User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
schelling:estudos:tilliette:12

12 Todas as possibilidades

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. “Todas as possibilidades se realizam” — sendo o teorema de Schelling mais que um teorema, verdadeiro axioma gerador de seu pensamento, mantendo esse pensamento, tão rico em variações e mesmo em metamorfoses, intacta “da bela alvorada à triste noite” a afirmação da realização integral dos possíveis. Acompanhando o axioma, impávido, o curso aventuroso da filosofia schellingiana, tanto no período em que reina a necessidade quanto naquele em que domina a liberdade, seduzindo e intrigando, como a teoria das potências que o articula, exibindo ar um tanto provocante.

  • desafiando afinal o exército inumerável dos possíveis não realizados, das empresas sufocadas ainda no ovo, o cortejo sem fim das eventualidades, dos acasos, das utopias, das virtualidades, dos irreais, dos potenciais, dos futuros contingentes, dos futuríveis — tudo o que poderia ter sido e não foi, o império do condicional com sua bruma de arrependimento, seu halo de decepção e desengano, a miragem a perder de vista dos possíveis cintilando aquém e além do presente
  • sendo falso que se realizem todos os sonhos e todas as eventualidades, não sendo o pior sempre certo, havendo lugar no mundo para a escolha, o acaso, a contrariedade, a contradição, o fracasso, não faltando filosofias que insistem nesse drama do arbitrário e do possível para exaltar o ato de liberdade
  • como a do pensador bretão Jules Lequier: refletindo-se o trágico do livre-arbítrio humano na escolha crucial, irreversível, entre os possíveis, que por sua própria determinação desencadeia a quimera assustadora da necessidade, progredindo a vida ao abater os possíveis e recalcá-los à inexistência, restringindo todos esses escombros de possíveis, cada vez mais, como o tempo à pele de onagro, o campo da liberdade humana, até que ela afunde retroativamente na necessidade que a espreita como sua presa

2. Tendo, porém, Schelling prevenido a objeção, retirando-lhe o aguilhão, escrevendo, na Filosofia da Mitologia, a propósito da colossal exceção que a China constitui ao processo mitológico, essas linhas notáveis: bastar ter reconhecido a possibilidade de tal exceção para prever que se deve encontrá-la também na realidade, pois é próprio do Espírito universal cumprir todas as possibilidades verdadeiras, querer ou permitir em toda parte a maior totalidade possível de fenômenos, estando o curso do mundo, cuja lentidão só já deveria nos convencer disso, organizado em boa e devida forma para cumprir toda verdadeira possibilidade; não tendo os que avançam contra o grande princípio de que todo verdadeiro possível é também real a chã objeção de que então todo romance deveria ter sido ou tornar-se uma história real, senão a representação trivial do possível puramente abstrato e subjetivo, mal ou nada sabendo o que a filosofia chama possibilidade.

3. Devendo-se por isso atribuir ao possível valor pleno, positivo, aquele incluído no verbo poder no sentido de können, no dinamismo aristotélico e no par da potência e do ato. Equivalendo possibilidade a potência, empurrando o possível autêntico à realização, sendo boa a consequência que vai da realidade à possibilidade, do ato à potência que o gerou.

  • devendo dizer-se, de miríades e miríades de possíveis que não ocorreram, que não vingaram, que eram antes impossíveis, já que precisamente não foram, sendo potenciais atrofiados, anêmicos, exangues, como as sombras dos Infernos, possíveis abortados, natimortos, que não merecem o nome de possíveis
  • existindo eles na verdade por efeito de uma estranha miragem, a miragem do passado no presente, ilusão retrospectiva, sendo Bergson, também ele filósofo do pleno e do contínuo impulso e efervescência temporal, quem enuncia essa natureza precária e fantasmática do possível deixado de lado

4. Não seria então tentador inferir o possível a partir do real e decretar que dele é apenas um modo, a sombra projetada? O que retiraria à categoria de possibilidade toda utilidade, senão todo significado, parecendo apoiar essa visão a linguagem corrente que declara que “nem tudo é possível” ou que a política é “a arte do possível” (isto é, no fundo, do real).

