0.11 Linguagem
ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.
Introdução
XI. O DIZER DA GENTE: A LÍNGUA, RUMO A UMA NOVA LINGUÍSTICA
1. Não há relação mais superlativamente humana que a da mãe e do filho ou a do homem e da mulher que se amam, exemplos máximos de ação interindividual, e o que os amantes mais fazem é falar-se, pois, além dos olhares e das carícias, que talvez sejam uma nova forma de continuar falando, o amor vive sobretudo em conversa, em diálogo sem fim, sendo palrador e eloquente, e quem ama calado é anormalmente taciturno.
2. A interação individualíssima de amar-se, incessante criação original a partir do fundo mais pessoal, tem de realizar-se por meio da fala, mas falar é usar uma linguagem que não é criação de nenhum dos amantes, pois a língua estava aí antes deles e fora deles, no contorno social, injetada desde a infância pelo que a gente diz, já que a língua materna não se aprende em gramáticas e dicionários, mas no dizer da gente.
3. Os amantes querem dizer-se muitas coisas que são uma só, o próprio ser individualíssimo, já que o amor é a tentativa de trocar duas solidões e mesclar duas intimidades, como dois rios que misturam suas águas ou duas chamas que se fundem, e para isso dizem amor meu, sendo preciso distinguir entre o que querem dizer, um sentimento autêntico que brota da raiz da pessoa e que entendem perfeitamente, e a expressão com que o dizem, que lhes vem de fora e não entendem, exatamente como na saudação, pois entendem que precisam dizer essas palavras, mas não por que seu sentimento se chama amor e não outro som, de modo que entre a intenção pessoal e o ato de pronunciar não há nexo inteligível e só o fazem porque ouviram que assim se faz.
4. A língua é um uso social que se interpõe entre as duas intimidades e cujo emprego pelos indivíduos é predominantemente irracional, como mostra de modo escandaloso e quase cômico o fato de se chamar racional e lógico o comportamento mais inteligente, quando ratio e lógos significaram originariamente falar, faina irracional ao menos por um de seus lados constitutivos.
5. Entende-se mais ou menos bem o que se quer exprimir, mas não o que diz por si mesmo o que se diz, as palavras, e, como na saudação, só se entende a palavra teorizando sobre sua origem e descobrindo sua etimologia, o que às vezes não se consegue, como com amor, recebida dos romanos, mas de origem etrusca e procedência desconhecida, enquanto em me deu medo a etimologia esclarece o sentido, pois expressões idênticas em grego e noutras línguas indo-europeias revelam que o povo primitivo cria que as paixões, como as doenças, eram forças cósmicas exteriores que invadiam o homem, restando saber onde está na fala o outro atributo do uso, a coação, já que ninguém ameaça com represálias quem fala com sons inventados.
6. Em cada tipo de uso a coação assume forma distinta, diferenças importantíssimas que revelam a função de cada uso na sociedade, sendo máxima a física, exercida contra a contravenção do tipo de uso chamado Direito, como no ladrão de relógio pego em flagrante e levado à força pelo policial, resposta física, intensa e fulminante, comparada à qual a coação contra quem não saúda é débil, difusa e lenta, o que permite classificar os usos em débeis, como a saudação e os costumes, e fortes, como o Direito, cujo aspecto distinto impediu juristas e filósofos de vê-lo como um uso entre os usos, e cabe corrigir a ideia errônea de que a coação social consiste necessariamente em atos especiais dos demais, pois deve chamar-se coação toda consequência penosa, de qualquer ordem, de não fazer o que se faz no contorno social.
7. Se o amante se recusa a usar uma língua determinada, a polícia não intervém, mas a amada não o entende e ele fica sem dizer o que desejava, de modo que a língua, sem aspavientos, coage da maneira mais simples, automática e inexorável, impedindo ser entendido e paralisando a convivência, coação que consiste em omissões e não em atos, pois não entender é algo que acontece, e há coação sempre que não se pode escolher impunemente um comportamento distinto do que se faz na coletividade, podendo a punição ser apenas um esforço maior, como o de quem quer um desjejum fora do repertório usual nas viagens, enquanto a sociedade poupa até o esforço de inventar o desjejum, causa decisiva de que ela persista, pois quase todos sentem às vezes vontade de fugir da sociedade, mas a imagem do esforço de uma existência solitária reprime esse impulso, de modo que o homem, se é naturalmente sociável, é também naturalmente insociável, com uma ânsia de fuga que aparece periodicamente na história, como nos últimos anos, em que muitos europeus sonharam com uma ilha deserta.
