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rosset:2012:2

2 Retrato encantado

ROSSET, Clément. L'invisible. Paris: Les Éditions de Minuit, 2012.

  • É experiência banal desconcertar-se com a fotografia ou a aparição na tela de um cronista que só se ouvira no rádio, e afirmar que a imagem não corresponde à “ideia” que dele se fazia: mostra-se a alguém a foto de um pianista que admira ou de Nicolas Stoufflet a um ouvinte assíduo de Le Jeu des mille euros, na France Inter, e vem a observação unânime de que não o imaginava assim.
    • O descompasso entre a voz conhecida e o rosto desconhecido parece regra, pois ninguém jamais exclamou, ao ver pela primeira vez o retrato de quem só conhecia pela voz ou por ouvir dizer, que era ele “cuspido e escarrado” (tout craché).
    • Assim como não se leva necessariamente a alma no rosto, salvo se a varíola intervém, como com a sra. de Merteuil no fim de As ligações perigosas, também não se leva a voz nem a reputação, sobretudo quando esta é fruto só da imaginação, como a sra. de Rênal em O vermelho e o negro, que descobre que o preceptor severo, sujo e rude que imaginava é Julien Sorel, jovem mal saído da infância.
  • Jean Paulhan, em Conversa sobre fatos diversos, imagina a anedota de uma senhora a quem mostram um retrato de Briand e que diz “não é parecido”, embora nunca o tenha visto.
    • O retrato não foi feito por artista inábil, deve-se imaginá-lo o mais fiel possível: parece pouco parecido por não corresponder à ideia ou imagem que a senhora faz de Briand, e o mesmo se daria se Briand se apresentasse em pessoa, como nota René Martin, para quem provavelmente ela começaria por sentir que era Briand quem estava errado.
    • Isso se deve, primeiro, a que, em conflito entre o ilusório e o real, é sempre o ilusório que vence, e, depois, a que quanto mais próximo um objeto parece, mais confuso ele é, e o que está longe ganha precisão, como se a iluminação direta do real embaralhasse a visão, como confessava Nivernois, que tinha ideia precisa do chinês, mais vaga do russo e perfeitamente confusa do inglês.
  • Essa experiência banal, quando não repousa numa apreensão legítima nem numa antecipação favorável, revela um enigma já conhecido: qual é o rosto da pessoa ouvida ou imaginada a partir de uma voz que contrasta com o da pessoa real, enfim vista em carne e osso?
    • A quem ele se parece, quais seus traços, como descrevê-lo a um inspetor encarregado de um retrato falado? É evidente que é impossível responder e que nenhum rosto se apresenta ao espírito: o retrato não é parecido, mas seria preciso haver algo a que devesse parecer, o que não ocorre.
    • Paradoxo insuperável e conceito contraditório de falsa imagem de imagem nenhuma ou de falso reflexo de objeto nenhum: o que não existe é invisível e não há imagem do invisível, muito menos imagem que se possa reputar fiel ou enganosa.
    • A senhora dirá que imaginava Briand de outro modo, quando a verdade é que nada imaginava, e o que crê imaginar é uma “visão” no segundo sentido do termo, cuja essência não é um transtorno, mas paradoxalmente uma ausência de visão, razão por que o que se chama percepção ilusória é antes ilusão de percepção e, mais amplamente, ilusão de um pensamento.
    • O “outro” Briand, o suposto verdadeiro Briand, é tão inconsistente e imaterial quanto a “outra” versão do destino de Édipo imaginada pela opinião comum: fantasma do duplo já descrito em O real e seu duplo.
  • A ideia que a senhora faz de Briand provém em parte, diz Paulhan, de outro retrato visto antes, mas este primeiro retrato pouco importa, pois, como precisa René Martin, aquela ideia não permaneceu um entre mil retratos que circulam, mas “inchou” até tornar-se a imagem-tipo de Briand, o próprio Briand.
    • O retrato visto ontem, que parece contrastar com o de hoje, é tão “fantasmal” quanto o outro, um “retrato encantado” como o que dá título ao primeiro dos Contos indianos de Mallarmé, encantado em dois sentidos: convence e seduz por um instante, ou menos, e depois se esquiva, para grande dano do rei Vikatavarma, que não lhe sobrevive.
    • A imagem do verdadeiro Briand é semelhante à chave que fecha os subterrâneos onde Barba Azul guardou seus cadáveres: é “fada” (fée), pois as manchas de sangue que a sujam não cessam de evaporar-se para reaparecer e desaparecer de novo.
  • Esbarra-se no mesmo paradoxo ao não reconhecer, na adaptação cinematográfica de um romance, o personagem conhecido só pelo texto: a melhor adaptação, ainda que melhor que o romance, será sempre traição, pelas razões ditas, e por isso as duquesas de Guermantes, o barão de Charlus e as sras. Verdurin que desfilam na tela serão sempre incríveis, feitas de outro tecido que os personagens de Proust.
    • Como não podem ser comparados a nenhuma imagem desses personagens, pois tais imagens não existem, escapam a toda relação de semelhança ou dessemelhança, e encontrar um na praia ou numa esquina seria tão prodigioso quanto dar de cara com um marciano.
