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5 Caminhada

Clara oder über den Zusammenhang der Natur mit der Geisterwelt: Ein Gespräch. 1861

Caminhada de Início da Primavera

1. Ainda no limite entre o inverno e a primavera, escolheu-se um belo dia para subir até a velha capela no bosque.

2. No caminho, Clara contou que os pescadores lhe haviam dito que o lago mostrava sinais de primavera, diminuindo a oscilação das águas e reaparecendo aves aquáticas que desaparecem no inverno, confessando ter ansiado ver o lago durante todo o inverno, pois tanto se falara da vida dos espíritos tendo sempre diante de si a imagem do lago, não sendo à toa que os antigos situavam a morada dos bem-aventurados em ilhas cercadas de água, ao que o médico observou parecer-lhe natural essa associação, sendo o rio antes imagem da vida real, que arrasta a imaginação para uma distância sem medida, como para um futuro longínquo, e o lago imagem do passado, da quietude eterna e do isolamento.

3. Confessando Clara restar-lhe ainda um desejo insatisfeito diante dos discursos anteriores sobre lugares e regiões no invisível — inclusive aquele lugar mais alto ao qual poucos chegam imediatamente após a morte —, pediu que se fizesse ao menos uma ideia desse verdadeiro céu, sendo enigmático chamá-lo de “lugar” e questionando se os espíritos também podem estar em um lugar, respondeu-se tratar-se de um dos assuntos mais enigmáticos, fundado no mistério do lugar e do espaço em geral, ao qual não se pode deixar de dar fundamento real, devendo-se considerar que nós, como todos os seres criados, não podemos ser eternamente por nós mesmos, sendo antes concebidos em algo distinto que também compreende todos os demais seres, chamando-se a isso “lugar”, tal como muitos disseram que o próprio Deus seria o céu e o lugar dos espíritos, ou sua glória o seria.

4. Confessando Clara que, após esse discurso, lhe vinha à mente, quase como ideia infantil, a ocorrência de buscar a futura morada em alguma das incontáveis estrelas, e questionando se não ajudaria muito nessas questões mais altas ter maior certeza quanto ao mundo estrelado além da terra — pois mesmo aqui se elevam com segurança as ideias do visível ao invisível, não podendo determinar-se nada sobre o mundo dos espíritos sem antes conhecer os limites do mundo visível —, objetou o médico não ser essa conclusão de todo clara, pois conhecer limites importa para coisas que se fundem umas nas outras, mas parece irrelevante para coisas completamente opostas, respondendo-se duvidar sempre que natureza e mundo dos espíritos sejam tão opostos na realidade quanto conceitualmente, sendo o mundo dos espíritos, antes de tudo, um mundo tão real quanto este, e não meramente ideal, concordando o médico, e observando-se que, embora a maioria considere o espiritual menos real que o corpóreo, já esta natureza subordinada exibe muitas coisas espirituais tão reais e físicas quanto as habituais, tendo-se afirmado que ao espiritual segue-se o físico após a morte, devendo por isso aquele mundo distinto ou espiritual ser, em sua própria forma, tão físico quanto este mundo presente é, em sua própria forma, espiritual.

5. Alegrando-se Clara com essa formulação e perguntando por que não fora dita antes, pediu vivamente que se dissesse o que se supunha físico naquele outro mundo, respondendo-se que, assim que alguém dissipasse a ignorância acerca deste céu visível, tentar-se-ia dirigir os olhos do espírito ao invisível, ao que Clara observou não parecer tão grande essa ignorância, sendo a astronomia ciência tão apreciada por especialistas quanto por amadores pela sua certeza e importância, respondendo-se que talvez a culpa não estivesse na ciência mas em si mesmo, possuindo, como o artista, um protótipo interno que guia o assentimento, aceitando o que a ele se ajusta por mais inacreditável que pareça e rejeitando o que ele recusa por mais provado que esteja, não tendo para si a mínima probabilidade o que os astrônomos dizem ter descoberto, nem tendo ninguém descoberto o que lhe parece intrinsecamente provável, pedindo então Clara que se compartilhasse o que lhe parecia provável e o que lhe parecia improvável no que geralmente se assume, ao que se respondeu que se poderia tentar, mas apenas quando estivessem no alto.