8. Quando Napoleão se aproximava de Weimar, Goethe desejava estar fora, mas não há fora, e nos primeiros séculos do Império Romano muitos homens desiludidos do coletivo fugiram ao deserto, imitados pelos monges cristãos, que seguiram os eremitas da Síria e do Egito que praticavam a moné, a solidão, de onde monakhoí, monges, cujo prestígio povoou os desertos de milhares de solitários que assim deixaram de sê-lo e formaram comunidades, cenóbios, de koinós, comum, até que os mais resolutos, não podendo isolar-se horizontalmente, fugiram pela vertical sobre altas colunas, os estilitas, sem resultado, pois até o imperador mandava ministros consultar são Simeão sobre assuntos de Estado gritando-lhe do chão.
9. A língua, fenômeno menos simples que a saudação, é aquele em que mais clara e puramente se dão os caracteres da realidade social e em que se manifesta com precisão o ser de uma sociedade, convivência contínua e estabilizada de uma unidade coletiva separada de outras, pois tão logo um grupo se separa, começa automaticamente a modificar sua língua e, se a separação dura, a criar uma nova, como ocorreria aos presentes numa sala separados por alguns anos dos demais espanhóis, que ao voltar notariam diferenças de pronúncia, significação, sintaxe e modismos, fato inúmeras vezes repetido na história, que mostra que para existir uma sociedade é preciso uma separação prévia, por obstáculos geográficos, como o povo da Nova Guiné isolado há séculos por uma catástrofe geológica, ou por causas políticas e outras mais complexas.
10. Se os estudos sociológicos estivessem em boa forma, a influência da separação na produção automática de sociedade teria sido estudada a fundo, oferecendo uma rica casuística útil para entender, por exemplo, os efeitos dos meios atuais de comunicação, que pela primeira vez tornaram normal o deslocamento frequentíssimo de inúmeras pessoas entre países, fenômeno que tende a crescer e se soma à presença constante na imprensa do que ocorre noutros países, sem que esteja dito que seus efeitos sejam benéficos ou que sua velocidade não traga graves consequências, ainda que transitórias.
11. Que sociólogos e etnógrafos não deram ao tema a importância devida salta à vista quando não fazem problema de fatos como o seguinte.
12. Na Nigéria, numerosas tribos díspares em raça, língua e usos vivem tão próximas que quase se misturam, mas cada indivíduo permanece adstrito à sua sociedade e considera os outros absolutamente estrangeiros, e como os tambores sagrados simbolizam os usos da tribo, dizem do membro de outra que dança com outro tambor, isto é, tem outras crenças, outra língua e outros tabus, de modo que a identidade de tabus produz coesão social e, em meio à mais ativa convivência, isola.
13. A língua reage tão finamente aos caracteres da sociedade que se modifica até segundo o grupo social, como nas cidades sumero-acadianas anteriores ao ano 3000, onde se falavam a língua dos homens, eme-ku, e a das mulheres, eme-sal, também língua dos cautos, dado sustentado por Eduard Meyer e recentemente posto em dúvida por Hrozny, o decifrador da escrita hitita, sem razão, pois ainda há muitos povos com uma língua masculina e outra feminina, esta incompreensível aos homens e usada nos mistérios femininos, como entre os suaílis, segundo Carl Albrecht Bernoulli, e cujo caráter e difusão Flora Kraus estudou.
14. O espanhol normal é a resultante mecânica da colaboração entre as classes sociais, cada uma com sua língua e com uma atitude radicalmente distinta diante dela, pois, como nota Lerch, há os que falam sem refletir, ao deus-dará, o grupo popular, os que refletem erroneamente, produzindo deformações cômicas, como a senhora que, querendo parecer fina, diz que o marido chegou no corredo de Bilbado, e o grupo superior, que reflete acertadamente.