  • não sendo essa, porém, a posição de Schelling: rejeitando a ideia de Leibniz de que o mundo resulta de uma seleção e sábia combinação entre infinidade de possíveis, não admitindo tampouco o atualismo espinosista, no qual a realização das possibilidades exibe o rosto imutável da necessidade inalterável
  • sendo o eterno retorno do Mesmo, eterno devir cíclico, variante móvel dessa substância imóvel, tendo Schelling tentado corrigir um pelo outro os dois grandes inspiradores, ou dois dos grandes inspiradores, de sua filosofia de juventude, buscando um meio-termo

5. Estarem, porém, as aparências contra ele nesse período dito da Identidade, pois na “filosofia absoluta” e na razão, réplica do conhecimento do Absoluto (também conhecimento absoluto), tudo é dado de uma vez, de saída; emergindo o Universo, o Um e Tudo, a uni-totalidade, integralmente e sem lacunas em seu esplendor acabado.

  • como daria essa aparição eterna lugar a qualquer realização (no sentido ativo) que seja? Reinando a necessidade sem partilha, sendo isso o que Jean-François Marquet chama “a simultaneidade fulgurante da automanifestação divina”
  • podendo replicar-se que o solstício ou o grande meio-dia da Identidade é apenas um momento num desenvolvimento ininterrupto, já trabalhado surdamente pela preocupação da temporalidade e do finito, anunciando uma crise dos fundamentos dessa filosofia
  • mesmo sem recorrer, porém, a essa escapatória ou subterfúgio, não deixando de valer o axioma das possibilidades no contexto eternitário, pois o Um e Tudo, o Universo, não é massa grandiosa e fixa, mas totalidade orgânica e dinâmica, profusão de vida e potência, o jorrar de um Naturante eterno
  • renovando-se tudo para que o Tudo seja, evocando-se antes as magníficas evocações de Plotino na sexta Enéada do que as geometrias solenes de Espinosa, tratando-se certamente de um devir eterno, ideia que Schelling recusará mais tarde
  • atestando, porém, a contínua gênese e profusão das formas e das coisas, objeto de descrições admiráveis, estarem Goethe e Herder mais presentes ao pensamento do filósofo da Identidade do que mesmo Espinosa e Leibniz

6. Declarando Theophron, porta-voz de Herder, no diálogo sobre Deus, que “no universo existe tudo o que pode ser”, existindo ali todo o possível, sendo essa a definição do Universo, devendo assim conectar-se e apoiar-se mutuamente o aforismo das possibilidades e a máxima da totalidade, também cara a Vladimir Jankélévitch: “só há totalidades”.

  • sendo o real (o) tudo, sendo tudo real, bastando tomar o possível em totalidade para (o) real, ou dito de outro modo: coincidindo na unitotalidade o ideal e o real, o possível e o efetivo
  • devendo antes recorrer-se, para descobrir os teoremas mais explícitos, do que aos desenvolvimentos extensos de Bruno ou do curso de Würzburgo, à Filosofia da Arte, à sua parte geral dedicada à filosofia da mitologia, confirmando o paralelismo pontual das Ideias e dos Deuses a adequação da possibilidade (idealidade) à realidade

7. Citando-se então: no absoluto, idealidade e realidade não fazem senão um, possibilidade absoluta = realidade absoluta — sendo todas as figuras da Arte, portanto sobretudo dos deuses, reais porque possíveis — (chegando-se ao ponto) onde o ideal é o real e muito mais real que o assim chamado real mesmo.

8. Sendo a formulação seguinte já esboço da lei de Justiça que fundará, na filosofia posterior, a realização de todos os possíveis: reclamando-se para a razão tanto quanto para a imaginação que nada no universo seja tolhido, puramente restringido e subordinado, exigindo-se para cada coisa vida particular e livre.