6. Chegando a um ponto de onde se avistava pela primeira vez todo o lago, contemplou-se por longo tempo a bela vista da região ressuscitante, com o ar quieto, o céu azul refletido na água, os pássaros planando sobre a superfície, a ilha coberta de verde esperança, a relva jovem germinando nos montes e vales, os brotos verdes nas árvores novas, mantendo distância da primavera apenas os carvalhos, faias e outras árvores velhas e fortes, caminhando depois lentamente até a velha capela, onde não se demoraram por estar ainda fria e úmida, subindo enfim até a orla do bosque, onde se sentaram na folhagem, Clara de frente para a paisagem, os demais aos lados, espalhando-se as crianças em busca de violetas.

7. Retomando o pedido do médico, iniciou-se então uma longa confissão pessoal, na qual se narrou que, na juventude, tudo era entendido literalmente, crendo-se que o sol e as estrelas estavam realmente num lugar mais alto e maravilhoso, e que Deus e as almas dos devotos estavam literalmente no alto, até que, crescendo, ensinou-se que “acima” e “abaixo” eram meros conceitos relacionais, não havendo em parte alguma senão profundidade inconmensurável e um simples “abaixo”, desaparecendo por completo um céu como lugar mais alto e excelente, restando apenas mundos, cada qual com seu próprio “abaixo” em relação a um sol, e estes por sua vez arrastados a corpos ainda maiores, mareando-se com os números enormes e as dimensões incríveis, embora compreendendo que os conceitos cotidianos de “acima” e “abaixo” se regem pela gravidade, sem poder por isso deixar de crer num verdadeiro “acima” e “abaixo”.