15. Eliminado o grupo intermediário, que raramente influi, restam o povo e as aristocracias cultas, cuja atitude na linguagem manifesta sua atitude geral diante da vida, abandonar-se ou deter os primeiros impulsos e conformar-se a normas, e Lerch mostra que o culto fala a partir de uma norma linguística, enquanto o plebeu fala ao acaso, de modo que, contra a tese romântica, os seletos fixam e conservam o idioma impedindo que, entregue às leis fonéticas que regem sem reservas a fala popular, chegue às últimas degenerações, como mostram as enormes perdas de consoantes do francês antes da vigilância das classes superiores, pediculum reduzido a pou, oculus a oeil, augurium a heur, e as convergências que o carregaram de sons equívocos, como san, vindo de centum, sanguem, sine e outros, ou a expressão sens dessus dessous, antes sans dessus dessous, de origem c'en dessus dessous, e a ameaça de confundir port e porte se o e final desaparecesse, sendo graças aos cultos que há palavras abstratas e muitos meios utilíssimos, como certas conjunções.
16. No século XVI o francês ainda vagava à deriva dos caprichos individuais, e no início do XVII começa a pressão de uma norma das classes superiores, que elegem como figura não o sábio ou pedante que fala a partir de si, mas a fala cortesã, dominada pelo ponto de vista de quem escuta e vai responder, isto é, o caráter mais substancial do idioma, a sociabilidade, cabendo legislar ao homem sociável para quem conversar é ocupação formal, o cortesão, o honnête homme, l'homme de bonne compagnie, justamente, pois no dizer falado decisivo é ser agradavelmente entendido, enquanto no escrito, em que decisivo é dizer o que deve ser dito, deve decidir o escritor.
17. O abandono às leis fonéticas levaria a uma linguagem de monossílabos equívocos, como ocorreu no inglês e no chinês, daí a triste condição da língua inglesa, que obriga ao frequente spelling, a ponto de se suspeitar que um inglês só entende outro porque, sendo a conversa puros lugares-comuns, já sabe o que ele vai dizer, enquanto no chinês o problema se resolveu complicando a pronúncia com alturas de tom, música pouco agradável que impede a transcrição em caracteres não ideográficos.
18. A exclamação amor meu, lançada diante de um auditório de mil pessoas sem destinatário reconhecível, é ultradiscreta, porque essas palavras, embora pareçam palavras e tenham uma vaga significação, não dizem nada, por carecerem de receptor, como a pomba que perdeu o rumo e não chega a ninguém, ficando no ar como estão no dicionário, onde as palavras são significações possíveis que nada dizem, tanto que seu autor é o único homem que as escreve sem dizê-las, como quando anota estúpido ou palhaço, o que leva ao paradoxo de que o vocabulário é o contrário da linguagem efetiva e de que as palavras só são palavras quando ditas por alguém a alguém, como ação viva de um ser humano sobre outro, numa situação determinada, sendo a realidade palavra inseparável de quem a diz, de a quem é dita e da situação, e tudo o mais uma abstração, um fragmento exangue.
19. Amor meu dito a ninguém não seria um dizer nem ação verbal autêntica, mas apenas som, fonema, com uma significação que, ao tentar delimitá-la, se desdobra em significações concretas distintas segundo a situação e os personagens, como a mãe que diz amor meu ao filho e o amante à amada, dois sentimentos muito diferentes designados pela mesma palavra, o que não se confunde com a polissemia, em que um mesmo fonema, como leão, designa por acaso coisas distintas, o animal, a cidade, vários papas e as esculturas da escadaria do parlamento, já que o nome do animal vem de leo e o da cidade de legio, pela sede de uma legião romana, duas palavras confundidas pelas transformações fonéticas, exemplo de como a língua entregue a elas se encheria de equívocos e a conversa seria um trocadilho constante, enquanto os leões do Congresso resultam de uma metáfora que transfere o nome do animal a um pedaço de bronze ou mármore.
20. No amor meu da mãe e no do amante não há, segundo os gramáticos, equívoco, mas uma única palavra com uma única significação, que no entanto nomeia sentimentos muito diferentes, o que só se entende advertindo que a palavra amor, arrancada de toda situação viva, não significa nenhum amor real e completo, mas apenas alguns atributos comuns a todo amor, a pessoas, coisas, Deus, pátria ou ciência, insuficientes por si para que haja amor, como triângulo, com cuja significação não se pode desenhar nenhum triângulo sem acrescentar tamanho e abertura de ângulos, de modo que essas palavras possuem apenas um embrião ou esquema de significação, como uma fórmula algébrica que exige substituir as letras por cifras.
