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kolakowski:2004:socrates
Sócrates
KOLAKOWSKI, Leszek. Why is there something rather than nothing?: 23 questions from great philosophers. Translated by Agnieszka Kołakowska. London: Penguin Books, 2007.
- Sócrates é o primeiro grande filósofo desta série, formando ele e Jesus os dois grandes pilares da cultura europeia sem terem escrito uma única palavra, conhecendo-os apenas por fontes secundárias, sobretudo os diálogos de Platão, sem que seja possível determinar com segurança quanto pertence ao Sócrates histórico e quanto é invenção platônica, debate no qual não cabe aqui adentrar.
- Sócrates foi talvez o maior arquiteto da cultura europeia, reconhecido como tal mesmo por quem não compartilha suas ideias filosóficas, sendo sua grandeza devida menos a alguma doutrina específica que ao seu modo de buscar a verdade.
- Interessado na juventude pelo estudo da natureza, Sócrates depois o abandonou, decidindo que o objeto próprio de investigação não era a realidade física, sempre mutável e perecível, mas o imutável, ou seja, as ideias, sobretudo as ideias morais fundamentais como justiça, virtude, coragem e igualdade, não se interessando pelo uso cotidiano dessas palavras, mas pelo que tais coisas realmente são em si mesmas, considerando que nossa compreensão dessas ideias precede o conhecimento derivado da observação, antecipando assim a teoria platônica das formas, embora, segundo observa Aristóteles, sem atribuir a essas ideias existência independente.
- Descobrem-se essas verdades por meio de questionamento incessante e implacável, submetendo Sócrates seus interlocutores a interrogatórios que os forçavam a aprofundar cada vez mais suas respostas, tomando forma seu pensamento nesse diálogo constante em que ele fazia as perguntas e seus interlocutores muitas vezes apenas concordavam, surgindo frequentemente novas questões sem que nada se resolvesse definitivamente.
- Às vezes parece que Sócrates apenas finge não saber a resposta, como sugere sua célebre afirmação de que só sabe que nada sabe, a fim de forçar o interlocutor a alcançar por si mesmo a verdade ou corrigir suas opiniões falsas, desejando ser parteiro como sua mãe, extraindo verdades já ocultamente presentes e prontas para virem à luz; não aspirava à originalidade, mas apenas a apreender a verdade e aprender a servir o bem, pois as verdades que importavam eram sempre verdades sobre a vida boa, tendo vivido de modo ascético conforme seu próprio ensinamento, sem se importar com bens materiais ou prazeres carnais, recusando, ao contrário dos sofistas, cobrar por seu ensino, e demonstrando coragem tanto na guerra quanto nos embates verbais.
- O oráculo de Delfos declarou não haver homem mais sábio que Sócrates, fato que ele mencionou em seu próprio julgamento apesar de saber que isso o prejudicaria, assim como sua afirmação de que Deus o enviara a Atenas como um moscardo a picar um cavalo preguiçoso, mencionando também a voz de seu daimon interior que o afastava do mal, força moral presumivelmente de origem divina, e não sua própria criação.
- Sócrates acreditava poder conduzir seus interlocutores à verdade por meio do questionamento porque considerava que a verdade já habita em nós, ainda que muitas vezes desconhecida, acompanhando-nos desde encarnações anteriores, de modo que aprender é, na verdade, recordar o que já sabíamos e esquecemos, sendo pela razão que podemos conhecer tudo o que importa e distinguir o bem do mal, já que bem e mal não são convenção, acordo nem mesmo decreto divino: o sagrado, dizia Sócrates, não é sagrado por ser amado pelos deuses, mas antes os deuses o amam porque ele já é sagrado em si mesmo, tema que persistiu na filosofia moderna com Leibniz e Kant.
- Saber distinguir o bem do mal é crucial na vida, mas não menos crucial na vida após a morte, pois nossas almas permanecem intactas após a morte, sem se dispersarem nos elementos, sendo os bons felizes na companhia dos deuses e os maus condenados a vagar como espectros até finalmente reencarnarem em seres inferiores.
- Por amar a razão e acreditar que toda verdade só se alcança por esforço racional sustentado, as acusações contra Sócrates talvez não fossem totalmente infundadas: acusado de desrespeitar os deuses de Atenas e corromper a juventude, era verdade que buscava a verdade pela razão, e não pela tradição, incentivando o questionamento incessante entre os jovens, submetendo tudo à razão sem reconhecer outra autoridade; ainda assim, respeitava a lei a ponto de recusar fugir da prisão, preferindo obedecê-la mesmo sabendo-se injustamente condenado, até o custo da própria vida.
- Parece razoável supor que quem considera a tradição digna de veneração incondicional, apenas por ter sido transmitida, também considerará justa a condenação de Sócrates pelo tribunal ateniense.
- Foi precisamente por Sócrates venerar a razão, identificá-la com a virtude, e a virtude com a felicidade e o florescimento humano genuíno, que Nietzsche o odiava, sustentando que os grandes espíritos, eleitos do destino, seguem o instinto, e que a razão fria e autoconsciente de Sócrates, hostil ao instinto, seria sinal de decadência, vendo nele, e em Platão, sintoma do declínio da antiga cultura aristocrática, chegando a especular que Sócrates talvez nem fosse grego, dada sua feiura, associada por Nietzsche à degenerescência típica dos híbridos, segundo o antigo provérbio “rosto monstruoso, alma monstruosa”; assim, o melhor dos homens, punido com a morte por seu amor à razão, foi acusado de ser fonte de decadência espiritual.
- Surge daí uma questão a partir do culto socrático da razão: Sócrates sustenta ser impossível fazer o mal voluntariamente sabendo que é mal, decorrendo todo mal da ignorância, de modo que quem conhece o bem necessariamente o pratica, tese que hoje parece implausível, pois tendemos a pensar que fazemos o mal dominados pela paixão, ódio, inveja, ganância, desejo, sabendo o que é bom mas sucumbindo mesmo assim, como reconhece Ovídio ao dizer que vê e aprova o melhor mas segue o pior, ou São Paulo ao lamentar não fazer o bem que quer, mas o mal que não quer.
- Vale, contudo, deter-se e considerar se Sócrates não teria afinal razão: talvez o mal que praticamos tenha raízes na ignorância, sendo nossa débil razão simplesmente incapaz de distinguir bem e mal; e se assim fosse, seguir-se-ia que somos sempre inculpáveis, façamos o que fizermos?
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