  • relatou-se uma discussão ouvida entre duas pessoas, uma afirmando que o mundo se expande infinitamente, a outra que em algum lugar se detém, vencendo a primeira segundo a opinião dos presentes, consolando-se o derrotado com o argumento de que, supondo-se completa indiferença do universo a qualquer direção, não haveria razão para deter-se, sendo mais razoável dizer que ele se expande ao infinito, tal como as plantas cresceriam infinitamente se não fossem inibidas por algo externo
  • argumentou-se que todo o vivente só se completa por um extremo significativo, sendo a cabeça no ser humano o “acima” mesmo sem caminhar ereto, supondo-se em toda parte um verdadeiro acima e abaixo, direita e esquerda, sendo o completo geralmente mais excelente que o infinito, selo de perfeição até na arte, sendo o universo o mais excelente de tudo, como obra de um artista divino
  • sugeriu-se perguntar ao interlocutor se seria mais perfeita uma sequência interminável de mundos sem objetivo de perfeição, ou que o universo terminasse em algo determinado e perfeito, respondendo este, à sua maneira, que um todo completo não deixa espaço fora de si, tal como um pilar tem seu espaço em si mesmo, não se podendo perguntar o que há fora dele
  • reforçou-se então a crença num verdadeiro acima e abaixo, esforçando-se por erradicar a mortal monotonia trazida pela erudição, duvidando-se de que a gravidade terrestre, impertinentemente expandida a toda a estrutura do universo, fosse efetiva além de certo alcance, parecendo a força da qual a gravidade provém divina e eterna, mas sua relação com os corpos terrestres nem universal nem necessária
  • imaginou-se então uma grande variedade de relações de gravidade em vez de uma única, alegrando-se com a observação de estrelas duplas girando aleatoriamente uma em torno da outra sem ponto médio, e cúmulos de estrelas em forma de leque ou massas de luz fugindo juntas, supondo-se que tudo isso proveio de uma separação e distribuição de forças a partir de um caos divino
  • concluiu-se que, tendo a tosquidão corporal se incrementado de um lado do universo até seu extremo necessário, do outro lado deveria ter predominado o puramente demoníaco ou espiritual, também até um extremo do qual se dá o trânsito ao puramente espiritual, estando assim o universo verdadeiramente completo em ambas as direções
  • supondo-se ainda que, por uma corrupção tardia, parte do universo se separou completamente da natureza espiritual, seria necessário que o vivo e espiritual se pusesse diante do já morto, introduzindo novo processo de separação para que frutos celestiais ainda pudessem ser produzidos de elementos corrompidos, gerando-se assim dois mundos onde originalmente deveria haver apenas um, passando-se ao mundo mais puro somente através da morte
  • chamou-se a esse lugar de puro, límpido e são de “céu”, deixando de temer tanto crê-lo espaço vazio indiferente quanto lugar elevado por natureza e constituição, considerando-se a terra parte da região mais baixa, onde, como disse Sócrates, vivemos como no fundo do mar, corroídos pela umidade salina, supondo-se do céu, ao contrário da natureza presa à exterioridade, que deveria penetrar tudo e ser onipresente por natureza
  • conservando céu e terra a memória de sua unidade original, um busca o outro, tendendo o céu a atrair da terra tudo o que lhe é semelhante, chamando a si na morte as almas purificadas do terreno, existindo incontáveis exemplos dos efeitos do celestial no terrenal, chegando-se a supor aquele mundo, apesar de sua oposição ao visível, apenas como o outro lado que originalmente formava a mesma coisa
  • tornou-se clara a mundanalidade do céu, sendo um todo tão variado quanto o visível ou mais, um universo de riqueza inconmensurável de objetos e relações, com muitos lugares e moradas, supondo-se certa similitude de matéria-prima entre ambos os mundos, devendo existir de forma ativa e espiritual no invisível o que no visível existe de forma impotente, sofrente e corporal
  • questionando-se o que mais nos emociona no sensual senão o espiritual, sendo o corpóreo inativo inefetivo aos sentidos, influenciando-nos como essência fugaz aquilo que a fina capacidade discriminatória dos sentidos descobre nas coisas, sendo o deleite da música o mais espiritual, e o mais delicado em tudo, divino
  • concluindo-se que, sendo o divino e o espiritual nativos daquele mundo, deve encontrar-se ali, como extrato mais fino, algo parecido ao que nos toca espiritualmente pelos sentidos, devendo ali todo sabor ser bom, todo som bom, a própria linguagem música, tudo em completa harmonia, especialmente aquela que nasce da concordância entre dois corações
  • parecendo inconcebível duvidar que ali o igual se una ao igual, encontrando todo amor divino e eterno o amado, mesmo o desconhecido por quem anseia em vão aqui, onde a lei do coração não tem força, separando-se almas aparentadas por séculos, distâncias ou complicações mundanas, sendo o mais digno posto em ambiente indigno, encontrando ali, onde o exterior está subordinado ao interior, tudo o que lhe é aparentado em valor e substância, numa harmonia eterna e indissolúvel
  • devendo a simpatia, já aqui fenômeno celestial mas fracamente expressa, alcançar ali grau de interioridade completamente distinto, tal como corpos levados a estado mais espiritual percebem seu parentesco mais intimamente, ou como surge compaixão tranquilizadora entre pessoas levadas à clarividência, sentindo uma o que a outra sente
  • contendo a linguagem uma essência espiritual e um elemento corpóreo, este limitado e como morto frente ao espiritual, existindo casos maravilhosos de pessoas em arrebatamento que entendem ou falam idiomas desconhecidos, como os apóstolos, seguindo-se que em todos os idiomas, mas especialmente nos originais, haveria algo da pureza do elemento primitivo
  • devendo-se falar no mundo dos espíritos o idioma verdadeiro e universal, ouvindo-se apenas palavras que são uma mesma coisa com a essencialidade das coisas, levando cada coisa em si uma palavra viva como união entre vogais e consoantes, não sendo ali a linguagem necessária para comunicação nem meio de esconder o ser interior, dando-se antes comunicação sem sinais através de influência invisível mas talvez física, de modo completamente perfeito e livre
  • podendo-se assim predizer ainda muitas outras coisas excelentes sobre aquele lugar, seguindo conceitos firmes e fundamentados, parecendo increível a maior parte disso aos que vivem aqui, como se pode concluir de quantos lamentam os mortos não só por si mesmos mas pelos próprios mortos, como se tivessem sido despojados de amigos, não podendo convencer-se de que algo excelente que já esta vida subordinada oferece não se satisfaça ali de forma ainda mais magnífica e pura, nem de que a vida vindoura seja mais baixa e perniciosa para os bons, devendo antes o espiritual permanecer necessariamente, não podendo considerar a morte como salto mortal nem mero trânsito a uma condição espiritual, mas a uma condição muito mais espiritual

