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schopenhauer:2006:start

Arte de Conhecer a Si Mesmo

SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Conhecer a Si Mesmo. Organização e ensaio de Franco Volpi. Tr. Jair Barboza e Silvana Cobucci Leite. São Paulo : Editora WMF Martins Fontes, 2009

1. Conhece-te a ti mesmo!

1. O conhecimento de si constitui o começo da sabedoria, expresso no preceito délfico “Conhece-te a ti mesmo!”, atribuído a um dos Sete Sábios e inscrito na entrada do templo de Apolo em Delfos, considerado o umbigo do mundo.

2. Essa máxima fundamenta a lição de vida transmitida pela filosofia desde Heráclito, mas é sobretudo Sócrates quem faz do conhecimento de si o eixo da sabedoria filosófica, transformando-o, no Alcibíades Maior de Platão, na regra áurea do cuidado de si, razão pela qual a sabedoria é frequentemente representada com um espelho na mão.

3. O conhecimento de si também pode converter-se no erro de Narciso, isto é, no fechamento vaidoso sobre a própria imagem que impede qualquer relação com a realidade e torna o indivíduo prisioneiro de si mesmo.

4. Com seu duplo valor, o tema do conhecimento de si atravessa os séculos até a era moderna, sendo retomado sobretudo pela filosofia moral e chegando a Goethe, que desconfia da origem divina do lema délfico por julgá-lo enganoso.

5. Nos versos de Goethe, o preceito revela-se contraditório, pois ordena ao mesmo tempo ser e não ser, e conhecer a si mesmo equivale a ter de abandonar-se imediatamente, como quem chega a um baile de máscaras e logo retira a máscara do rosto.

2. O manuscrito perdido

1. Schopenhauer herda o motivo do conhecimento de si da filosofia moral e de sua sólida formação clássica, mas, em vez de tratá-lo de modo abstrato, pratica-o como sabedoria concreta de vida.

2. Sob o título Eis heautón, tomado das meditações de Marco Aurélio, Schopenhauer reúne ao longo dos anos reflexões destinadas a si mesmo que formam um livro secreto, perdido e agora reconstruído.

3. Iniciado em 1821 e ampliado nas duas décadas seguintes, o caderno de cerca de trinta páginas reunia anotações autobiográficas, recordações, reflexões, regras de comportamento, máximas e citações que condensavam a sabedoria pessoal do filósofo como arte de conhecer a si mesmo e orientar-se no mundo.

4. Escrito num período de grandes adversidades, o pequeno livro nasce do contraste entre a plena consciência de sua vocação filosófica após a publicação do Mundo e a total falta de reconhecimento acadêmico, agravada pelo embate com Hegel, pelo rompimento com a mãe, por problemas financeiros e por dificuldades nas relações humanas, circunstâncias que explicam um pessimismo fruto não da fraqueza, mas da lucidez e do sentido trágico da existência.

5. Diante desses desafios, Schopenhauer não age como estoico fatalista nem como erudito alheio ao mundo, mas como homem corajoso que mobiliza todas as técnicas e estratégias de sua inteligência e de sua habilidade prática.

6. Disso decorre a convicção de que a filosofia é não apenas conhecimento teórico do ser, mas também sabedoria prática de vida, expressa em pequenos tratados de uso pessoal, como a Eudemonologia, o Tratado sobre a honra e a Dialética erística, entre os quais o Eis heautón representa a quintessência dessa concepção e obriga a rever a imagem monolítica de seu pensamento.

3. Pesquisas e suspeitas

1. Schopenhauer não ocultou de amigos e seguidores a existência desse manual zelosamente guardado, mas confidenciou aos mais íntimos que ele só poderia ser publicado após sua morte, conforme relata Ernst Otto Lindner, primeiro a noticiar sua existência e seu desaparecimento.

2. As buscas pelo manuscrito, realizadas logo após a morte de Schopenhauer e repetidas depois da resolução da herança, resultaram inúteis, apesar da insistência de Adam von Doss e de Julius Frauenstädt junto ao executor testamentário Wilhelm Gwinner.

3. Segundo Gwinner, o Eis heautón não passava de um caderno de cerca de trinta folhas soltas sobre assuntos pessoais, regras de prudência e citações já aproveitadas nos Parerga, que teria sido destruído após a morte do filósofo por vontade deste.

4. Insatisfeito com essa resposta, Frauenstádt passou a suspeitar quando Gwinner publicou em 1862 uma biografia do filósofo contendo trechos bem escritos demais e próximos demais do estilo de Schopenhauer, o que sugeria a exploração do material inédito antes de sua suposta destruição.