9. Sendo os deuses os paradigmas gloriosos dessa lei aqui atribuída apenas à razão e à imaginação, antes de desdobrar-se na pré-história e na história: repousando o fascínio desses seres no fato de sua realidade só precisar da possibilidade, vivendo por isso num mundo absoluto.

  • julgando-se ouvir, um século e meio antes, W. Fr. Otto! Servindo por fim o antigo adágio de que a Natureza tem horror ao vazio de argumento para o preenchimento integral dos possíveis: havendo, onde no universo houver lugar vazio, a Natureza o preenche, exprimindo-se de modo menos figurado: nenhuma possibilidade fica por cumprir no universo, todo (o) possível é real
  • dito ainda de outro modo: nada faltar à totalidade, e isso por hipótese, sendo Ao todo o Todo resposta suficiente, bastando-se aliás o Universo perfeitamente a si mesmo

10. Bastando de fato a resposta pelo Todo à famosa pergunta retomada de Leibniz: por que há algo e não antes nada? Pergunta que Heidegger flexionará consideravelmente, mas também o próprio Schelling em fases futuras de seu pensamento, recorrendo Leibniz ao princípio de razão suficiente, e ao motivo moral e religioso do reino da Graça sustentando por baixo o reino da Natureza.

  • extinguindo-se em Schelling o porquê de todas as coisas no esplendor da Uni-totalidade, sendo essa a Razão irradiando sobre seu império, sendo a razão absoluta realidade do ideal e idealidade do real, não contando o nada, o irracional, o absurdo, e literalmente não sendo, sendo o “finito finito” quantidade negligenciável
  • tendo em suma sido antecipada, na primeira filosofia de Schelling, a não menos famosa sentença hegeliana: tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional

11. Ora, como se disse no início, não acarretando a mutação mais espetacular — mais espetacular que profunda — do pensamento de Schelling a partir das Investigações sobre a Liberdade de 1809, de modo algum, muito ao contrário, o desaparecimento de um teorema no entanto comprometido pela aplicação à Identidade.

  • sendo de fato a mutação menos uma transformação à vista que uma reviravolta, no sentido de que os problemas latentes se tornam manifestos e as proposições enfáticas se esbatem, assistindo-se a espécie de invasão de dados antes contidos ou recalcados: o finito empírico, a liberdade arbitrária, o homem decaído, o sofrimento, o mal, sobretudo o tempo e a história
  • permanecendo porém ainda por muito tempo como pano de fundo a unitotalidade, o sistema absoluto, a conciliação do livre e do necessário

12. Confundindo-se desde então a realização das possibilidades, já a partir das Idades do Mundo, com a criação primordial, intradivina, isto é, com a decisão que ativa a Urmöglichkeit, a possibilidade originária, grávida esta de todos os possíveis, mas precisando de tempo para desdobrá-los, precisando de todo o tempo e, como se diz, tendo-se todo o tempo.

  • sendo essa a nova dimensão, capital, imposta à sentença, que se aplica doravante ao mundo histórico e ao universo extradivino da queda, sendo o tempo o fator imprescritível da realização dos possíveis, do desenvolvimento ou da evolução
  • escrevendo Jankélévitch, com muita justeza (desculpando-se a extensão da citação): eis a grande novidade do ponto de vista de Schelling: tratando-se agora de explicar o mundo real, não mais teoricamente, mas de verdade; o mundo real, isto é, a história, as guerras, as nações, o mal, tendo a filosofia da Identidade apenas entrevisto esse mundo atormentado e doloroso
  • voltando essa frase, como remorso, em toda a filosofia da Mitologia e da Revelação: havendo possíveis, mas realizando-se todos se lhes deixarem o tempo — sendo que o possível é impulso positivo rumo à existência, não sendo o devir outra coisa senão essa própria vontade de existir que eleva os possíveis para fora do não-ser; havendo devir, portanto, precisamente porque os possíveis querem amadurecer, por estarem inquietos, instáveis, ávidos de existir

13. Sendo assim a futurição parturição, não sendo acaso que Schelling remeta mais de uma vez ao grande tema paulino e pietista da apokaradokia, da espera ansiosa e do “suspiro da criatura” em trabalho de parto.

