Expressão trágica e expressão pessimista
ROSSET, Clément. Logique du pire: éléments d'une philosophie tragique. Paris: Presses Universitaires de France, 1971, p. 19-22.
Notar-se-á, em primeiro lugar, que este cuidado de expressão trágica diverge fundamentalmente daquilo que parece, à primeira vista, constituir a forma a mais elementar e a mais radical de lógica do pior: o pessimismo. Tal como se manifesta em Lucrécio, em Montaigne, em Pascal, a intenção terrorista não é comandada por uma visão pessimista do mundo, mesmo se a filosofia que se segue é, num certo sentido, mais pessimista que qualquer pessimismo. Duas diferenças maiores, uma de “conteúdo”, outra de intenção, distinguem tais pensadores dos filósofos propriamente pessimistas, como Schopenhauer. A primeira consiste no fato mesmo da “visão de mundo”: dado primeiro do pessimismo, ela é recusada enquanto tal pelos filósofos trágicos. O pessimista fala após ter visto; o terrorista trágico fala para dizer a impossibilidade de ver. Dito de outro modo: o pessimismo — enquanto doutrina filosófica, presente por exemplo em Schopenhauer ou Edouard von Hartmann — supõe o reconhecimento de um “algo” (natureza ou ser) do qual ele afirma posteriormente o caráter constitutivamente insatisfatório. Nesse sentido o pessimismo constitui, bem evidentemente, uma afirmação do pior. Mais precisamente: só nesse sentido, ou seja a partir de um certo sentido, ou uma certa ordem, já dado, do qual será lícito mostrar — em seguida — o caráter insatisfatório ou incoerente. O pior afirmado pela lógica pessimista toma então seu ponto de partida na consideração de uma existência dada (assim como o pessimismo de Zola se dá de saída um edifício a destruir). Ele é um dos limites aos quais pode chegar a consideração do dado: ou seja a pior das combinações compatíveis com a existência. Melhor: ele é o limite ao qual pode chegar—e chega com efeito, se o pensamento é sem fundamentos teológicos — a consideração do já ordenado. Mau ordenamento, mas ordenamento: o mundo está reunido (mal reunido), ele constitui uma “natureza” (má); e é precisamente na medida em que ele é um sistema que o filósofo pessimista poderá declará-lo tenebroso in aeterno, não suscetível de modificação ou melhora. Não somente o pessimista não acede ao tema do acaso, como ainda a negação do acaso é a chave-mestra de todo pessimismo, assim como a afirmação do acaso é aquela de todo pensamento trágico. O mundo do pessimista está constituído de uma vez por todas; donde a grande palavra do pessimista: “Não se escapa.” O mundo trágico não foi constituído; donde a grande questão trágica: “Aí não se entrará jamais.” O “pior” do qual fala a lógica pessimista não tem relações com o “pior” da lógica trágica: o primeiro designa um dado de fato, o segundo a impossibilidade prévia de todo dado (enquanto natureza constituída). Ou ainda: o pior pessimista designa uma lógica do mundo, o pior trágico, uma lógica do pensamento (descobrindo-se incapaz de pensar um mundo).
[…] O pessimismo é a grande filosofia do dado. Mais precisamente: a filosofia do dado enquanto já ordenado — ou seja a filosofia do absurdo. Tal é a filosofia de Schopenhauer, e tal seria a filosofia de Leibniz, principal inspirador da componente pessimista do sistema schopenhaueriano, se não houvesse, em Leibniz, Deus para dar o mundo e conceder, de uma só vez, a razão do seu ordenamento. Já se ressaltou — devido à outrora célebre Filosofia do inconsciente de Edouard von Hartmann — que o que distingue aqui Schopenhauer de Leibniz não é o humor (pessimista ou otimista), mas o tema teológico: uma vez reconhecido que o mundo é mau, ou pelo menos manchado de mal, nada pior do que a fórmula leibniziana segundo a qual ele não constitui menos o melhor dos mundos possíveis; o “pior” de Schopenhauer e o “melhor” de Leibniz têm finalmente a mesma significação. Desde que ele se dá — sem referências teológicas ou teleológicas — uma natureza a pensar, o pessimista chega necessariamente a uma filosofia do absurdo; isto em dois tempos: 1. A lógica do dado é forçosamente uma lógica do ordenado; 2. Nada legitimando este ordenamento, a lógica do ordenado é uma lógica do absurdo. Esse itinerário é particularmente nítido naquele que pensa o pessimismo da maneira a mais rigorosa, Schopenhauer. Sabe-se que Schopenhauer não se dá senão um único pensamento a pensar para estar em condições de descrever o mundo: a vontade. Esta vontade é cega, ilusória, repetindo-se mecanicamente: o mais pobre dos pensamentos, o mais magro dos “dados”. Contudo, ela basta para fazer passar do caos ao mundo do ordenamento: na medida em que constitui um acontecimento. O acontecimento, que significa ao mesmo tempo relevo sobre a existência e fracasso quanto ao acaso, permite por si só, e seja ele qual for; passar do caos ao pensamento da ordem. Para o pensador trágico, “o que existe” [“Ce qui existe”] — que não é nem natureza, nem ser, nem objeto adequado de pensamento — não dá nunca lugar a acontecimentos: “aí se passam” encontros, ocasiões, que não supõem nunca o recurso a qualquer princípio que transcenda as perspectivas trágicas da inércia e do acaso. Pois o acontecimento é a transcendência mesma: o sinal de uma impossibilidade fundamental em dar conta das peripécias “do que existe”, a marca de uma intervenção necessária para “fazer existir” o que existe. Ora, Schopenhauer representa-se precisamente a vontade como um tal acontecimento: a vontade é o acontecimento por cuja mediação encontrou-se um dado a pensar, o ato pelo qual um dado — o mundo — se constituiu. Ato isolado e único: após ele não haverá nunca mais acontecimentos no mundo, que não fará senão repetir-se cegamente de modo inerte (de maneira geral, Schopenhauer foi o maior pessimista porque foi aquele que se deu o mínimo de acontecimentos a pensar: uma vez “sobrevinda” a vontade, todo o resto é silêncio). Mas o acontecimento dado revela um mundo ordenado: pois Schopenhauer dispõe doravante de uma “natureza”, de um “mundo”. “Existe” — vontade. Grau zero do ordenamento, sem dúvida. Mas grau essencial: passou-se do acaso “do que existe” ao dado de um mundo. Assim, ingredientes esparsos e contíguos podem por vezes “combinar-se” em certos molhos: mas, para que o molho venha a ser, é preciso a intervenção de um acontecimento transcendente, a ação do misturador. O lugar onde se fabrica, assim, ser a partir do acaso chama-se, quanto à alimentação, cozinha; quanto à filosofia, metafísica.