5. Os discípulos mais fiéis consideraram essa conduta ainda mais indigna porque Gwinner se gabava de não ser schopenhaueriano e, adepto de uma visão de mundo cristã inspirada em Jacob Böhme e Franz von Baader, havia se afastado da metafísica do pessimismo, como mostrava seu romance Diana und Endymion.

4. Gwinner em apuros

1. Frauenstädt buscou o apoio dos seguidores de Schopenhauer para obrigar Gwinner a confessar ou a restituir o caderno e, em resposta à biografia, publicou com Lindner, em 1863, um amplo volume de memórias e inéditos em defesa do filósofo.

2. O testemunho de Lindner, a quem Schopenhauer falara do Eis heautón ainda em 1858, contestava a versão de Gwinner por julgar incompatível com a natureza prudente do filósofo a ordem de destruir um escrito tão importante, e reforçava a acusação de plágio com base nas discrepâncias de estilo da biografia.

3. Ao defender-se em um libelo publicado no mesmo ano, Gwinner rejeitou com desdém a acusação de plágio, mas acabou confessando involuntariamente que Schopenhauer lhe havia transmitido e lido partes do caderno, depois transcritas e incluídas em sua biografia.

5. Estranho comportamento

1. Gwinner poderia facilmente ter dissipado as dúvidas publicando suas próprias anotações, o que permitiria distinguir com clareza o que provinha de sua pena e o que remontava a formulações do mestre.

2. Diversos indícios sugerem que Gwinner não destruiu o material, mas o conservou em sigilo, pois nas edições posteriores da biografia acrescentou novas citações literais de Schopenhauer e forneceu a correspondentes esclarecimentos que só poderiam provir desses papéis.

3. Gwinner nunca tornou público o material que possuía, deixando à posteridade a tarefa de imaginar seus motivos, entre os quais Nietzsche, na Genealogia da moral, insinuou que o executor teria queimado os papéis porque Schopenhauer escrevera algo sobre si mesmo e talvez contra si.

6. De pai para filho

1. Com a morte de Gwinner em 1917, os papéis passaram ao filho Arthur, cônsul na Espanha e depois alto funcionário do Deutsche Bank, que em 1918 anunciou tê-los doado à Stadtbibliothek de Frankfurt sob a condição de só serem abertos dez anos após a morte de seu autor.

2. Apesar do anúncio, os papéis jamais chegaram à Stadtbibliothek, e nem a viúva nem, mais tarde, a neta Charlotte von Gwinner conseguiram encontrá-los.

7. Mais acusações: Grisebach

1. A polêmica reacendeu-se com Eduard Grisebach, editor das obras de Schopenhauer, que, apoiando-se sobretudo na admissão de Gwinner de ter extraído passagens do Eis heautón, talvez literalmente, reafirmou a acusação de plágio e de falsa declaração, sustentando ainda que o manuscrito teria pelo menos oitenta páginas, e não trinta.

8. As reconstruções do texto e a presente edição

1. Grisebach realizou a primeira reconstrução conjectural do caderno perdido ao identificar na biografia de Gwinner as passagens provavelmente oriundas do manuscrito, organizá-las por critérios cronológicos e temáticos e transpô-las da terceira para a primeira pessoa, publicando-as em 1898 e depois acrescentando material autobiográfico em suas Neue Paralipomena.

2. Partindo do trabalho de Grisebach, mas reexaminando o legado manuscrito e datando os trechos, Arthur Hübscher propôs uma nova reconstrução, primeiro na edição dos Sämtliche Werke dirigida por Paul Deussen e depois, de forma mais aprimorada, em sua edição do espólio manuscrito.

3. A presente edição considera ambas as reconstruções, preferindo em geral a de Hübscher e sua cronologia, mas, diante do caráter conjectural e incompleto das datações, organiza os fragmentos segundo um critério temático.

4. O resultado oferece uma ideia clara do manual de filosofia prática elaborado por Schopenhauer, cujas regras fundamentais incluem autarquia, autoestima, amor-próprio, vida solitária, aristocracia da inteligência, saudável misantropia e prudência com o outro sexo, tudo apoiado na convicção de que convém sempre raciocinar ex summo malo, pensando no pior em vez de confiar na miragem do bem ou na improvável bondade alheia.

5. Mesmo fragmentária, a reconstrução desse livro secreto oferece acesso privilegiado aos pensamentos íntimos do mestre do pessimismo, para quem a vida não é bela, embora a filosofia possa contribuir muito para torná-la mais suportável.

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