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rosset:1983:1.7
1.7 Eterno retorno
La force majeure. Paris: Éditions de Minuit, 1983.
- O tema do eterno retorno em Nietzsche suscitou múltiplas e eruditas exegeses de filósofos contemporâneos, que o tomam como uma das chaves do pensamento nietzschiano, senão seu centro: retorno de coisa alguma segundo Klossowski, retorno da diferença inerente a toda coisa segundo Deleuze, retorno do Mesmo e atestação de um ser eterno que transcende todo “ente” segundo Heidegger.
- Nos livros publicados ou autorizados por Nietzsche, só há duas páginas curtas expressamente dedicadas ao tema: o aforismo 341 de A Gaia Ciência e o aforismo 56 de Para Além do Bem e do Mal. A raridade não implica lugar secundário, pois Nietzsche alude com frequência à grande importância que atribui a essa ideia, sem precisar sua natureza.
- Seria vão buscar o conteúdo da ideia no que Nietzsche teria pressentido sem jamais escrever, no que teria “retido”, como convida Heidegger, que interpreta Nietzsche a partir do que ele não disse, preenchendo o vazio com seu próprio fundo. Tais interpretações são suspeitas por dispensarem qualquer texto de apoio.
- O que é pensado se resume ao que é escrito ou de algum modo expresso; a recíproca não vale, mas ser expresso é condição necessária, ainda que não suficiente, para haver pensamento. O melhor é ater-se ao aforismo 56 e sobretudo ao 341 de A Gaia Ciência, o texto mais extenso e esclarecedor.
- O início do aforismo 341 imagina um demônio que, um dia ou uma noite, se insinua na mais remota solidão e diz que esta vida, tal como é vivida, deverá ser vivida ainda uma vez e inúmeras vezes, sem nada de novo, cada dor e cada prazer, cada pensamento e cada suspiro retornando na mesma ordem e sucessão, inclusive a aranha, o luar entre as árvores, este instante e o próprio demônio; a eterna ampulheta da existência é sempre virada de novo, e o homem com ela, grão de poeira da poeira.
- O início é duplamente instrutivo. Primeiro, indica que o eterno retorno é uma simples ideia, suposição ou ficção (“se um demônio te dissesse”), apresentada desde o primeiro texto publicado não como tese sobre a verdade das coisas, mas como hipótese que convida a uma reação afetiva.
- Constitui uma pergunta, uma prova, comparável e oposta à tentação do diabo, que faz brilhar ao pecador em potencial o fantasma de um mundo mirífico de gozo absoluto e ilusório, ao passo que o demônio nietzschiano pergunta o que se diria deste mundo que já se tem, feito de dores e gemidos.
- Segundo, o texto é o único a descrever com nitidez o conteúdo do retorno: o que retorna, ou antes retornaria, é este mundo já presente, “nada de novo”. Trata-se de repetição estrita, o que não exclui o retorno da diferença sugerido por Deleuze, se a própria vida é feita de diferenças, mas exclui o retorno do mesmo em Heidegger, que implica permanência de um ser transcendente a toda existência no tempo.
- É nesse sentido, e não no do círculo vicioso de Klossowski, que o retorno é, como diz o fim do aforismo 56, um “circulus vitiosus deus”: faz retornar o que nunca deixou de estar presente. Nerval exprime essa coincidência do alhures e do aqui no poema Delfica, em que os deuses voltarão enquanto nada perturbou o severo pórtico.
- O fim do aforismo 341 pergunta se o homem não se lançaria ao chão, rangendo os dentes e maldizendo o demônio, ou se já viveu um instante formidável em que responderia: “És um deus, e jamais ouvi coisas mais divinas!”; se tal pensamento o dominasse, transformaria ou talvez esmagaria; a pergunta “Queres isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o peso mais pesado sobre o agir, e seria preciso muita benevolência consigo e com a vida para nada mais desejar que essa derradeira e eterna confirmação.
- O eterno retorno é aí, antes de tudo, um revelador, não de uma verdade filosófica das coisas, mas psicológica, da verdade do desejo humano: assinala o desejo ótimo dos que tomam a ideia com leveza, favor e amor, e a doença do desejo dos que a sentem como pesada, título do aforismo: “O peso mais pesado”.
- A ideia afere a intensidade respectiva da alegria e da tristeza, e é nesse sentido, e só nele, que é pensamento decisivo. O bom acolhimento é a marca mais indiscutível da alegria, que Nietzsche define em Ecce Homo como “a forma mais alta de aquiescência” e “a paixão do sim por excelência”.
- O aforismo 56 de Para Além do Bem e do Mal descreve o homem da beatitude como o do bis e do da capo: quer e reque sempre o que tem e sente. É também marca do amor ser mais sensível ao encanto do amado que aos tormentos que ele causa, como Masetto no ato I do Don Giovanni de Mozart, que cede a Zerlina (Batti, batti, o bel Masetto).