8. Notou-se então uma mulher que caminhava entre as árvores junto à igreja, parecendo buscar a caixa de ofertas, subindo depois em direção ao grupo, hesitante ao avistá-los, mas recompondo-se e reconhecendo-se nela a esposa de um tendeiro de um povoado a três horas dali, perguntando-lhe o que a trazia ali, e obtendo resposta somente após insistir-se que percebera sua oferenda embaixo.

9. Contou então a mulher, num longo relato, que no ano-novo passado seu filho mais jovem, o preferido do pai, caíra em febre perigosa estando ela sozinha e desesperada, temendo a reação do marido ausente no mercado, até que um vizinho a aconselhou em segredo a fazer um voto a Santo Walderico, que já ouvira muitos votos e realizara verdadeiros milagres, contando-lhe várias histórias e como o próprio vizinho fora ajudado por esse santo, questionando ela, protestante, de onde viria a ideia de fazer voto a santo católico, mantendo-se firme apesar da insistência de outros, até que uma pessoa lhe disse que seu marido, se ali estivesse, faria o mesmo, tocando-a isso profundamente.

  • relatou-se que, chegada a terrível tarde em que o médico anunciara que aquela seria sua última visita e que o menino morreria à noite, desolada e sem esperança, fez ela um voto íntimo e fervoroso de grande oferenda a Santo Walderico caso fosse ajudada, e que, não passada meia hora, o menino caiu em sono suave, dormindo até a manhã, maravilhando-se o médico ao considerá-lo curado sem saber do voto
  • relatou-se ainda que, chegado o marido dias depois e igualmente alegre, sacrificou de imediato o lucro de todo o ano e mais para cumprir a promessa, tendo ela naquele dia recolhido em vários povoados parte do dinheiro devido ao marido, retornando agora para casa pela colina

10. Respondeu-se que certamente Deus a ajudara, pois vê dentro do coração, devendo ela ir confiante para casa e saudar marido e filhos, tocando a história profundamente a todos, permanecendo em silêncio antes de partir, comentando-se então quão agradável é encontrar algum tipo de fé nesta época, sendo a fé importante para tudo, do menor ao maior, fazendo sua falta retroceder cada vez mais os assuntos humanos.

11. Questionou Clara se não se deveria supor que espíritos venerados há muito em certos lugares se tornam espíritos protetores dessas regiões pela magia da fé, sendo natural que aqueles que primeiro trouxeram a luz da fé àqueles bosques, plantando vinhas e trigo, tornando-se criadores de vida mais humana em regiões antes selvagens, tomem parte ativa no destino dos países e povos que construíram e uniram numa mesma fé, não esquecendo os pais no céu seus filhos na terra, comovendo-a a imagem de um povo com santo protetor a quem recorrer nos apuros.

