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rosset:1977:1.3

1.3 Monotonias

ROSSET, Clément. Le réel: traité de l'idiotie. Paris: Éditions de Minuit, 1977.

  • A insignificância do real não se manifesta apenas quando a realidade se apresenta de modo visivelmente incoerente e desordenado, em estado de pura e arbitrária contiguidade; aparece também, e melhor ainda, quando o real se apresenta coerente, ordenado e contínuo, constituindo uma espécie de texto, mais ou menos rudimentar ou elaborado.
    • O real assemelha-se aos maus escritores: tem finalmente pouco a dizer, mas dá de bom grado a ler.
    • O silêncio, último a ser comunicado pela realidade, nunca é tão eloquente quanto quando o real está justamente falando, pois o silêncio disfarçado de palavra revela mais que o silêncio simples; do mesmo modo o acaso nunca impressiona tanto quanto quando assume a aparência de finalidade.
    • Por isso Aristóteles distingue o simples fortuito (autómaton) do verdadeiro acaso (tyche), que designa o caso em que o puramente fortuito se disfarçou de finalidade aparente.
  • Inumeráveis são os “textos” do mundo que apresentam tal significação insignificante, anunciadores de um sentido que afinal não é entregue, portadores de mensagem vazia; no domínio físico, basta haver manifestação de regularidade para haver texto e mensagem, e tentação de inferir uma significação.
    • Tome-se o caso dos eclipses da lua e do sol: apesar de algumas variações, produzem-se de modo muito regular ao longo de períodos de dezoito anos e dez (ou onze) dias, chamados Saros, ao fim dos quais recomeça o mesmo ciclo de eclipses, aproximadamente nos mesmos dias e na mesma ordem.
    • Dada a complexidade e a precariedade das condições de existência de um eclipse, essa regularidade equivale a um milagre; para que ocorra um eclipse são necessários, resumidamente, quatro elementos.
    • Primeiro, um alinhamento Sol-Terra-Lua (ou Sol-Lua-Terra), isto é, uma lua cheia ou nova, determinado pela revolução sinódica ou mês lunar, S = 29,530588 dias.
    • Segundo, uma passagem do sol próximo dos “nodos”, os dois pontos em que a órbita lunar corta a eclíptica, determinada pelo ano dos eclipses, E = 346,6200 dias, diferente do ano normal porque os nodos retrogradam sobre a eclíptica.
    • Terceiro, uma passagem da Lua pelos mesmos nodos, determinada pelo mês draconítico, D = 27,2122 dias.
    • Quarto, uma compensação das irregularidades dos movimentos aparentes dos astros, sobretudo da irregularidade da lua em seu movimento elíptico (de excentricidade bastante forte), função de sua distância ao perigeu, ou anomalia, o que determina um mês anomalístico, A = 27,5546 dias, intervalo entre duas passagens da lua pelo perigeu.
    • Uma regularidade na aparição dos eclipses só é imaginável se existir, por sorte, um múltiplo comum dos valores S, E, D e A o mais exato possível aritmeticamente; quanto menor esse múltiplo, maior a regularidade e mais curto o período do ciclo.
    • Esse múltiplo existe e é surpreendentemente pequeno e próximo das grandezas de que é múltiplo comum: 6 585, pois 223 × 29,530588 = 6 585,3211; 19 × 346,6200 = 6 585,78; 242 × 27,2122 = 6 585,3567; 239 × 27,5546 = 6 585,5374.
    • Por graça dessa sucessão de coincidências aritméticas felizes, o período de 6 585 dias cobre cerca de 223 meses lunares, 19 anos de eclipses, 242 meses draconíticos e 239 meses anomalísticos, isto é, o Saros, de 18 anos mais 10 ou 11 dias, conforme o intervalo contenha 4 ou 5 anos bissextos.
    • Nada exprime mais simplesmente o laço entre acaso e regularidade nem confirma de modo mais convincente a tese de Lucrécio de que a ordem é sempre apenas caso particular da desordem: uma sucessão de acasos felizes produz regularidade que atesta não uma ordem nas coisas, mas um acidente no curso normal das coisas, votado ao acaso.
    • Há dois níveis de acaso: um acaso físico, que faz um conjunto de movimentos decorrer em durações cuja medida corresponde aritmeticamente a 223, 19, 242 e 239, divisores comuns de 6 585, e um acaso matemático, independente do curso das coisas, pois que esses números sejam divisores comuns de 6 585 é também um acaso em si, já que não há propriamente necessidade aritmética.
    • Que necessidade há, por exemplo, na distribuição dos números primos na série dos naturais, por que há primos em quinta, sétima, décima primeira posições? Distribuição puramente aleatória, e é dela que se engendram todas as séries numéricas; igual distribuição aleatória nas decimais de π, cuja poeira de algarismos exprime, porém, relação invariante e necessária que sela o vínculo do círculo com seu diâmetro.
    • No seio da matemática pura, da realidade mais sutil e independente de toda compromisso com as coisas, aparece o duplo rosto de Jano de toda realidade: um que diz necessário, outro que diz acaso.
  • “Espanta-me muito, diz a marquesa, que haja tão pouco mistério nos eclipses…” (Fontenelle): nada menos misterioso nem mais simples, tão simples que nada há a compreender, pois o fenômeno se produz sem razão alguma, se por “razão” se entende uma disposição necessária.