- Assim se define a integridade absoluta da alegria e do amor: querer sempre de novo e sempre o mesmo. Deleuze tem razão em atribuir ao retorno caráter seletivo, apto a reconhecer a perfeição da “vontade absolutamente boa” em sentido nietzschiano: o que quiseres, queira-o de modo a querer também seu eterno retorno.
- O sim vivido no pensamento do retorno aceita, ou estaria disposto a aceitar, o retorno puro e simples de toda coisa existente: nenhuma queixa nem pedido de revisão contra o real, adesão sem reserva de emenda possível ou desejável.
- Aqui a alegria de Nietzsche se opõe, superando-o, ao otimismo de Leibniz, que já chegava, antes de Nietzsche, a afirmar o retorno: haveria poucas pessoas que não aceitassem, à hora da morte, retomar a vida repassando pelo mesmo valor de bens e males, contanto que não fosse pela mesma espécie, contentando-se em variar.
- A versão leibniziana é próxima da nietzschiana, mas indica beatitude menor: concorda em nada exigir de melhor, mas pede ligeira variação do mesmo, o que a ideia nietzschiana, com “o mesmo ordem e a mesma sucessão”, não comporta.
- Por isso é difícil seguir Deleuze quando diz que o retorno opera uma “segunda seleção”, privilegiando o retorno das forças ativas e eliminando o das reativas: “o homem pequeno, mesquinho, reativo não voltará”. Essa ideia de progressão possível do bem, de um melhor pronto a eclodir no seio do melhor, agradaria a Leibniz, mas não a Nietzsche, e não se vê em que textos se apoiaria, salvo os sobre a vontade niilista, que nada liga ao retorno.
- Uma passagem de Ecce Homo confirma as vistas de Nietzsche: ao buscar seu exato oposto, a incomensurável baixeza dos instintos, encontra sempre a mãe e a irmã, e declara que sua objeção mais profunda ao “eterno retorno”, seu pensamento “abismal”, é sempre a mãe e a irmã.
- É uma das últimas páginas escritas, poucos dias antes da loucura de janeiro de 1889, descartada por Peter Gast, que nela via sinais de desarranjo mental, e pela irmã. Permanece reveladora do que Nietzsche sempre pensou do retorno: que faria (ou faria) voltar indistintamente todas as coisas, as piores como as melhores.
- No sim vivido pelo pensamento do retorno vive-se também a ideia de uma eternidade afetando tudo o que é aprovado: mundo, vida, eu, existência em geral.
- O Crepúsculo dos Ídolos define “o instinto mais profundo da vida” como o do futuro e da eternidade da vida; n'O Anticristo, Nietzsche opõe ao deus cristão o de uma “eterna aquiescência” à vida; e um poema comentado por Heidegger declara: eterno “sim” do Ser, para sempre serei teu “sim”, pois te amo, ó eternidade.
- Eis novo paradoxo aparente, pois Nietzsche denuncia a vontade de eternização como essencialmente reativa, expressão de ressentimento contra a vida e de insatisfação com o devir, como no Crepúsculo dos Ídolos: a ausência de senso histórico dos filósofos, seu ódio ao devir, seu “egiptismo”, que os leva a “desistoricizar”, considerar sub specie aeterni, mumificar.
- Há duas formas opostas do desejo de eternidade, segundo o aforismo 370 de A Gaia Ciência: a vontade de eternização pode vir de gratidão e amor, ou ser a vontade tirânica de um ser em grave sofrimento, que aspira a dar a idiossincrasia de sua dor o caráter de lei universal.
- Psicologicamente, o desejo de eternidade é ambíguo, sintoma de falta ou sinal de plenitude. Filosoficamente, o desejo de eternidade de Nietzsche afeta menos a natureza das coisas que a do desejo, visando não uma permanência do mundo, mas uma insistência do amor.
- O eterno retorno é um dos principais argumentos de Heidegger, empenhado em demonstrar que Nietzsche era pensador da questão do ser, que só criticou a metafísica platônica para preparar a restauração de uma ontologia verdadeira, capaz de distinguir o ser do ente, isto é, a própria filosofia de Heidegger.
- Heidegger vê na ideia de retorno a intuição obscura de uma permanência do ser e invoca uma frase de um fragmento póstumo de A Vontade de Poder: que tudo retorne é a extrema aproximação de um mundo do devir ao do Ser, ponto culminante da contemplação.
- Nada diz, contudo, da frase anterior, que descreve a produção de um mundo do ser como falsificação, nem da seguinte: a condenação do devir e o descontentamento com ele provêm dos valores atribuídos ao ser, depois de inventado esse mundo do ser.
- Passar por cima dessa evidência exige obstinação intrépida, talvez atribuível ao que Nietzsche, e antes dele Schopenhauer, admiravam e deploravam numa disposição de espírito que eles próprios qualificavam de germânica.
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