12. Observou o médico que também a localização esconde seu próprio segredo, sendo certas doutrinas e visões de mundo nativas de certas regiões, mesmo pequenas, desde o início do pensamento humano, sendo mais constante em algumas regiões até mesmo aquele órgão mais alto que nesta vida se dá apenas como fenômeno passageiro, como a chamada “segunda vista” das terras altas escocesas, tendo os oráculos antigos estado ligados a regiões e lugares determinados, devendo-se concluir que o locativo não é tão contingente em relação ao mais alto quanto comumente se considera, sentindo-se em cada região certa presença espiritual que atrai ou repele, valendo o mesmo para determinados períodos de tempo.

13. Comentou-se quanto nos surpreenderíamos se não estivéssemos acostumados a considerar apenas o exterior das coisas, notando que circunstâncias tidas por causas eram simples meios e condições, ocupando-se os espíritos de nós, quase sem o suspeitarmos, levando-nos à felicidade ou à desgraça conforme o espírito seguido.

14. Perguntou Clara por que é tão estranho e difícil que se abra o interior do ser humano de modo a mantê-lo em constante relação com um mundo mais alto, respondendo-se que se passa o mesmo que com os demais dons repartidos por agrado e não por mérito, através dos quais Deus eleva constantemente o baixo e o desprezado, havendo porém um segredo especial que a maioria não quer conhecer: tal dom nunca se concede a quem o deseja, sendo a serenidade e a tranquilidade de espírito a primeira condição para alcançá-lo, tendo-se conhecido pessoas espirituais que jamais deixaram descansar a imaginação tentando vincular-se por êxtase aos entes queridos falecidos sem nunca serem atendidas, ao passo que os simples e piedosos, sem nada tentar, foram considerados dignos de aberturas do outro mundo, considerando-se por isso bom e justo o preceito de que o homem nunca deve buscar vínculo com os espíritos.

15. Observou Clara que todo desejo intenso é repreensível, não parecendo possível ter tal desejo sem essa intensidade, questionando se não deveríamos observar mais frequentemente aos defuntos a mesma sensibilidade devida aos vivos, pois quem sabe participam de nós mais profundamente do que pensamos, podendo a dor excessiva e o excesso de lágrimas perturbá-los.

16. Saindo então das árvores junto à igreja, estendeu-se novamente diante deles toda a região em suave transfiguração.

17. Após um momento de silenciosa contemplação, questionou Clara de onde vem a profunda devoção pela terra, independente de todo o gozo chamado felicidade terrena, consistindo numa apreciação plena do escasso valor desta vida, e por que, mesmo convencidos de que o outro mundo supera em muito o presente, existe ainda assim a sensação de que é difícil separar-se desta terra, e se não sentimos secreto horror a essa separação por nós mesmos, se o sentiríamos pelos outros.

18. Reconheceu-se nesse traço humano a sabedoria da mão que o pôs em nossa alma, pois mesmo reduzindo a estimativa desta vida à sua justa medida, abriga-se em privado o sentimento de que devemos à terra certa devoção, permanecendo ela sempre próxima ao coração não apenas como mãe mas por partilhar conosco destino e esperança, pois se o Eterno não nos tivesse negado a visão inevitável da outra vida, quem suportaria o tempo aqui fixado sem tentar partir mais rapidamente desta vida sem segurança nem satisfação reais, crendo-se ser intenção divina que, mesmo após a morte, reste no ser interior do homem certa simpatia pela terra da qual fez parte, sentindo-se realmente essa separação, pois de outro modo a morte não seria morte, estando esse sentimento arraigado no mais profundo de nosso ser, pois Deus sabe aproveitar melhor que os filósofos a solidez e a rudeza que deixamos na terra.

