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rosenzweig:estrela:1.0.3
1.0.3 Homem
ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982
- Assim o homem, não o homem em geral, mas um homem plenamente determinado, tornou-se uma potência que domina a sua filosofia. O filósofo deixou de ser quantidade desprezível (quantité négligeable) para a sua filosofia, e a compensação que ela prometia, sob a forma de espírito, a quem lhe vendesse a alma já não inspirava confiança plena.
- O homem dotado de alma, aquele cujo espírito era apenas o sopro solidificado de sua alma viva, e não o que se transportou para o intelecto, é quem, ao filosofar, tomou a dianteira sobre a filosofia. Ela teve de reconhecê-lo como algo inconcebível para si e, no entanto, impossível de negar, porque a dominava.
- O homem, na simples unicidade de seu ser próprio, assentado sobre nome e prenome, saía do mundo que se sabia mundo pensável, saía do Todo da filosofia.
A metaética
- A filosofia julgou apreender o homem, inclusive como “personalidade”, na ética, mas era uma aspiração impossível, pois, ao apreendê-lo, só podia deixá-lo escapar. Por mais que quisesse dar ao ato um lugar particular em relação a todo ser, a ética só podia, pela mesma necessidade, reintegrar o ato no círculo do Todo cognoscível no momento em que o elaborava, e toda ética acabava desembocando numa doutrina da comunidade, parte integrante do ser.
- Destacar a particularidade do agir frente ao ser não bastava como garantia contra tal desfecho: impunha-se um passo atrás, para ancorar o agir no princípio, real como o ser, de um “caráter” separado de todo ser, único modo de assegurá-lo como mundo próprio diante do mundo.
- Exceto Kant, e só ele, isso nunca aconteceu; e mesmo em Kant, por formular a lei moral como ato de valor universal, o conceito do Todo voltou a vencer a unicidade do homem. Assim, o “milagre no mundo dos fenômenos”, como ele genialmente chamou o conceito de liberdade, afundou, com certa lógica histórica, no milagre do mundo dos fenômenos entre os pós-kantianos, e o próprio Kant serve de padrinho ao conceito hegeliano de história universal, já nos conceitos éticos fundamentais.
- Schopenhauer retomou de Kant a doutrina do caráter inteligível em sua doutrina da vontade, mas esvaziou-lhe o valor e a conduziu em direção oposta, como os grandes idealistas: ao fazer da vontade a essência do mundo, fez surgir o mundo na vontade, e não a vontade no mundo, destruindo a distinção viva entre o ser do homem e o ser do mundo.
- A nova terra aberta ao pensamento por Nietzsche devia estender-se além do círculo descrito pela ética. Quem não quer destruir com cega alegria a obra espiritual do passado, mas valorizá-la plenamente no que realizou, precisa reconhecer esse “além” da nova questão em relação a tudo o que até então se entendia, e só se devia entender, por ética.
- À visão do mundo impôs-se a visão da vida, e a ética é e continua sendo parte da visão do mundo. A relação especial entre ambas é a de uma oposição particularmente íntima, porque cada uma parece dizer respeito à outra e ambas pretendem resolver, cada qual por sua parte, as questões da outra; em que sentido isso ocorre efetivamente, verá-se mais tarde.
- A oposição entre visão da vida e visão do mundo torna-se tão aguda frente à parte ética da visão do mundo que seria preferível chamar metaéticas (métaéthiques) as questões da visão da vida.
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