    • Fontenelle devia pensar antes que é simples por ser natural (inútil apelar a causas ocultas) e que mostra haver uma ordem no mundo; hoje se pensaria, com mais justeza, que é muito complexo e não mostra coisa alguma.
    • Observando a regularidade dos eclipses, só se aprende que uma série de eventos com todas as chances de aparecer em desordem decorre, sem razão alguma, de modo muito regular; aprender-se-ia o mesmo sobre o homem contando o número de seus peidos para estabelecer uma estatística, como faz Molloy: trezentos e quinze peidos em dezenove horas, média de mais de dezesseis por hora, quatro a cada quarto de hora, nem um a cada quatro minutos, “extraordinário como a matemática ajuda a conhecer-se”.
  • “Sem prestar atenção, a bioquímica cai na invencível ilusão de que mediu, logo de que mediu algo”: de modo semelhante, à força de fazer perguntas imagina-se ouvir respostas, como as “vozes” que falam no silêncio e nunca faltaram ouvintes, alguns muito distintos, como Joana d'Arc ou André Malraux; à força de ler, passa-se à ilusão de ler uma mensagem.
    • O código genético revelado por J. Monod e P. Jacob, composto de quatro elementos do ácido desoxirribonucleico (A.D.N.), apresenta-se como um texto cujo ordenamento constitui a estrutura genética do indivíduo, texto que se pode ler, mas que não contém propriamente mensagem; ainda assim é forte a tentação de tomá-lo por livro e nele buscar um sentido, uma chave que entregaria o “segredo” do ser humano.
    • É a exibição de segredos tão ilusórios que trabalha a maioria dos psicanalistas: quando se diz que “isso fala” (ça parle), trata-se de fazer falar à força algo que precisamente nada tem a nos fazer saber; a investigação psicanalítica foi aproximada da violência policial e do estupro do confessionário, por Deleuze e Guattari em O Anti-Édipo e por Michel Foucault no primeiro volume de História da sexualidade, A vontade de saber.
    • O psicanalista assemelha-se ao policial não só por conduzir investigação e querer trazer uma verdade à luz, mas por interpretar o que lhe dizem em termos de respostas já previstas e catalogadas, “codificadas”: como Creonte na Antígona de Sófocles, primeiro dos inspetores obstinados da literatura ocidental, que ouve sempre outra coisa e outra pessoa, forjadas à sua imagem; e ao padre no confessionário, ambos habitados pela mesma “vontade de saber”.
    • Essas aproximações são justas, mas não esgotam a violência psicanalítica, que culmina talvez na ilusão de que há um segredo a forçar, algo a fazer dizer, algo a ouvir, algo de que o psicanalista se maravilha ao colher retalhos quando recolhe piedosamente da boca dos pacientes balbucios como “Poordjeli”, “Busillis” ou “Guet libus ombres”.
    • Precioso fragmento de língua matricial, língua de antes de Babel, cifra do inconsciente, julga Serge Leclaire; mas não serão antes fragmentos dessa língua vagida que falam por vezes os homens em sono profundo, língua fria, monocórdica, literalmente insignificante?
    • Não que o homem, no limite, nada tenha a esconder: tem sempre ao menos um segredo que protege com ciúme, precisamente o fato de não ter segredo algum; Pierre Fédida mostrou que uma das funções essenciais do exibicionismo é mascarar o segredo de um nada a mostrar, esconder que não se tem nada a esconder.
    • “Era preciso ser misteriosa para esconder que eu nada tinha de meu”, diz uma paciente sua, que na adolescência fingia escrever cartas de amor a um homem, para intrigar o entorno, mas só jogava na caixa de correio envelopes vazios: “Como dizer melhor o analista cujo segredo da carta é o do envelope vazio?”
    • O mesmo se diria do silêncio obstinado do adolescente delinquente diante das perguntas do juiz ou do psicólogo: tem grande segredo a guardar, que protege eficazmente porque as perguntas que poderiam desvendá-lo são sem objeto e sem perigo, já que lhe perguntam algo, quando o que ele tem a esconder é justamente que nada tem (nem ideias, nem desejos, nem objetos de atenção real).
  • Em níveis diferentes, todos os exemplos invocados (marcha do Cônsul de Malcolm Lowry, ordem dos eclipses, código genético, segredos de adulto ou de criança) testemunham um mesmo silêncio do real, uma mesma monotonia: o real fala, mas emite um só som (monos tonos) e entrega um só sentido, comparável à curva toda reta que os matemáticos produzem a partir das “funções monótonas”.
    • Um só sentido monótono: ter sempre, necessariamente, um sentido qualquer; o sentido nunca escapa à monotonia de ser qualquer, necessariamente não necessário, e as mensagens do real são finalmente indiferentes por serem de mesmo teor, monótono e insignificante.
    • “O segredo das coisas é que não há segredo. A mensagem de fundo é só um ruído, e ninguém me faz sinal, e não há sinal. (…) Que não haja nada a ler, no fim de toda leitura, quem o suportará?”
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