19. Observou o médico que rebaixar a terra a nível tão moderado parece também mudar certas concepções religiosas, respondendo-se discordar, pois, embora a terra tenha sido expulsa de sua posição central, sendo intenção divina que o interno se represente tanto quanto possível no externo, ambos os pontos extremos — o mais puramente interior e o mais corpóreo e exteriorizado — são mais ou menos igualmente importantes, podendo imaginar-se a criação viva e contínua como uma rotação em que o corpóreo se eleva constantemente ao espiritual e o espiritual desce ao corpóreo, até que ambos se fundam, alcançando essa rotação seu verdadeiro propósito somente quando o mais elevado e espiritual houver descido ao mais corpóreo e o mais baixo e grosseiro se houver elevado ao mais espiritual e transfigurado, tornando-se necessária, nos limites mais extremos do mundo onde o crescimento da criação passa à massa sólida, a aparição do mais puro e espiritual, e inversamente o que provém do mais baixo e grosseiro — o homem — deve ser elevado, segundo seu destino final, à mais alta espiritualidade, não podendo a criação descansar até que o superior tenha retornado ao mais baixo, valendo também aqui que os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.

20. Concordando em geral com isso, observou o médico não se poder afirmar que a terra seja o ponto mais baixo e corporal de todo o universo, sendo isso até improvável segundo todo o conhecimento disponível, podendo supor-se que a natureza dos planetas se liberte do corporal, especialmente os mais afastados do sol, ou apegar-se às análises de densidade dos astrônomos, mas em nenhum caso representando a terra um extremo, respondendo-se não ser a ideia que aquele ponto extremo recaia sobre um único planeta, mas ser inegável que os planetas mais baixos compõem a região onde a corporalidade impera sobre tudo, convencendo disso o próprio ser humano, no qual mesmo a essência mais passageira e delicada está unida a elemento espesso e duro, encontrando-se por isso tão alto na escala das criaturas, podendo compreender-se por que foi favorecido frente àquelas criaturas que Deus criou de si mesmo sem tomar material, ou apenas da parte mais delicada deste, rapidamente completadas.

21. Observou Clara que nessa relação ocorre o mesmo que na obra de arte, recebendo também aqui o delicado ou espiritual seu valor mais alto somente ao reafirmar sua natureza misturando-se a elemento resistente e até bárbaro, nascendo a beleza mais alta apenas onde a suavidade se torna soberana da violência.

22. Recordou-se ter ouvido de um visionário nórdico que o Senhor quis nascer nesta terra em honra à Palavra, pois somente aqui pôde ser reproduzida materialmente, escrita e conservada, sendo improvável que em outro corpo mundano se desse gênero de seres racionais tão ativa e variadamente unidos por tratos, idiomas, leis, guerra e paz como o gênero humano.

  • afirmava esse visionário que, afastadas as relações artificiais a que o ser humano fora levado pela necessidade e pelo instinto social, as demais espécies viviam simplesmente em famílias, dando-se ali apenas revelações orais de espíritos e anjos que se evaporam facilmente, não estando ligadas a um meio tão fixo quanto o nosso
  • representando os nativos dos diferentes mundos os distintos membros de um grande ser humano, sendo o ser humano de nossa terra o sentido natural ou externo, onde emana o ser interior da vida e onde este descansa como em seu ser comunitário, sendo do mesmo modo a Palavra expressa e escrita o objetivo final de toda revelação divina, onde ela verdadeiramente se torna carne
  • podendo-se acrescentar que esta linguagem, tal como a conhecemos, é própria da terra, sendo talvez em outros mundos mais elementar e semelhante à música, gerando mais sensações passageiras do que comunicando ideias, cabendo aos naturalistas ver se certo grau de vitalidade corresponde à terra de modo distinto, do qual irrompesse a palavra viva, como o metal menos nobre que, no entanto, brilha mais que os demais
  • concluindo-se que este discurso levava ao caprichoso enredamento de interior e exterior, ao ponto de não se confiar em prosseguir

23. Replicou o médico que, mesmo tomando a questão exteriormente segundo relações numéricas, não deveria ser impossível encontrar de uma vez por todas o lugar da terra, confessando-se convencido, por secreta intuição, de que a terra deve ter explicação especial entre os demais planetas, mesmo prescindindo da crença de ter sido palco da revelação divina mais perfeita, parecendo-lhe insuficientemente científicas ou fundadas em suposições artificiais as tentativas feitas até então de encontrar lei para a ordenação dos mundos.

