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rosset:1977:1.1
1.1 Sob o vulcão
ROSSET, Clément. Le réel: traité de l'idiotie. Paris: Éditions de Minuit, 1977.
- O Cônsul caminha sem meta precisa nem direção determinada, a passo ao mesmo tempo incerto e firme: bêbado incurável, já bebeu valentemente, apesar da hora matinal, para festejar a volta da ex-mulher, Yvonne, que foi esperar no bar de Quauhnahuac, ocasião de tomar mais alguns uísques, e ambos seguem a pé até a villa do Cônsul.
- O Cônsul consegue, ao lado de Yvonne, pôr com bastante regularidade um pé diante do outro, falando com certa solenidade “enquanto de uma certa, de qualquer modo, iam seu caminho”; isto é: de qualquer modo, de uma certa maneira.
- A jornada promete ser longa e dura: mil provas aguardam o Cônsul até a noite deste dia de finados em que ele próprio deve encontrar a morte, provas de que sairá sempre vitorioso, a última excetuada, graças à persistência de um estado etílico semicomatoso que o deixa, por assim dizer, fora de alcance.
- O primeiro obstáculo é, de manhã cedo, o encontro com um compatriota solícito, preocupado em vê-lo deitado à beira da estrada, que lhe oferece com bastante inocência um frasco de uísque para ajudá-lo a recobrar o prumo; o Cônsul dá conta dele depressa.
- Yvonne, que ao voltar à villa se arrumou e o espera no quarto, não lhe causa muito mais problemas: uma sesta profunda e imperativa à beira da piscina, onde sofre estranhas alucinações, serve-lhe de defesa provisória (são só oito da manhã e as coisas podem esperar).
- Escapa com brio, pouco depois, às repreensões severas de um vizinho que não se deixa enrolar e lhe lança de imediato a boa pergunta: “O que o senhor faz?”
- Em seguida escapa como pode às náuseas da maquina infernal (máquina infernal) da feira de Quauhnahuac, ao atolamento na cantina del Bosque ao lado da señora Gregorio, como escapará aos toros de Tomalin, às miragens do salão Ofélia e às perguntas de policiais duvidosos no bar do Farolito, em Parián, que querem recrutá-lo à força na polícia mexicana, onde seria excelente delator.
- Pressentindo vago perigo na insistência desses homens, o Cônsul foge; mas os policiais, embriagados e ofendidos por terem sido deixados na mão, o alcançam logo, abatem-no e jogam seu corpo no vasto barranco que domina a cidade, onde tantas coisas já caíram.
- Chegar a esse ponto exige muita energia e determinação, e o Cônsul não as tem em falta: protegido por óculos escuros e, se preciso, por uma bengala robusta, sabe aonde vai e não se deixa intimidar, admirável vontade de quem não quer exatamente nada e, se quisesse algo, não teria consciência disso.
- Descartes recomenda no Discurso do método ir sempre adiante, para chegar ao menos a algum lugar; com essa certeza, o Cônsul segue o caminho “plenamente desperto”, “plenamente lúcido”, “muito capaz de enfrentar o que quer que cruzasse seu caminho”, e não perde um passo do itinerário que o leva, de cantina em cantina, à barranca, o barranco da morte.
- A rota aparentemente desordenada seria justamente a sua, a que quis e escolheu: “O que quer que eu faça, farei deliberadamente”, diz o Cônsul, e tem razão; onde há vontade há caminho, mas o inverso é igualmente verdadeiro: onde há caminho, sempre se pode achar uma vontade.
- É sempre possível imaginar uma vontade para ligar a posteriori uma sucessão de atos insignificantes, como é sempre possível ao Deus onisciente de Leibniz achar a função matemática da curva invisível que passa por pontos espalhados ao acaso; por isso toda ação pode ser tida por insignificante e toda vontade por irrisória, incapazes de produzir séries de atos que difiram em natureza de séries puramente aleatórias.
- Como todos os bêbados, o Cônsul constata uma flutuação contínua nos marcos do tempo e do espaço: sua vida se cumpre num tempo e num espaço “incertos”, incerto tempore incertisque locis, como diz Lucrécio da declinação dos átomos e de seus movimentos imprevisíveis.
- O Chefe da Estação teria dito o terceiro ou o quarto trem vindo de onde? Onde era o Norte, o Oeste, e o Oeste ou o Norte de quem? Era amanhã que devia esperar o trem?
- Essa confusão permanente de coordenadas não o impede de resistir e enfrentar a mobilidade maligna do ambiente: “Suando álcool por todos os poros, o Cônsul estava à porta aberta do Salão Ofélia. Como fizera bem em tomar um mescal! Como fizera bem!”
