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Filosofia em construção

HARMAN, Graham (ORG.). Quentin Meillassoux: philosophy in the making. Edinburgh, [United Kingdom]: Edinburgh University Press, 2011.

  • Introdução
  • 1. Depois da finitude
  • 2. Os artigos em inglês
  • 3. A inexistência divina
  • 4. Reflexões sobre a filosofia não euclidiana de Meillassoux
  • 5. Entrevista com Quentin Meillassoux (agosto de 2010)
  • Apêndice: Excertos de A inexistência divina

Introdução

1 Introdução

1. Trata-se do primeiro estudo extenso da filosofia de Quentin Meillassoux, pensador francês emergente do maior interesse, nascido em Paris em 1967, filho do antropólogo Claude Meillassoux, célebre entre os africanistas, formado na École Normale Supérieure da rue d'Ulm, onde leciona há mais de uma década, e autor de Après la finitude, publicado oficialmente no início de 2006, livro que rapidamente incendiou os círculos anglófonos de filosofia continental, a ponto de Peter Hallward afirmar que, desde Estrutura, signo e jogo de Derrida, em 1966, nenhum novo filósofo francês tivera impacto tão imediato no mundo anglófono e que Depois da finitude logo adquiriu algo próximo de um status de culto entre leitores que partilham sua falta de reverência pelo modo como as coisas são.

2. Entre os mestres de Meillassoux destaca-se Alain Badiou, cujo prefácio a Depois da finitude afirma com confiança impressionante que o livro abre um novo caminho na história da filosofia, contornando a distinção kantiana entre dogmatismo, ceticismo e crítica, e o apresenta como fragmento de um empreendimento filosófico maior, enquanto Žižek o considera o filósofo que melhor abordou o estatuto atual do materialismo, e embora a neutralidade de ambos possa ser questionada por compartilharem pontos com Meillassoux, ele impressionou também pensadores de outra orientação, como Bruno Latour, que, após recebê-lo num salão, o descreveu como uma força da natureza, quieto e amável, falando três horas sem parar diante de um público encantado e totalmente não convencido.

3. Além dessas consagrações, o maior impacto de Meillassoux se deu entre os jovens, pois Depois da finitude tornou-se o monumento central das tendências mais recentes da filosofia continental anglófona, catalisando em menos de um ano o movimento do Realismo Especulativo e uma vasta produção em blogs, e o autor, apesar da clareza de sua escrita e da cordialidade como colega, tornou-se figura intelectual misteriosa pelos rumores sobre o enorme sistema inédito A inexistência divina, sem mistério algum, porém, em torno de seu termo polêmico central, correlacionismo, já incorporado ao léxico filosófico para designar o pano de fundo ontológico dominante da filosofia continental do último século, que pretende situar-se além da disputa entre realismo e idealismo, supondo que não se pode pensar nem o humano sem o mundo nem o mundo sem o humano, mas apenas uma correlação primordial entre ambos, e que, apesar de incapaz de pensar algo fora dessa correlação, nega ser idealista alegando que os humanos estão sempre já imersos num mundo.

4. As raízes do correlacionismo estão na filosofia crítica de Kant, publicada nas décadas de 1780 e 1790 e ainda horizonte da maior parte da filosofia em 2010, cuja primeira implicação maior é a finitude do conhecimento humano, que o título Depois da finitude abandona abertamente, pois, se para Kant não se conhecem as coisas em si e só se reflete sobre as condições transcendentais do acesso ao mundo, espaço, tempo e as doze categorias, Meillassoux procura mostrar que o conhecimento absoluto é possível, contra Kant e seus herdeiros correlacionistas, como Husserl e Heidegger.

5. A segunda implicação da posição kantiana, plenamente aceita por Meillassoux, é a crítica da metafísica dogmática, que pretende pronunciar-se sobre o mundo tal como é sem criticar previamente a capacidade de conhecê-lo, e o argumento correlacionista típico, segundo o qual pensar algo além do pensamento é contraditório por convertê-lo em pensamento, parece a Meillassoux, único entre os realistas especulativos originais, inicialmente inexpugnável e ponto de partida de toda filosofia rigorosa, de modo que não se pode dar um salto pré-kantiano para um exterior descrito dogmaticamente, mas é preciso radicalizar a correlação por dentro, num trabalho interno em que a relação humana com o mundo mantém prioridade filosófica sobre as relações entre objetos inanimados e o sujeito cognoscente é algo especial, irredutível a uma diferença de grau como em Leibniz, Whitehead e Deleuze, sem que Meillassoux siga o caminho hegeliano de absolutizar a correlação, mas abrindo uma brecha entre Kant e Hegel com um correlacionismo forte, distinto do idealismo absoluto, que ele radicaliza em sua posição nova, o materialismo especulativo.

6. Em ordem inversa, Kant sustenta que a relação entre humano e mundo está no centro da filosofia, já que não se pode pensar algo sem pensá-lo, e que todo conhecimento é finito e incapaz de apreender a realidade em si, e Meillassoux rejeita a segunda tese e afirma a primeira, ao passo que a Ontologia Orientada a Objetos faz o oposto, rejeitando a centralidade da relação entre humano e mundo e afirmando a finitude, pois até os objetos inanimados não se apreendem uns aos outros tal como são em si e a finitude não é um espectro local que assombra o sujeito humano, mas traço estrutural de toda relação, inclusive não humana, contraponto crítico concentrado no capítulo 4, enquanto o restante adota a voz de um defensor desse pensador notável que já galvanizou toda uma geração de admiradores e detratores.

7. O subtítulo Filosofia em construção indica que não se pode escrever sobre Meillassoux como sobre clássicos falecidos ou pensadores vivos consagrados, já que ninguém sabe que livros ele publicará nas próximas décadas, conceito tomado de Latour, que em Ciência em ação distingue a ciência pronta, feita de fatos estabelecidos que se tornam caixas-pretas nunca abertas e ocultam uma história e uma organização intrincadas, da ciência em construção, cuja caixa-preta só se abre deslocando-se até o tema controverso em que cientistas e engenheiros trabalham, e no caso de Meillassoux a caixa-preta está aberta por nunca ter sido fechada, já que não há obra completa do filósofo de quarenta e três anos, situada em outubro de 2010 entre Depois da finitude e A inexistência divina, o que torna inédito o estudo aprofundado de um jovem filósofo em plena emergência e abre a possibilidade intrigante e alarmante de que o livro influa na forma final de sua obra, pois, ao contrário de Nietzsche ou Tomás de Aquino, Meillassoux poderá lê-lo e contestá-lo como qualquer outro leitor.

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