24. Sugeriu-se voltar à antiga forma de contar e ao número sagrado, nada impedindo que fosse continuamente superado por descobertas posteriores, assumindo-se um septenário que se repetisse, ocupando a terra o lugar intermediário após ter estado no mais baixo, parecendo justificadas as maiores expectativas de uma essência que se eleva de profunda noite a luz igualmente alta, aproximando-se de transformações contra as quais nem os maiores acontecimentos de sua vida interior e exterior no mundo atual entram em consideração, destinada, como Deus, a conciliar em si os extremos finais da existência.

Primavera

25. Ó Primavera, tempo de anseio, evoca-se com que vigor pela vida se preenche o coração, atraindo por um lado o reino dos espíritos ao sentir-se que só naquela interioridade mais alta existe a verdadeira bem-aventurança, chamando por outro, com poderosíssimo feitiço, a natureza o coração e os sentidos de volta à vida exterior, lamentando-se não bastarem nem o interior nem o exterior por si sós, sendo tão pouco capazes de uni-los, sendo no fundo uma só e mesma vida sob formas distintas, questionando-se por que essas duas formas não poderiam existir ao mesmo tempo e por que não poderia ser destino de uma vida indivisa desde o princípio, admitindo-se que por culpa do próprio ser humano ambas foram separadas, sem se ver outra explicação, questionando-se se nunca existirão simultaneamente, se estão separadas para sempre, se não chegará o momento em que o interior esteja completamente encarnado no exterior e o exterior completamente transfigurado no interior, representando ambos uma só vida indestrutível.

  • questiona-se se não se completará tudo na natureza existente através de três níveis: se a primeira das forças da natureza não chega sozinha senão à existência particular e egoísta das coisas, contrariada desde o princípio por uma força que tende à espiritualização, à profundidade e à unidade do ser, até que no nível mais alto ambas as forças emergem reconciliadas numa só essência, surgindo uma vida orgânica, constantemente ativa, aberta a tudo e existente por si mesma
  • questiona-se se não são essas mesmas forças, separadas e em conflito nos seres inorgânicos e conciliadas e harmônicas nos seres orgânicos, as que em sentido mais alto sustentam o conflito de nossa vida atual, não estando neste sentido realmente no primeiro nível da vida, não triunfando a força espiritualizadora com a morte, sendo por isso postos em nível ou potência mais alta
  • questiona-se se não tem lugar o nível propriamente orgânico naquele extenso curso da natureza, nível que, porém, a natureza alcança no pequeno círculo da vida inferior, se essas três potências não deveriam emergir em conjunto uma após a outra, dando-se no tempo a mesma sequência de níveis que se percebe no espaço, e o que seria a tríplice união de alma, corpo e espírito, como seria possível uma consumação se na vida atual o corporal mantém prisioneiros o espírito e a alma, se na condição após a morte o espírito se liberta mas a alma nunca pode alçar-se em sua verdadeira essência
  • a alma só dominará quando se reconciliarem completamente as forças ainda aqui em conflito, quando espírito e corpo se reconciliarem e forem formas de uma só vida indivisa e por isso verdadeiramente perfeita e bendita, sendo a bendição liberdade e domínio da alma, impossível a bendição completa nesta condição em que a alma está subordinada ao espírito e o corpo é devorado por seu oposto
  • sendo impossível crer que a natureza corporal completa apareceu do nada para um dia voltar ao nada para sempre, restando apenas eterna a vida espiritual, não sendo a corporalidade imperfeição mas, quando o corpo está impregnado pela alma, a plenitude da perfeição, não satisfazendo a mera vida espiritual o coração, havendo algo em nós que demanda realidade essencial, só repousando os pensamentos na unidade final, devendo seguir-se à vida dividida uma vida reconciliada
  • encontrando-se a tranquilidade final da alma somente na exterioridade concluída, tal como o artista não descansa na ideia de sua obra mas apenas em sua representação física, e todo aquele inflamado por um ideal quer revelá-lo ou encontrá-lo em figura corpóreo-visível, sendo do mesmo modo o objetivo de todo anseio o corpóreo enquanto reflexo e espelho do espiritual perfeito

