User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
schelling:estudos:veto:7.8

7.8 Identidade

VETO, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.

1. Essa visão do céu estrelado é como uma surpreendente metáfora do universo da identidade. As ideias se relacionam umas com as outras segundo reciprocidade harmoniosa, e a ordem que constituem exprime uma metafísica da compossibilidade.

  • Schelling quer reabilitar o particular pela doutrina da Ideia. A ambição última da especulação, porém, não é a dedução do particular, mas a construção do Todo. Em Jena, Schelling edificara paralelamente a filosofia da Natureza e a filosofia do Eu, e “a identidade do dinâmico e do transcendental” acabou por resultar, através da superação da Dualidade, no advento de uma identidade universal

2. Schelling apresenta em 1801 seu sistema da identidade, onde a filosofia da natureza e a filosofia transcendental se subsumem sob uma metafísica geral. O sujeito-objeto, essa identidade imperfeita do idealismo transcendental, torna-se categoria absoluta, sinônima de Razão e de Absoluto.

  • a Identidade aparece sob a aparência de uma recaída na ontologia dogmatista. Na verdade, se a Identidade tem o ser como um de seus aspectos, é essencialmente uma noção dinâmica e relacional. A proposição fundamental dessa filosofia é A = A, o sujeito é o objeto, a forma é a essência
  • e precisamente, a identidade não é nem o sujeito, nem o objeto, nem a soma do sujeito e do objeto: é o ser-posto incondicionado dos dois termos. Schelling fala da unidade e da clareza não perturbada da identidade absoluta; essa unidade e essa clareza, porém, não dizem respeito a uma entidade, mas a uma relação
  • A = A é o princípio da identidade; ora, correspondendo A já em si mesmo à identidade, A = A significa a identidade da identidade

3. A identidade da identidade não é uma relação simplesmente lógica ou ideal, mas uma realidade efetiva, ou mesmo a efetividade em si mesma. Se a identidade não é apenas o ser, ela é, sim, ser. A Exposição de 1801 explica que o ser da identidade absoluta é “uma verdade eterna”.

  • dito de outro modo: “pertence à essência da identidade absoluta ser”. O transcendental, que, em virtude do esquematismo, é de natureza originariamente temporal, possui autêntica potencialidade existencial que a relação da identidade atualiza
  • o que equivale, no entanto, a uma primeira reabilitação da prova ontológica, oculta as dificuldades próprias do idealismo absoluto. A proposição A é A, que em Fichte significava a autoposição do Eu, exprime agora a implicação necessária de seu ser pelo Absoluto
  • o Absoluto não pode deixar de ser, existindo em virtude de seu conceito. Ora, o Absoluto de Schelling não é uma realidade transcendente: contém o Todo, ou antes, ele o é
  • Schelling insiste na realidade exclusiva do Absoluto: tudo é “Razão” e nada está fora dela, portanto tudo é absoluto. Desde o início de sua reflexão, Schelling se interrogava sobre a possibilidade das proposições sintéticas a priori como equivalente à possibilidade de saída do Absoluto de si mesmo
  • acabará por identificar quase análise e síntese, o que equivale a abolir o filosofema da síntese a priori, emblema e mola suprema do dualismo crítico
  • paralelamente ao apagamento, e depois à supressão da síntese a priori, Schelling recusa a própria ideia de uma saída do Absoluto de si mesmo, portanto o devir verdadeiro, o advento de um mundo outro que não o Absoluto
  • o conhecimento filosófico se instala “no próprio Absoluto, nem partindo dele apenas, nem saindo dele, nem se completando nele”. E paralelamente — é aqui que se situa o erro fundamental de toda filosofia, com a notável exceção de Espinosa — a identidade absoluta jamais sai de si mesma, mas permanece no seio de sua absoluidade eterna

4. Sem dúvida, o universo material não é a identidade absoluta stricto sensu, mas nem por isso está fora dela, separado dela. Os teoremas da Exposição “demonstram” que, de um lado, o Absoluto não pode deixar de existir, e, de outro, que só pode existir sob forma de totalidade.

  • por conseguinte, a identidade absoluta é a totalidade absoluta, a saber o próprio universo. Assim, Schelling salva e consagra a totalidade do Absoluto e a absoluidade do Todo, tese que implica a negação da finitude
  • Eschenmayer observa a Schelling que o segundo princípio da Wissenschaftslehre desaparece de seu sistema. E, de fato, o próprio Schelling ensinará explicitamente que o não-eu não tem lugar numa filosofia verdadeira
  • nenhuma “diferença quantitativa” poderia existir no seio da identidade absoluta, tornando-se, portanto, o particular um nada, sendo a finitude negada. Mais exatamente: no lugar da fragmentação do real pela reflexão, Schelling propõe a teoria das Ideias, onde o universo, em vez de ser fracionado em fenômenos, essas sombras, se encontra refletido e reafirmado por seres particulares, sendo cada um refração do Todo

5. A tese ontológica da negação da finitude tem consequências imediatas para o conhecer. Se só existe o Absoluto, só pode haver conhecimento do Absoluto, sendo portanto o conhecimento, o conhecimento verdadeiro, eo ipso absoluto.