- Seria errado pensar que perdeu apenas o senso de orientação, o que seria o caso de um bêbado comum, sujeito a porres em que só vacilam os quadros da existência, voltando ao lugar passada a crise; o Cônsul de Malcolm Lowry é um bêbado extraordinário, um vidente que se sabe mergulhado “num estado de embriaguez excepcional”.
- Sua embriaguez é permanente, de modo que a vidência resultante não sofre eclipse, e nenhum intervalo de “lucidez” turba seu embotamento; além disso, já não há para ele caminhos a perder nem a reencontrar, porque nunca houve verdadeiros caminhos.
- Não foi o senso de orientação que se perdeu, mas os caminhos que desapareceram ao redor dele, e com eles toda possibilidade de direção; a via reta perdeu-se na floresta escura, como no início da Divina Comédia de Dante, da qual Sob o vulcão, segundo o próprio autor, é uma espécie de versão moderna e bêbada.
- A perda da via reta, “no meio do caminho de nossa vida, achei-me numa floresta escura”, não vem de os caminhos terem faltado no espírito do Cônsul, mas de ali pulularem, de terem invadido toda a realidade, que já não é senão infinito entrecruzamento de rotas, impenetrável floresta de caminhos.
- Se tudo é indiferentemente caminho, nada é caminho: nenhuma direção que não se confunda com qualquer outra, como se confundem em Heráclito a estrada que sobe e a que desce.
- Basta tentar andar ao acaso, tarefa impossível: pode-se deslocar sem intenção determinada ou cambalear como bêbado, mas o itinerário seguido terá todos os caracteres da determinação; é impossível fazer algo que não possua a determinação desse algo, e pode-se fazer tudo o que se quer, mas nunca qualquer coisa.
- As manifestações do acaso só ocorrem enquanto também manifestações do determinado, da necessidade, e por isso o incertum de Lucrécio é sempre ao mesmo tempo um certum; inversamente, as marcas da determinação são sempre marcas do indeterminado, do acaso.
- Sendo condição de existência de toda coisa ser determinada, nada há de qualquer que não seja determinado, nem nada determinado que não seja, pela mesma razão, qualquer; por isso Lowry diz que o Cônsul e Yvonne se deslocam de modo “necessariamente qualquer”, “necessariamente fortuito”: as somehow, anyhow, they moved on, enquanto andavam “de qualquer modo, de uma certa maneira”.
- A observação incidental de Lowry só é anódina na aparência e revela um paradoxo profundo, que não interessa só ao modo como andam os homens, ébrios ou não, mas ao destino de toda coisa: uma noção confunde-se com seu contrário, o “de qualquer jeito” (anyhow) coincide exatamente com o “de modo algum qualquer, mas precisamente deste modo” (somehow).
- Nenhum “de qualquer maneira” deixa de desembocar numa “certa maneira”, isto é, em algo que não é qualquer coisa, mas esta realidade e nenhuma outra, este modo de ser e nenhum outro; indeterminação total e determinação total confundem-se para sempre.
- Nenhum acaso protegerá o aleatório da necessidade de vir à existência sob a forma disto e de nada mais; toda indeterminação cessa no limiar da existência, e nada será jamais realmente anyhow, pois não há anyhow que não seja, uma vez existente, um somehow.
- Chama-se insignificância do real essa propriedade inerente a toda realidade de ser sempre indistintamente fortuita e determinada, sempre ao mesmo tempo anyhow e somehow: de uma certa maneira, de qualquer modo.
- O que faz a realidade cair no sem-sentido é justamente a necessidade de ser sempre significante: nenhuma rota sem um sentido (o seu), nenhum conjunto sem estrutura (a sua), nenhuma coisa que, mesmo sem transmitir mensagem legível, não seja precisamente determinada e determinável.
- Os princípios dessa insignificância geral resumem-se em duas fórmulas simples.
- Primeira: toda realidade é necessariamente determinada, o que é evidente pelo princípio de identidade (A = A); a evidência não é um truísmo sem interesse, pois em muitos casos essa verdade anódina pode tornar-se violenta e aparentemente inadmissível.
- Segunda: toda realidade é necessariamente qualquer, pois a determinação necessária é ao mesmo tempo marca do fortuito: não é necessária por ser isto e não aquilo, nem isto ou aquilo, mas por não poder escapar à necessidade de ser algo, isto é, de ser qualquer; sendo toda realidade igual e necessariamente determinada, é também igual e necessariamente qualquer.
- Essa verdade vale para toda realidade, salvo uma única, que será dita mais adiante.
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