujo sentido não é evidente.

2. O acúmulo dessas perguntas coloca uma questão mais vasta que as contém todas, a de saber se há várias maneiras de existir, isto é, se o existir é múltiplo e se encontra contido não nos indivíduos em que se atualiza, mas em seus tipos.

3. A filosofia sempre manteve essa questão aberta, mas as respostas dos filósofos são tendenciosas, pois ao afirmar também desejam, e conforme esse desejo a existência ora se desdobra em múltiplos modos, ora volta a ser una.

4. Quando se deseja ver o ser reinar em solidão numérica, a multidão de seres reúne-se em tribos segundo tipos de existência para dissolver-se no ser único, que se torna síntese de todos os tipos, como em Espinosa, embriagado pela unicidade da substância, mas que logo a fende segundo uma infinidade de atributos, já que quanto mais realidade uma coisa tem, mais atributos lhe pertencem.

5. Retirada a unidade panteísta da substância, não é o mundo que se divide em partes, mas o existir que se divide irremediavelmente numa multiplicidade de tipos, multiplicidade semelhante à que surge quando o único é colocado acima da existência, como em Mestre Eckhart, ou quando Plotino, recusando a homonímia do verbo ser, conta nove gêneros de existência.

6. Inversamente, quanto mais os seres realmente substanciais se multiplicam, mais seu estatuto existencial se torna idêntico e único, como entre os atomistas, de Epicuro a Gassendi e em certos aspectos Leibniz, para quem a imensa reunião de seres semelhantes atesta um único tipo de existência, do qual um só átomo pode servir de modelo, admitindo-se no máximo a distinção entre simples e compostos.

7. Leibniz oscila entre os dois movimentos, pois depois de reduzir a existência ao gênero monádico e fazer de Deus uma mônada entre mônadas, distingue as mônadas criadas da mônada incriada, as essências e verdades eternas que formam o reino do possível, o reino das causas eficientes e o das causas finais, a natureza e a graça, de modo que partindo da multidão afirma a unicidade do tipo de existência e partindo da unidade primitiva vê o real fender-se em gêneros diversos.

8. Há uma diferença profunda entre o pluralismo ôntico, que afirma a multiplicidade dos seres, e o pluralismo existencial, que afirma a multiplicidade dos modos de existência, pois o monismo ôntico pode acomodar-se a um pluralismo existencial, como no panteísmo, e o pluralismo ôntico pode valorizar um monismo existencial, como no atomismo.

9. A oposição entre pluralidade existencial e pluralidade ôntica, embora frequente, não é necessária, pois existe, ainda que raramente, um monismo integral que proclama ao mesmo tempo a unidade do ser e a unicidade da existência, como entre os eleatas e sobretudo os megáricos.

10. Existe também um pluralismo hiperbólico, chamado polirrealismo, que reconhece sem ligação entre si diferentes seres e diferentes tipos de existência, como certos fideísmos à maneira de Schleiermacher, que separam uma esfera sentimental da religião e uma esfera racional da ciência.

11. Aspirações secretas animam essas posições, pois os atomistas libertinos esperam abolir os seres que pertenceriam apenas à experiência moral ou à esperança metafísica, os pluralistas existenciais concedem-se um universo de fundo duplo para restaurá-los, os polirrealistas querem mostrar que as coisas da religião existem sem ofender as da ciência e os eleatas querem abolir o devir sem negar o mundo.

12. O problema situa-se no centro do que há de mais vivo e talvez de mais tendencioso na filosofia, pois as concepções mais divergentes, metafísicas e práticas, chocam-se em torno da proposição de que há mais de um gênero de existência ou de que a palavra existência é unívoca, e conforme a resposta, sobretudo cruzada com a da unicidade ou pluralidade do ser, todo o universo e o destino humano mudam de aspecto, como portas de bronze que se abrem e se fecham num pulso fatídico.

13. O mundo torna-se muito vasto se houver mais de um gênero de existência, se não se esgotar ao percorrer tudo o que existe segundo um de seus modos, se cada ponto de sua rede constitutiva se abrir como uma janela de porão para conjuntos novos de determinações do ser, intemporais, qualitativas, virtuais ou transcendentes, e se for preciso equipar o pensamento não só para todos os raios multicores da existência, mas para a luz branca de uma sobre-existência que os unifique sem subverter sua realidade.

14. Inversamente, o mundo é inteligível e racional se um só modo de existência explica tudo o que ele contém, mas basta uma única fissura na rede, como a indispensabilidade do qualitativo num mundo descrito por relações quantitativas, para tornar ilegítima essa simplificação metódica.

15. A realidade humana torna-se rica se implicar vários gêneros de existência, exigindo, segundo a análise biraniana, que o homem habite sua existência biológica, sensitiva, perceptiva, reflexiva e espiritual para conquistar a verdade de seu ser, e torna-se simples e racionalizável se apenas um desses tipos for real, como numa dialética materialista ou numa existência puramente temporal, alternativa decidida pela pequena frase de que há uma ou várias maneiras de existir.