21. A palavra tomada isoladamente não tem propriamente significação, mas apenas um fragmento dela, e só ao ser dita se carrega de significação efetiva e completa, que não lhe vem de outras palavras nem do que se chamou linguagem, dissecado no vocabulário e na gramática, mas de fora, dos seres humanos que a dizem numa situação, com a inflexão de voz, a expressão do rosto e os gestos, que são quem propriamente diz, sendo as palavras apenas um componente desse complexo, como tinto, que por si abre séries de significações possíveis, mas dito numa taberna se completa com a cena e significa inequivocamente que se quer vinho tinto, o que mostra que os ingredientes não verbais da circunstância têm potencialidade enunciativa e que a linguagem consiste em atualizar esse poder significativo do contorno, dizendo a palavra por si muito pouco, mas agindo como detonador do poder quase verbal de tudo o mais, o que não ocorre igualmente na linguagem escrita, secundária e, como dizia Goethe, mero e deficiente sucedâneo da falada.
22. Eu, tu, aqui e lá têm sentido diferente segundo quem os diz e onde, e por isso os gramáticos os chamam palavras de significação ocasional, mas a todas as palavras ocorre algo parecido, pois sua significação autêntica é sempre ocasional e depende da situação, sendo a significação do dicionário apenas o esqueleto ou, melhor, a matriz maleável em que as palavras efetivamente ditas, por certos motivos e com certa finalidade, recebem um primeiro molde que o fluir sempre variável da fala reveste com a carne de um sentido concreto.
23. A linguística teve de começar isolando esse lado esquelético e abstrato, o que lhe permitiu elaborar com perfeição admirável a gramática e o vocabulário, mas logo percebeu que isso era só o começo, pois a fala efetiva contradiz quase constantemente a gramática e exorbita o dicionário, e ser um bom escritor, com estilo, é causar frequentes erosões a ambos, razão pela qual Vendryès define a língua morta como aquela em que não se tem direito de cometer erros, o que equivale a dizer que a língua viva vive de cometê-los, e a linguística hoje rodeia a gramática e o léxico com uma orla crescente de investigações sobre o como e o porquê desses erros, exceções tão constitutivas quanto as regras, a estilística, como no grito fogo, que ofende a gramática por dispensar a frase completa, condensada pela emoção do pânico e pela urgência vital num único vocábulo eruptivo.
24. A estilística, ao contrário da gramática, introduz no estudo científico da linguagem elementos extraverbais, o estado emocional e a situação, parte do que é inseparável da palavra e que a gramática e o dicionário haviam separado, de modo que não é um vago acréscimo à gramática, mas toda uma nova linguística incipiente, destinada a engolir a gramática e o léxico e a ficar com toda a linguística, uma nova filologia que estude a linguagem em sua realidade íntegra de dizer vivo, elevando a princípio formal a velha receta interpretativa segundo a qual, se dois dizem o mesmo, não é o mesmo.
25. A linguística, fonética, gramática ou léxico, estudou como linguagem uma abstração chamada língua, maravilhosa e invejável em qualquer outra disciplina humana, mas que só oferece uma primeira aproximação, pois a língua não existe a rigor, é uma figura utópica e artificial criada pela linguística, já que nunca está feita, mas sempre se fazendo e desfazendo, criação permanente e incessante destruição, e nobreza obriga a linguística a uma segunda aproximação que a estude como fazendo-se, in statu nascendi, em suas raízes, sem crer que basta reconstruir suas formas anteriores, pois a chamada história da língua é apenas uma série de gramáticas e léxicos de estados pretéritos, uma série de línguas sucessivas, mas não seu fazer-se.
26. Embora fecundíssimo, não é forçoso ir ao passado para estudar o fazer-se de uma língua, pois, sendo constante fazer-se e desfazer-se, isso ocorre hoje como ontem, e importaria mais que a linguística tomasse o fenômeno num estrato mais profundo, antes de a palavra estar feita, em suas causas genéticas.
27. A ideia de uma nova linguística pode ser exposta laconicamente.
28. Falar é principalmente usar uma língua enquanto feita e imposta pelo contorno social, o que implica que essa língua foi feita, e fazê-la não é simplesmente falar, mas inventar novos modos da língua e originariamente inventá-la por completo, invenção que ocorre porque os modos existentes não bastam para dizer o que se tem a dizer.