  • argumentos e desenvolvimentos complicados dos diversos textos de Jena expõem a necessária absoluidade do conhecimento através da construção do Absoluto como contendo o conhecimento, mais precisamente, o autoconhecimento
  • do mesmo modo como a identidade absoluta é, é também conhecimento. Essa conclusão “lógica” pode ser corroborada a partir da visão idealista do real. A identidade do dinâmico e do transcendental resulta numa categoria metafísica universal que é tanto ser quanto conhecer: o real — cada momento, cada elemento do real — é igualmente conhecer
  • esse raciocínio conduz a consolidar a noção da intuição intelectual, hipóstase última da intuição estética do Sistema do Idealismo Transcendental. A intuição intelectual atinge o real na medida em que dele faz parte
  • se a Exposição de 1801 se dá a tarefa de apresentar a verdade eterna do ser da identidade absoluta, as Fernere Darstellungen, publicadas um ano depois, desdobram a doutrina da intuição intelectual como o saber puro onde se afirma a identidade absoluta
  • sucessora da intuição estética cujo objeto é a obra de arte, a intuição intelectual, que a maioria dos contemporâneos e sobretudo a posteridade quiseram entender como a reivindicação de um saber imediato, é essencialmente a leitura da identidade através do particular, a ideia. A intuição intelectual é, sim, conhecimento imediato do Todo, mas é sobretudo conhecimento do particular enquanto expressão e espelho do Todo

6. A intuição intelectual não é senão um sinônimo da Razão que, tendo-se libertado das limitações e restrições da Crítica, reivindica doravante o domínio de todo o real. O idealismo revela seu racionalismo essencial, e esse racionalismo integral aparece com coloração espiritual, religiosa cada vez mais marcada.

  • se a intuição intelectual não exclui certas afinidades com a teosofia, se permite, ou mesmo provoca, aproximações com a mística, a própria identidade absoluta não se limita ao formalismo metafísico abstrato da Exposição. Noção “positiva”, corresponde à harmonia preestabelecida
  • e, sobretudo, “a santa identidade” torna-se cada vez mais fortemente assimilada à própria divindade. Essa inflexão da escrita, porém, esse fascínio pelo espiritual, não é senão a atmosfera de uma especulação, o pathos próprio de um discurso filosófico que se crê chegado ao porto do cumprimento racional
  • o pensamento da identidade contempla, maravilhado, um mundo de transparência perfeita, de inteligibilidade homogênea. Um mundo que não é senão a Razão existente, um mundo, manifestação e reflexo fiel do Absoluto
  • apesar da confusão e da irracionalidade em que as coisas aparecem “ao juízo comum… tudo o que é e ocorre é racional, e a Razão… é a matéria primitiva e o real de todo o Ser…”
  • com essa afirmação da racionalidade do real e da realidade do racional, Schelling ergue o idealismo alemão a seu estágio supremo. O próprio Hegel assumirá essa posição, que fundamentará aliás e desenvolverá de modo infinitamente mais rico, mas que não saberá superar

7. O idealismo absoluto reivindicado pelo Schelling de Jena é o primeiro desfecho do pensamento pós-kantiano. Fichte cria poder construir a Wissenschaftslehre a partir de um único princípio, o do Eu. Todo o real se situa na autoposição do Eu, e a metafísica não é senão a leitura da articulação da Cópula.

  • Schelling, por sua vez, considera que a autoposição do Eu confirma a dualidade, a finitude, que o não-eu irredutível permite, quando muito, o domínio do Múltiplo pelo Uno, mas impede sua reunião harmoniosa, e por conseguinte a inteligibilidade completa do real, sua articulação conceitual integral

8. Schelling aceita a conquista fichteana da refutação da coisa em si e, por sua vez, nega toda noção do diverso, para acabar exorcizando o próprio não-eu. O desaparecimento do não-eu dobra os sinos de toda dualidade, inclusive a da natureza e do eu, construindo o sistema da identidade um universo de homogeneidade radical, sem cisão, sem alteridade, mesmo interior, imanente.

  • desde seus começos helênicos, a filosofia expressou periodicamente sua pretensão ao saber absoluto, mas é a primeira vez que crê poder igualar a exigência de perfeição do ato de conhecer com a ambição de aplicá-lo a todas as regiões e todos os recantos do real
  • a identidade absoluta se quer necessariamente enciclopédia: uma luz de força e clareza não perturbadas não reconhece nenhum plano do real que lhe seja estranho, interdito
  • sem dúvida, em sua primeira versão, em Schelling, o idealismo absoluto só é enciclopédia de jure, não de facto. A Exposição apresenta “uma filosofia do Todo e da Natureza”, mas nada diz do Espírito, e mesmo no Sistema de Toda a Filosofia, o admirável edifício das Lições de Würzburg, a exposição do “mundo ideal” permanece muito aquém em relação à filosofia da natureza

9. Nem os leitores, porém, nem o próprio Schelling, estão muito conscientes ou preocupados com esse desequilíbrio, não se desenvolvendo a crise do sistema da identidade por causa de suas carências em matéria moral, jurídica ou histórica.

  • o pensamento da identidade sobrevive em sua continuação criadora por Hegel, que saberá remediar a desproporção de que sofre a especulação. Hegel integrará o mundo do Espírito no edifício do idealismo absoluto para fazer dele verdadeira enciclopédia
  • desarma assim a crise do idealismo absoluto que Schelling, por sua vez, não quer nem pode gerir. A filosofia da identidade morrerá da problemática “existencial” da finitude, da teodiceia, do mal, morte que lhe permitirá um recomeço, uma renovação metafísica, em suma, o desdobramento da “segunda via” do idealismo alemão
  • esses desenvolvimentos, porém, só terão lugar mais tarde, e por assim dizer na sombra, prevalecendo, durante as três décadas seguintes à Exposição, a primeira via. Prevalece essencialmente pela imensa construção do sistema hegeliano
  • enquanto isso, a filosofia da identidade domina a cena. Domina-a em virtude de uma construção onde a relação do Uno e do Múltiplo é repensada numa unidade e reciprocidade inéditas, onde o ser e o conhecer, a forma e o conteúdo, a necessidade e a liberdade coincidem.
schelling/estudos/veto/7.8.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki