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Sartre
ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).
- A Náusea descreve a experiência crucial em que repousa o edifício da filosofia dita “existencialista”: a experiência da facticidade do ser, isto é, do caráter não necessário do que existe.
- Essa experiência age como revelação: as gaivotas sobre o mar e as árvores do jardim de Bouville apagam num instante a ilusão da necessidade do ser, tão seguramente quanto o sabor da pequena madeleine de Proust, uma vez identificado, revela de súbito a essência de Combray.
- Sartre escreve que jamais, antes daqueles dias, havia pressentido o que queria dizer “existir”: era como os outros, que diziam que o mar é verde e que aquele ponto branco é uma gaivota, sem sentir que aquilo existia, que a gaivota era uma “gaivota-existente”; de ordinário a existência se esconde.
- A existência se esconde na medida em que mostra bem o objeto que existe, mas passa em silêncio o fato, para sempre misterioso, de que ele existe.
- A tese fundamental do existencialismo, cujos primeiros traços talvez estejam no poema de Parmênides, segundo a qual se emprega o mesmo verbo ser em sentidos completamente diferentes ao dizer que é uma árvore e que essa árvore é, tem pertinência e solidez, e o autor a faria de bom grado sua, com alguns retoques.
- Um dos retoques é que os objetos que existem sem causa não são por isso, ao contrário do que diz Sartre, seres necessariamente nauseabundos e até obscenos, como as árvores do jardim de Bouville.
- Sem tirar nada da verdade da distinção entre existência de fato e existência necessária, o primeiro a estabelecê-la não foi Sartre, mas Schopenhauer, que não é apenas autor de uma teoria do pessimismo: é antes de tudo um filósofo existencialista avant la lettre, que recusa à existência a garantia de quaisquer princípios de razão e a considera alheia a toda causa e a toda intenção, portanto perfeitamente absurda, grundlos (sem razão de ser).
- Nunca ficou bem explicado como nem por que o existencialismo de Sartre, anunciado por A Náusea, tomou logo um rumo moralizador e político que fez dele o homem que todos conhecem, para alegria ou lamento de cada um: um militante possuidor da verdade e sem dúvida alguma, um dador de lições tanto mais penosas quanto mais malavisadas, um procurador que poupava pouca gente (“todo anticomunista é um cão”) ao mesmo tempo em que endossava as causas mais duvidosas, quando não simplesmente criminosas.
- Sartre tornou-se uma espécie de “senhor Verdade” (monsieur Vrai), análogo ao “senhor Inundações” ou ao “senhor Canícula” que o governo francês designa às pressas quando é atropelado pelos acontecimentos.
- Um livro de título revelador, O existencialismo é um humanismo, anunciava já em 1946 a mudança de rumo, e o pensador da facticidade parecia transformado num “senhor Direitos do Homem”, sem que se compreenda a razão da metamorfose.
- Essa orientação moral e política fez o autor perder todo interesse, mas não todo aborrecimento, pela obra de Sartre: as numerosas e copiosas obras seguintes estavam constantemente atulhadas de noções (culpabilidade, inautenticidade, estatuto ontológico do “salaud” [canalha], má-fé, livre-arbítrio) que não pertencem ao seu universo mental e que, segundo ele, são pseudoideias que Spinoza rejeita como meros efeitos de vento (flatus vocis).
- Antes de concluir, presta-se homenagem a duas obras de Sartre, além de A Náusea, que parecem êxitos.
- A primeira é Entre quatro paredes (Huis clos), que revela um senso teatral inteiramente ausente das demais obras dramáticas de Sartre.
- A segunda são as poucas páginas dedicadas a Mallarmé, num ensaio inacabado e num prefácio à edição Gallimard das Poesias de Mallarmé, que mostram inteligência do empreendimento mallarmeano muito superior à de numerosos comentadores, talvez com exceção do breve capítulo de Georges Poulet em seus Estudos sobre o tempo humano.
- Essas páginas foram reeditadas em 1986 numa coleção de bolso da Gallimard, “Arcades”, com o título Mallarmé, a lucidez e sua face de sombra.
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