29. O dizer, o anseio de exprimir, manifestar e declarar, é uma função anterior à fala e à existência de uma língua feita, um estrato mais profundo ao qual a linguística deve dirigir-se, pois não existiriam línguas se o homem não fosse constitutivamente o Dicente, o que tem coisas a dizer, o que exige uma nova disciplina básica, a Teoria do dizer, que explique por que o homem é dizedor e não silente ou, como os demais seres, limitado a sinalizar com gritos, uivos e cantos um repertório fixo de situações práticas.
30. Von Frisch distinguiu com precisão um pequeno repertório de voos que produzem rumores diferentes com os quais a abelha sinaliza às companheiras determinadas situações, mas esses sinais não são um dizer, e sim reflexos automáticos disparados pelas situações.
31. Não partir do dizer leva a considerar a linguagem como expressão do que se quer comunicar, quando boa parte disso fica inexpressa em duas dimensões, acima da linguagem, o inefável, e abaixo, o que por sabido se cala, silêncio que atua constantemente sobre a linguagem e causa muitas de suas formas, como notou Humboldt ao dizer que em toda gramática há uma parte declarada e outra silenciada, esta infinitamente maior no chinês, em que o contexto é a base da compreensão e o próprio verbo só se reconhece pelo conceito verbal que ele sugere, o que explica as frases sem sujeito, como chove, e as exclamações, como fogo, ladrões, vamos.
32. Se o homem é o que diz, urgiria determinar o que diz, as direções primárias de seu dizer, o que o move a dizer e o que o deixa calado, pois foi essa necessidade de dizer um sistema preciso de coisas que levou à invenção das línguas, o que permite avaliar em que medida esse instrumento é suficiente.
33. Quem se põe a falar crê que poderá dizer o que pensa, o que é ilusório, pois a linguagem diz apenas parte do pensamento e põe uma barreira intransponível ao resto, servindo bastante bem para enunciados e provas matemáticas, sendo já equívoca na física e cada vez mais imprecisa, torpe e confusa nos temas mais humanos e reais, de modo que, dóceis ao preconceito de que falando é que se entende, acaba-se por desentender-se mais do que se, mudos, se adivinhassem, e como o pensamento está em grande medida adstrito à língua, embora não de forma absoluta, pensar é falar consigo mesmo e, portanto, desentender-se e arriscar-se a uma grande confusão.
34. Numa sessão de 1922 da Sociedade de Filosofia de Paris sobre o progresso na linguagem, Meillet, mestre supremo da linguística contemporânea, afirmou que toda língua exprime o necessário à sociedade de que é órgão e que com qualquer fonética e gramática se pode exprimir qualquer coisa, sentença exagerada que não pode ter sido verificada enquanto linguista, já que este conhece as línguas, mas não os pensamentos dos povos, e que esquece que não basta poder formular todo pensamento, mas importa se todas o fazem com igual facilidade, pois a língua não só dificulta a expressão de certos pensamentos, mas estorva a recepção de outros e paralisa a inteligência em certas direções.
35. Não se entende a linguagem em sua raiz sem advertir que a fala se compõe sobretudo de silêncios, pois um ser incapaz de renunciar a dizer muitas coisas seria incapaz de falar, e cada língua é uma equação diferente entre manifestações e silêncios, calando cada povo umas coisas para poder dizer outras, já que tudo seria indizível, daí a enorme dificuldade da tradução, que consiste em dizer num idioma justamente o que este tende a silenciar, devendo a teoria do dizer ser também uma teoria dos silêncios particulares de cada povo, como o inglês, que cala inúmeras coisas que os espanhóis costumam dizer, e vice-versa.
36. Num sentido ainda mais radical, a linguística deve orientar-se para uma teoria do dizer, pois a língua nunca está feita, e a distinção de Saussure entre linguística sincrônica e diacrônica é utópica, porque o corpo da língua nunca está quieto e não há sincronismo estrito de seus componentes, e insuficiente, porque a diacronia apenas reconstrói outros presentes relativos, oferecendo uma visão cinemática, como o filme feito de imagens imóveis, e não uma compreensão dinâmica do fazer-se das mudanças, que são apenas o exterior da linguagem, cabendo uma concepção interna das forças operantes, e se a linguística declarou tabu o problema da origem da linguagem pela falta de dados primitivos, a língua está constantemente originando-se e suas potências genitoras continuam operando hoje, podendo ser postas de manifesto na fala atual, sem o que é impossível tratar com verossimilhança da origem da linguagem.