26. Assim mais ou menos falou Clara, nos primeiros dias da primavera, sobre a colina de onde avistava a amada terra de sua pátria, transformada a extensa planície num mar de flores e fragrâncias, flutuando tudo com renovado vigor e encanto, sendo um daqueles momentos em que, tomados pela onipotência da vida na natureza, pareciam gozar de uma presença eterna que nenhuma dor podia ferir.

27. Após breve silêncio, prosseguiu pedindo que não se surpreendessem com seu discurso repentino, pois, havendo falado amiúde sobre as coisas vindouras, não descansaria até penetrar com o pensamento no objetivo de todos os tempos, tendo a primavera provocado nela esses brotos de ideias e esperança, tornando-se-lhe novamente claro e penetrando-lhe o coração que somos filhos da natureza, pertencendo a ela por nosso primeiro nascimento e jamais podendo separar-nos dela por completo, de modo que, se ela não pertence a Deus, tampouco nós podemos pertencer-lhe, e se ela não pode tornar-se una com Deus, nossa união com Ele deve ser imperfeita ou de todo impossível, anelando não só nós mas toda a natureza pelo Deus de quem foi originalmente tomada.

  • estando certamente a natureza agora submetida à lei da exterioridade, devendo ela, como tudo o que nela vive, atravessar sucessivamente ambas as formas de vida que, segundo seu destino, não pôde reconciliar de imediato, desvanecendo-se um dia até esta firme estrutura do mundo no espiritual, desintegrando-se apenas essa forma externa enquanto a força interior e a essencialidade persistirão para serem reveladas em nova transfiguração
  • ganhando um dia a supremacia o fogo divino que ora repousa aprisionado na natureza, consumindo tudo o que meramente nela foi introduzido através da supressão da verdadeira interioridade, retornando então à condição inicial, deixando de ser a essência desautorizada que mantinha prisioneiras em si as forças divinas, unindo-se de novo voluntariamente o espiritual e o divino à essência purificada
  • falando disso como quem pressente, mas não como quem possui conhecimento certo

28. Respondeu-se que, mesmo assim, para compreender aquela elevação e aperfeiçoamento da matéria, dever-se-ia partir da condição de sua humilhação e imperfeição, considerando as características pelas quais a matéria agora parece e verdadeiramente é oposta ao espiritual, para compreender aquelas pelas quais um dia se tornará uma só e mesma essência com o espiritual.

Esquema

29. Realidade do mundo dos espíritos, do passado; perfeita humanidade dos espíritos.

30. Diversidade; suas ideias; a clarividência em geral.

31. Em particular, em que consiste; contraste com a ciência: tudo imediato, nada mediato; talvez algo sobre a gradação das ciências entre si; tudo em sentimento imediato.

32. Sem luta; a paz duradoura; também o pecado se foi.

33. Sem lembrança das coisas enquanto ausentes; sem passado.

34. Profundidade da comunhão da última parte.

35. Sobre se a condição da clarividência é aplicável à condenação, ou se não há condição intermediária entre a bendição e a desgraça.

36. Acerca do onde.

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