  • O mesmo problema surge quando o objeto ou pessoa que se custa a reconhecer é conhecido só pelo nome: o encontro reserva a mesma surpresa e o mesmo “descompasso”, mas costuma trazer má surpresa, por a coisa valer menos que o esperado, como no restaurante o prato mais medíocre que o cardápio prometia.
    • Proust analisa e admira essa diferença ao longo da Recherche, para deplorá-la, pois implica desapontamento, um lucro cessante, e a percepção real põe o narrador não na entrada, mas “no termo do mundo encantado dos nomes”: há sempre menos na duquesa de Guermantes que no nome da duquesa de Guermantes, menos na cidade de Balbec que no nome Balbec, menos na realização do amor que em sua espera, menos no real que no que dele se esperava.
    • Mas o que se esperava ao certo? É pergunta que os decepcionados nunca fazem: decepciona-se sem saber de quê nem em relação a quê, e como depreciar algo se não se pode precisar o preço combinado de antemão? Como um valor conhecido seria tido por menor que um valor desconhecido? É um contrassenso dizer de algo, como brincava Raymond Devos, que é “menos que nada”.
    • A coisa com que se sonha de longe e que decepciona de perto ilustra o conhecimento segundo Nivernois: pequena vista de perto, grande vista de tão longe que não se vê.
  • Essa decepção com a coisa em relação à ideia que dela se fazia é variação de uma disposição mais geral, para a qual nenhuma coisa real é digna de atenção: o real nunca interessou a ninguém, dizia Baudrillard, e um objeto real, tido por interessante ou desejável, perde todo interesse e atrativo assim que cai na rede, pois, tornado seu e concreto, já não importa.
    • Seria errôneo considerar essa alergia ao real uma constante da condição humana, pois há quem se satisfaça com o fruto que come e lhe ache até mais sabor, mas esses são, diz-se, inconscientes ou doentes.
    • Há, contudo, desejos cuja satisfação é impossível para todos os homens, e a satisfação só falta de fato quando o desejo se volta para um objeto ele mesmo faltante, como na paixão amorosa e em toda paixão.
  • Há uma última pessoa que nunca se reconhece por estar constantemente invisível, e é a si mesmo: o espelho não devolve uma imagem de quem nele se olha, mas uma imagem em que direita e esquerda estão invertidas, e pode-se sonhar com longo período pré-histórico em que os homens nunca teriam se visto, época de verdade em que não se viam, mas não tinham, como hoje, múltiplas ocasiões de imaginar que se veem.
    • O reflexo na água pura, que remete ao mito de Narciso, foi primeira ocasião de perceber-se, uma vez reconhecido no reflexo, o que não é imediato e não foi o caso de Narciso, que viu na imagem refletida a de outro por quem se enamorou, e já foi também primeira ocasião de ilusão, pois o reflexo só oferece, como o espelho, imagem inversa.
    • A primeira reconhecimento de si no espelho é a imagem de si apreendido como um outro um tanto afastado e forçosamente um tanto diferente, que a criança de um a dois anos percebe, porém, como sua própria imagem, e que é de fato a imagem mais próxima que terá de si.
  • A impressão de descompasso, já encontrada entre retrato e modelo, atinge aqui o cúmulo, pois de si não há modelo nem original: as técnicas modernas de reprodução (fotografia, gravador, gravações digitais) permitem ver-se e ouvir-se, mas não há reconhecimento nelas, pois a própria voz soa falsa aos ouvidos e a fotografia desconcerta, e Diderot dizia à família, sobre um retrato: “Meus filhos, aviso-os de que este não sou eu.”
    • Se a representação de si parece sempre mais ou menos infiel e a reaudição da própria voz soa sempre um pouco falsa, é que nunca houve “apresentação” nem “primeira audição”: não se pode re-presentar o que nunca foi presente.
    • Poderia-se informar junto aos outros do que se aparenta, mas tal comunicação é cortada: se não se vê a si mesmo, vê-se menos ainda o que os outros percebem de nós, e eles nos veem bem, mas jamais se terá a menor ideia do que veem.
    • Resta ao pintor o autorretrato, menos reflexo de si que manifestação do estilo do artista, de sua maneira de perceber a realidade, e nesse sentido mais fiel que todo retrato, justamente por não ter em vista fidelidade alguma.
  • Se nenhum quadro, fotografia ou representação é verdadeiramente parecido, é também por razão mais geral: é próprio de toda pessoa e de toda coisa ser singular e, portanto, rigorosamente inimitável.
    • Um Crátilo ao mesmo tempo outro que Crátilo e semelhante a Crátilo é impensável, argumento já em Platão e depois chamado pelos neoplatônicos de “argumento platônico” (o logos platonistikos), e a noção de modelo (ou original) implica ela mesma um paradoxo, pois não há cópia a partir da qual se figure um modelo: o modelo é o inimaginável mesmo.
    • O que não se pode de modo algum imaginar é o que Kant considerava o sublime, e nada mais sublime que Deus, nem menos imaginável, de modo que a ideia de um retrato de Deus, que Salvador Dalí teria recebido por encomenda, é a aposta mais impossível de sustentar e também a mais cômica.
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