37. Por isso as teorias da origem da linguagem oscilaram entre o dom divino e a derivação de necessidades animais normais, o grito, o chamado, o imperativo, como em Révész, ou o canto, como nos pássaros, segundo Darwin e Spencer, a interjeição e a onomatopeia, mas a explicação teológica é o contrário de uma explicação, pois dizer que Deus fez o homem animal racional e lhe deu a linguagem equivale a declarar que nenhum dos dois precisa de explicação, quando o homem não foi desde logo racional nem o é ainda, sendo uma espécie surgida há cerca de um milhão de anos que talvez chegue em milênios futuros a uma racionalidade efetiva, dispondo por ora de instrumentos intelectuais toscos, e também é erro derivar a linguagem de um ser animal como os demais, pois não se entenderia por que outras espécies, com as mesmas necessidades e cérebros capazes de reter um sistema rico de gritos, não elaboraram línguas.
38. No homem tinha de existir desde o início de sua humanidade uma necessidade de comunicação incomparavelmente superior à dos animais, originada em ter anormalmente muito a dizer, um mundo interior transbordante que exigia manifestar-se, mas o erro é supor esse mundo racional, quando a racionalidade atual mostra sinais de ser produto de seleção, educação e disciplina ao longo de centenas de milhares de anos, aplicadas a uma função primigênia surgida em desenvolvimento anormal, a fantasia, de modo que, entre a doutrina teológica e a zoológica, cabe ver no homem um animal anormal e fantástico, cuja superabundância de imagens criou um mundo interior e deu à convivência um caráter novo, já não mero envio de sinais úteis sobre o contorno, mas manifestação da intimidade exuberante que oprimia, excitava e atemorizava e reclamava saída, companhia e interpretação, uma necessidade lírica de confissão, e como as coisas interiores não se percebem, o sinal teve de converter-se em expressão portadora de sentido, sendo o choque com um meio de comunicação insuficiente, ao qual se deve a invenção da linguagem, o que nela perdura em incessantes pequenas criações, o choque fecundo entre a pessoa que quer dizer o novo surgido em sua intimidade e a língua feita, entre o dizer e a fala.
39. Por isso a origem da linguagem pode ser em parte investigada hoje, pois a língua é o que a gente diz, o ingente sistema de usos verbais de uma coletividade a cuja coação o indivíduo está submetido desde que nasce, sendo a língua materna talvez o fenômeno social mais típico e claro, pelo qual a gente penetra e se instala em cada um, socializando o mais íntimo de seu ser, de modo que quem foge da sociedade em que nasceu a leva consigo, verdadeiro sentido da afirmação de que o homem é animal social, ou político, em Aristóteles, social ainda que insociável, pois sua pertença a uma sociedade não depende de sua sociabilidade, e como cada língua leva uma figura peculiar do mundo, impõe-lhe potencialidades e limitações radicais, revelando que o homem é uma acentuada abstração e que o ser mais íntimo de cada um já está modelado por uma sociedade.
40. Inversamente, o indivíduo que quer dizer algo muito seu e não encontra na língua um uso adequado inventa uma nova expressão, que, se repetida por suficientes pessoas, pode consolidar-se como uso verbal, pois todas as palavras e locuções foram inicialmente invenções individuais degradadas depois em usos mecanizados, embora a maioria dessas invenções não deixe rastro por não ser entendida, e essa luta entre o dizer pessoal e o dizer da gente é a forma normal de existir da linguagem, paradigma do fato social, em que o indivíduo prisioneiro de sua sociedade tenta às vezes evadir-se com formas de vida próprias, às vezes com êxito, modificando-se os usos, mas na maioria das vezes com fracasso.
41. Os etnógrafos relatam que em muitos povos primitivos, quando a situação os excita, os indivíduos pronunciam fonemas inexistentes na língua, criados porque a fisionomia de seu som exprime o que sentem e querem dizer, o que devia ser mais frequente na etapa primária em que as línguas se originaram como esboços.
42. Não parece tão claro, porém, que na criação dos vocábulos o decisivo seja a fisionomia sonora, como pensam os linguistas, e há a suspeita de que também a fonética exige ser construída a partir de um estrato mais profundo.
