5 Vontade do começo
SCHUBACK, Marcia Sá Cavalcante. O Começo de Deus. A filosofia do devir no pensamento tardio de F.W.J. Schelling. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.
“A unidade (originária) consiste na serenidade da vontade e do ser, isto é, quando a vontade abandona o ser e o ser é abandonado pela vontade”.
A questão que agora se apresenta é elucidar a essência da vontade a partir da abertura da revelação. E à medida que a abertura de revelação explicita-se, em Schelling, essencialmente, como dinâmica de começo, então o primeiro passo é apreender a relação fundamental entre vontade e começo.
Nas Preleções de Erlangen, Schelling desenvolve, mais explicitamente, a questão da essência da vontade no horizonte de revelação e começo. E importante observar que, desde 1806, Schelling havia interrompido sua atividade didática, propriamente dita, tendo passado 15 anos sem ministrar nenhuma preleção acadêmica. A morte de sua esposa Carolina, as disputas com Hegel e, num certo nível, com os acadêmicos são razões imediatas para esta interrupção. Todavia, este silêncio apenas se deixa avaliar, filosoficamente, do ponto de vista do percurso de seu pensamento. Schelling retoma, por curto período, a atividade acadêmica no semestre do inverno de 1820/1821 em Erlangen, onde realiza uma série de preleções, que recebeu, posteriormente, os seguintes títulos: Uber die Natur der Philosophie als Wissenschaft (Sobre a natureza da filosofia como ciência), segundo a edição de seu filho; na década de 1960, numa versão complementada e editada pelo teólogo Horst Fuhrmans, foi chamada de Initia Philosophiae Universiae. Nesta última versão, Fuhrman acrescenta as notas tomadas por Freid. Leonh Enderlein, guardadas com a rubrica de Grundzüge der Gesammten Philosophie (Traços fundamentais de toda a filosofia). A edição aqui utilizada é esta última, que também inclui o manuscrito Enderlein. Estas preleções suscitaram nos contemporâneos de Schelling muita curiosidade, uma vez que representaram a sua primeira aparição após 15 anos de silêncio. Sua escuta foi carregada de grande estranheza porque na exposição da filosofia capaz de apreender o absoluto em seu começo, colocou-se, estranhamente, a questão da essência da vontade como superação da vontade.