14. “Nenhum possível”, portanto, “escapa à necessidade da futurição”, sendo todos os possíveis, bastando deixar-lhes o tempo, enunciando então Schelling o teorema como lei, a grande lei universal, Weltgesez, do devir, formulando-a sempre com espécie de majestade, de solenidade, subindo o tom.

  • sendo essa lei a lei de Justiça, impondo-se absolutamente, como a Proudhon sob outro rosto, brilhando a Justiça, a augusta Diké das balanças irrepreensíveis, com brilho solar e regulando minuciosamente o devir, cabendo a cada um seu quinhão, a cada um seu lugar
  • distribuindo a parceira do Deus “imparcial” (affektlos de Sébastien Franck), Némesis, a deusa incorruptível, as partes, repartindo os lotes, suavizando um pouco os traços da “santa” e inexorável Ananké, de cujo domínio o Deus se arrancou, mas não sendo ainda a Adrasteia cristã de Herder, tão próxima da Providência
  • ditando e executando, porém, Némesis o direito, justificando o direito a existência e o lugar de cada um, não havendo, na Filosofia Racional, reino das possibilidades, governado ela mesma pela regra da pesquisa e exaustão das possibilidades, outro fundamento do Direito além dessa Lei imemorial: sendo essa lei que Aristóteles enunciou como universal, como lei natural, a potência que cada um sente e mesmo a contragosto reverencia, a potência que atribui a cada um o que lhe cabe (suum cuique), atribuindo a cada um o lugar que é seu direito natural, inato, ocupar, sendo-lhe funesto transgredi-lo

15. Estando Némesis particularmente em destaque na obra da mitologia, onde Deus está dissimulado, mas sendo em todo caso apenas a delegada e como que o prosopon da justiça e da equanimidade divinas, sendo Deus, por seu lado, imparcial, observando o princípio indefectível de justiça e não conhecendo outra lei senão esta: cumprindo-se toda possibilidade, não sendo nenhuma tolhida; sendo o único voto que pronuncia que, no que concerne à ordem dos seres, tudo proceda racionalmente, mas sendo a razão desinteressada (interesselos), equitativa para com todos (omnibus aequa), querendo por conseguinte que nada aconteça por violência, nada por opressão.

  • sendo essa Justiça, de que a ciência faz lei, ao mesmo tempo a suprema lei universal, atestando todas as vozes, também as de poetas gregos, o que o poeta hebreu, de seu ponto de vista, diz de Deus: sendo a justiça e o juízo (aqui tanto vale dizer debate e veredito) os contrafortes de seu trono, seguindo-se essa lei suprema, que quer ver guardada a cada princípio uma esfera própria de eficácia

16. Observando Deus o curso da Justiça na história do mundo, perfilando-se, por trás do Espírito universal, creditado da mesma imparcialidade, e cujo “próprio é cumprir todas as verdadeiras possibilidades, querer ou permitir a maior totalidade possível de fenômenos”, de modo que “o curso do mundo, cuja lentidão só já deveria nos convencer, está muito verdadeiramente disposto para cumprir a verdadeira possibilidade”, a intenção de Deus que rege a história e que ordena tudo para sua glória.