43. Reduzir a linguagem à palavra sonora é já uma abstração, que não impediu um estudo amplíssimo e rigoroso, mas cujos limites aparecem à medida que a linguística se afina, sendo preciso afirmar que a fala não consiste só em fonemas, mas também na gesticulação total do corpo, incluindo as leves modificações do tônus muscular dos olhos e das faces, algo que os linguistas reconhecem oficialmente sem levar a sério, quando é preciso aceitar a enérgica fórmula de que falar é gesticular, num sentido mais agudo do que se presume.
44. Alguns povos ocidentais praticam há dois séculos uma disciplina que reduziu e quase suprimiu as gesticulações macroscópicas, como os ingleses, que não falavam tão quietos na Merry England, havendo entre Falstaff e Mr. Eden uma enorme poda de gestos, de valor problemático para a eloquência, mas nos estágios mais elementares a gesticulação aumenta a ponto de muitos primitivos africanos não entenderem um explorador ou missionário que conheça bem sua língua por gesticular pouco, e de haver povos centro-africanos que não conseguem conversar na escuridão total porque, sem se verem, a fala fica amputada da gesticulação.
45. Esses fatos, porém, não são o fundamento último da fórmula de que falar é gesticular.
46. Quando a linguística quis entrar no início do século passado no seguro caminho de uma ciência, estudou o lado mais acessível, o funcionamento do aparelho bucal, a fonética, nome inadequado porque estuda não os sons, mas os movimentos articulatórios, daí as classificações em labiais e dentais, método de eficácia exemplar, mas secundário, pois contempla a linguagem a partir de quem fala e não de quem ouve, quando a palavra só é palavra no ouvido de quem escuta, e quem pronuncia se esforça para reproduzir um som ouvido antes, de modo que na língua feita o ouvir é primário e a língua é antes de tudo um fato acústico, razão do acerto do príncipe Trubetzkoy ao estudar há uns trinta e cinco anos os sons enquanto sons e a parte sonora que torna cada fonema diferencial e eficaz, chamando a esse estudo, agora com nome adequado, fonologia.
47. Esse ponto de vista é primário em relação ao da fonética, mas resta ainda um caráter mais radical, pois os sons fixados na língua feita tiveram de ser pronunciados pela primeira vez, de modo que a pronúncia volta a ser primária, mas não como imitação de um som preexistente, e sim sem modelo sonoro, não adaptativa, e como cada língua tem um sistema peculiar de fonemas, supõe-se por trás dele um sistema peculiar de movimentos articulatórios espontâneos e não voluntários nem imitativos, isto é, movimentos expressivos ou gestos, opostos aos que buscam uma finalidade.
48. Isso leva a suspeitar que os sons da linguagem surgiram da gesticulação interna do aparelho bucal, predominando em cada povo uma preferência involuntária por certos movimentos articulatórios que exprimem seus caracteres íntimos mais frequentes, e como essa gesticulação se acompanha dos gestos do resto do corpo, o sistema sonoro de cada língua representaria em projeção a alma de um povo, como sugerem os linguistas ao aconselhar uma atitude corporal para aprender um idioma, no inglês avançar o queixo, cerrar quase os dentes e imobilizar os lábios, de onde a série de leves miados displicentes dessa língua, e no francês projetar o corpo para os lábios, avançá-los como para beijar e fazê-los deslizar um sobre o outro, gesto simbólico da satisfação de si do francês médio, cuja variante seria a nasalização que os americanos impuseram ao inglês, modo de sentir-se mais energicamente ouvindo-se por dentro, cuja origem o inglês Leopold Stein, em The Infancy of Speech and the Speech of Infancy, atribui audaciosamente ao Pithecanthropus.
49. A linguagem fica assim incluída, por sua raiz, a pronúncia, no repertório ou sistema de gestos do homem, que só em mínima parte é pessoal, pois quase todos os gestos provêm da sociedade e se fazem porque a gente os faz, tanto que ver alguém gesticular basta para saber a que povo pertence, de modo que a gesticulação é um conjunto de usos sujeito às mesmas pressões, vigências e leis gerais de uso, desuso e abuso, em que cada sociedade vive seu caráter mais visível, e cada povo sente um choque diante da gesticulação peculiar do outro, que muitas vezes se consolida em indomável antipatia e repulsa, contribuindo coisa aparentemente tão ínfima mais do que se reconhece para a distância e a hostilidade entre os povos.