16. O físico ou o astrônomo que observou pósitrons, nêutrons, elétrons dançando o Balé dos Quanta e galáxias em expansão precisa ainda decidir se tudo isso tem uma existência física, objetiva e cósmica, uma existência racional e representativa ou uma existência substancialmente ligada à do microscópio e do telescópio.

17. Goethe diante de Ennoia-Helena ou Vigny diante de Eva devem perguntar se o ser sonhado tem lugar no mundo real, se é feito da matéria dos sonhos, lábil e precário, ou um ser necessário procedente de causas profundas, simples fermentação fisiológica, Eterno Feminino, Eterno Ideal ou Eterna Mentira.

18. O eu sublime e mais real que se sonha suscita a pergunta sobre se é um ser verdadeiro ou ilusório, de vida transcendente ou de vida psíquica contingente, uma enteléquia ou a extrapolação ilegítima de uma tendência, e sobre se é mais sábio dizer que não existe ou apegar-se a ele para dele viver.

19. Tal é o problema, ou antes tais são as questões às quais uma discussão bem conduzida deveria permitir responder com tranquilidade.

20. Trata-se de uma questão-chave em que convergem os problemas mais importantes, a de decidir quais seres serão assumidos pelo espírito, se o conhecimento deverá sacrificar à Verdade populações inteiras de seres despojando-os de toda positividade existencial ou se, para admiti-los, terá de dividir o mundo em dois ou em três.

21. Trata-se também de uma questão prática, pois importa a cada um saber se os seres que se supõem, sonham ou desejam existem com a existência do sonho ou da realidade, e de qual realidade, qual gênero de existência está pronto para recebê-los e mantê-los, e se, considerando apenas um gênero, se deixam incultas pelo pensamento e não reclamadas pela vida vastas riquezas de possibilidades existenciais.

22. Trata-se ainda de uma questão notavelmente restrita, delimitada pela pergunta sobre se o verbo existir tem o mesmo sentido em todos os seus usos e se os diferentes modos de existência distinguidos pelos filósofos merecem todos, em plena e igual medida, o título de existência.

23. Trata-se, por fim, de uma questão positiva, das mais importantes por suas consequências, que se apresenta sob a forma de proposições precisas suscetíveis de crítica metódica, cuja inventariação na história do pensamento, ordenação em quadro e submissão à crítica adequada constituem uma tarefa considerável.

24. Uma coleta aleatória de distinções existenciais, como ser atual e ser potencial, aseidade e abaleidade, existência em si, para si e junto a si em Hegel, ou Dasein, Zuhandensein e Vorhandensein em Heidegger, de nada serviria sem conhecer os pontos de vista de que resultam, sua compatibilidade mútua e seu alcance exaustivo.

25. Uma revisão histórica das maneiras como o problema foi colocado seria mais útil, mostrando como o pensamento primitivo era sensível a distinções existenciais axiológicas, como a oposição jônica entre aparecer e ser leva ao monismo eleata, como Platão concebe o não-ser como ser-outro e funda um pluralismo existencial desenvolvido por Aristóteles e pela Idade Média contra o qual só Duns Scot sustentou a univocidade do ser, como Plotino propõe a unificação dos modos para além da existência e os graus intensivos do ser, como Descartes, Berkeley, Kant e Hegel reduziram, distinguiram ou dialetizaram os modos, até as escolas fenomenológicas e existencialistas, que colocam a existência entre parênteses de seus investimentos e multiplicam quase indefinidamente seus modos como maneiras fortes de existir e vias de acesso ao ser.

26. Essa revisão evidenciaria a solidariedade de um tesouro que une as instâncias mais recentes às experiências inelimináveis da philosophia perennis, a urgência de classificá-lo em quadros completos que permitam uma visão sinóptica da existência em sua totalidade e a divisão do problema em três questões principais.

27. A primeira questão é a dos modos intensivos de existência, pois antes de perguntar se algo existe e de que maneira é preciso saber se a pergunta admite resposta por sim ou não ou se é possível existir um pouco, muito, apaixonadamente ou de modo algum.

28. A segunda questão, a dos modos específicos propriamente ditos, é regida pela oposição entre dois métodos, um que assume o conteúdo ôntico total da representação humana para classificar seus modos e avaliar seu conteúdo existencial positivo, outro que, considerando que a existência se encontra também entre os seres, parte de um dado ôntico mínimo e busca as passagens e conexões pelas quais se vai do mesmo ao outro.

29. Os dois métodos, igualmente válidos, conduzem a resultados diferentes que podem ser coordenados, permitindo reconhecer na existência tanto as maneiras de ser dos diversos seres quanto as modulações do fato de existir, seus ecos e apelos, distinguindo, por comparação filológica, semantemas e morfemas da existência.

30. A última questão é a da busca de unificações possíveis, que implica a noção de sobre-existência.

31. Esse tríptico fornece o quadro do plano geral da investigação.

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