  • deixando a cada um sua chance e recusando-se por isso a esmagar de saída o princípio mau, operando melhor ainda sub contrario, disfarçando-se a fim de vencer o inimigo por dentro
  • projetando-se, na Filosofia da Revelação, uma luz sobre os mecanismos secretos da Providência: sendo Deus justo, sim, a própria Justiça; sendo justo por natureza, sendo contra sua natureza deixar suprimir unilateralmente esse princípio (sendo Deus de um e de outro princípio), pois sendo Ele o Único (der Alleinige) e sendo sua natureza ser o Único; sendo Deus justo, sendo sua justiça sua imparcialidade absoluta, mera expressão de sua sublime unicidade; consistindo nisso sua divina Majestade
  • podendo dizer-se, além disso, ser lei suprema de Deus poupar esse contrário, sendo sobre ele que se forja (erzieht) a mais vigorosa afirmação de sua divindade e de sua glória, tendo quem conhece essa lei a chave do que há de mais enigmático na ordem do mundo, do atraso do governo universal
  • sendo isso o que o próprio Deus se dá como lei, superar apenas interiormente, de tal modo que se confessa a si mesmo vencido

17. Sendo Deus paciente, perseverante, cauteloso, longânime; moendo lentamente, devendo-se o “atraso” da evolução, os prazos, as regressões aparentes, a inserção repetida de novos elos, ao fato de Deus ter apostado tudo no máximo de voluntário, devendo a sábia progressão, a gradação ordenada, resultar em que o conhecimento último, para a razão, e o estado final, para a história, sejam produtos de uma “experiência completa e totalmente exaustiva”, sendo levantada toda ambiguidade, aplanada toda montanha.

18. Citando-se: não devendo por assim dizer permanecer essa ambiguidade (da díade), pronunciando-se ali de certo modo lei que exige nada permaneça oculto, que tudo seja revelado, tudo claro, determinado e decidido, a fim de que todo inimigo seja vencido e assim se ponha o ser perfeito, apaziguado, sendo essa de fato a única lei universal (alleinige), a lei suprema pairando sobre tudo.

19. De modo que não é o tempo apenas o tecido inesgotável que permite a toda possibilidade cumprir-se e esgotar-se (louvando Schelling o gênio de Aristóteles por ter inserido um pequeno zugleich, simultaneamente, na redação do princípio de não-contradição), sendo também um organismo composto, intermediário entre a eternidade e a pura sucessão; estando ali cada coisa estabelecida, estabilizada, estatuída, instalada no lugar previsto.

  • sendo o princípio de retardamento e de exaustividade correlato do princípio superior de justiça: reconduzindo esse tempo, aemula aeternitatis, tudo e cada coisa a seu lugar e ao sítio que lhe é devido, devendo corrigir-se nesse sentido ou completar-se a exposição de Jankélévitch

20. Sendo o princípio adverso e enganador, sob o qual Deus dissimula seus próprios fins, o princípio do devir e, por isso mesmo, o instrumento ativo, vigilante e recalcitrante das vias misteriosas da Providência, Satã, dedicando-se-lhe uma satanologia, à maneira dos tratados teológicos da época, ao final da Filosofia da Revelação.

  • sendo o Satã de Schelling espécie de Mefistófeles, adversário que contribui ao Bem a contragosto, tentador do Livro de Jó, servo e instrumento dos desígnios de Deus, em suma pequeno deus oblíquo que trabalha contra sua vontade na recuperação do mal e da desordem
  • sendo, como Némesis, gênio ombreiro e princípio enganador, mas com vistas a cumprir toda justiça, pois é essencialmente, por sua pessoa e sua ação, o intrépido promotor da realização de todos os possíveis, caçando-os, tirando-os da sombra, decantando seus projetos, urdindo suas tramas, conspirando com todos eles
  • remetendo-se às páginas brilhantes de Jankélévitch sobre o papel desse “personagem dialético”, que decide toda equivocidade e purga a criação de toda espécie de mal, contra sua vontade e à força, sendo em suma, diria Claudel, o carregador de água do moinho da Providência
  • tendo por isso apenas um tempo, o tempo, ao fim do qual sua tarefa está concluída e desaparece como tal, o “fim de Satã”: sendo Satã princípio pertencente à economia divina, ao qual é dado manter a contradição, a maldição, a dissensão, a desunião, a fim de que a vitória e o triunfo final sejam tanto mais magníficos, triunfo ao qual é conduzida a causa de Deus continuamente contestada pelo espírito de contradição; erguendo-se então toda dúvida, tornando-se a causa de Deus clara, manifesta e entendida, tendo então Satã terminado sua obra, tendo sua missão e com ela seu poder um fim

21. Salvaguardando a turgescência do princípio mau, a incansável andança de Satã, a liberdade de Deus, sob o manto do Ser necessário — liberdade garantida pelo axioma da realização dos possíveis. Sendo com efeito o devir tal que cumpre a condição de efetuar um e outro, o direito e seu contrário, o possível e o impossível, de modo que o livre aflora sempre à regulação necessária: incluindo a potência para um a potência para o outro (mesmo após a realização, permanecendo o que era a potência de um também depois a potência do contrário).

  • sendo virtude do ser possível manter a suspensão, o fôlego, sem o que não haveria, mesmo para Deus, espaço de liberdade nem para a criação halo de contingência, sendo, sem a possibilidade, apenas atuosidade, ato puríssimo e fogo devorador, sem distância com sua decisão
  • ao criar, não queimando por assim dizer suas naus, não estando embora em seu modo de ser retomar-se, reservando-se porém a possibilidade de fazê-lo, podendo “sempre retirar-se para o ato necessário”
  • pensando-se na historiosofia de Léon Bloy: “o possível de Deus, que é o verdadeiro real do homem”, esforçando-se a longa e sutil especulação da Filosofia da Revelação sobre o ato da criação, sobre a decisão do processo criador, por manter em Deus a sinergia do ato e da potência: sendo Ele o Deus capaz de pôr um mundo, mesmo que jamais um mundo existisse, se guardasse consigo as possibilidades
  • não sabendo senão a posteriori, “depois do fato”, que a criação teve lugar, não maculando isso a liberdade divina antecedente e subsequente, podendo teoricamente rasurar ou apagar seu gesto
  • dizendo-se ser a hipótese toda virtual e platônica, sendo verdade, mas estando ali o tempo na filosofia positiva e a razão na filosofia negativa para demonstrar que Deus é livre e que o universo é obra do possível
  • sendo esse o sentido dessas proposições emitidas precisamente no momento da criação: sendo as realidades nele as possibilidades de outro ser (parecendo a frase contradizer Léon Bloy, mas sendo anterior à decisão; restabelecendo a seguinte o equilíbrio) — sendo os momentos (do mundo futuro) que, na filosofia negativa, só advêm como possibilidades, convocados na filosofia positiva como realidades, podendo Ele erguer (aufführen) todo o edifício dessas possibilidades como realidades
  • escrevendo Jankélévitch ser o devir de Schelling, “como a evolução bergsoniana, sempre meio entre a causalidade e a finalidade: contingente antes do fato, só sendo necessário retrospectivamente”, de necessidade hipotética e temperada pela ironia da Providência

22. Demarcando a relação bívoca da filosofia negativa ou racional com a filosofia positiva, em torno da charneira da pura realidade, a relação criadora, sendo a primeira, ciência da Razão, por excelência a ciência das possibilidades, cuja nomenclatura esgota com grande cuidado, tendo por tarefa “reconhecer o possível e conduzi-lo à realidade”, sendo “a ciência que investiga a possibilidade”.

  • devendo porém a filosofia positiva, por exemplo na mitologia, explorar num primeiro momento a possibilidade e num segundo estabelecer (ermitteln) a realidade

23. Assim, a questão radical que Schelling relança no limiar da Filosofia da Revelação — por que há algo? — não recebe resposta tão pronta, acompanhando-a aliás um acento de desespero, sendo o homem quem impele a colocá-la, refletindo-se a infelicidade da existência na “infelicidade do ser” da sabedoria indiana.

  • recebendo, porém, resposta de toda a filosofia positiva e, como convém, resposta exaustiva, sendo preciso que se esvazie até a borra a possibilidade do ser mau, para que possa enfim explodir o hino triunfal
schelling/estudos/tilliette/12.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki