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kolakowski:1999:violencia

Violência

KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.

  • A violência integra a cultura, não a natureza, pois só atribuímos esse conceito aos seres humanos, já que apenas eles podem praticá-la ou sofrê-la, consistindo no uso da força ou da ameaça de força para condicionar comportamentos, impedir ações ou simplesmente causar dano.
  • A maioria distingue entre o uso justificado e o injustificado da força, reconhecendo às instituições estatais, como a polícia e os tribunais, legitimidade para empregá-la na prevenção ou punição de crimes, embora existam pessoas que condenam toda forma de violência, inclusive estatal, apelando ao Sermão da Montanha, no qual Jesus recomendou não resistir ao mal e oferecer a outra face; tal recomendação, porém, dirigia-se apenas ao comportamento individual diante da violência alheia, demonstrado pelo próprio martírio de Jesus, sem constituir doutrina política, já que Ele mesmo recorreu à violência ao expulsar os cambistas do templo.
  • A violência tem sido parte inerradicável da história humana desde seus primórdios, assim como a guerra, forma organizada de violência coletiva, o que não implica considerá-la um bem, ainda que muitos a tenham visto como oportunidade para cultivar virtudes viris como coragem e espírito de sacrifício, argumento que pressupõe não apenas que sempre houve guerras, mas que sempre haverá.
  • Sendo razoável supor que a violência continuará presente sob diversas formas, é provável que as guerras persistam, alimentadas por antigas rivalidades tribais e por conflitos genuínos de acesso a água, terras ou território diante do adensamento populacional, ainda que a glorificação da guerra por si mesma pareça hoje incompreensível à maioria dos que viveram os horrores da Segunda Guerra, restando tal exaltação praticamente restrita a pensadores anteriores como Proudhon, Sorel ou Jünger, referidos à Primeira Guerra.
  • Hoje raramente se louva a guerra por si mesma, e é significativo que, entre as inúmeras guerras ocorridas após a Primeira Guerra Mundial, nenhuma tenha sido travada entre países democráticos, pois a guerra nasce da tirania; as democracias, apesar de seus próprios pecados imperialistas, resolveram seus conflitos mútuos por negociação e compromisso, ainda que recorrendo a chantagem e engano, sem jamais recorrer ao massacre generalizado, o que explica nossa preferência estereotipada por Atenas em detrimento de Esparta, já que nossa cultura provém daquela, educada em poesia, filosofia e arte, e não desta, voltada às habilidades militares, sem que isso torne a violência menos inevitável ou mais que uma necessidade lamentável.
  • Distinguir teoricamente entre violência justificada e injustificada, ou entre guerra defensiva e ofensiva, parece simples, mas raramente o é na prática, pois nenhum país se autodenomina agressor, mesmo quando sua agressão tem base ideológica, como no caso da Alemanha nazista ou da União Soviética; em alguns casos o agressor é facilmente identificável, como a Alemanha em 1939, o Japão em 1941, a União Soviética em 1939 e 1956, e a Coreia do Norte em 1950, mas em muitos outros determinar “quem começou” é tão difícil quanto apurar responsabilidades numa briga infantil.
  • A distinção entre violência justificada e injustificada, embora clara em casos particulares, é difícil de definir em termos gerais, como mostram o castigo corporal infantil, considerado violência desnecessária, em contraste com as restrições físicas destinadas a proteger crianças pequenas, e a questão da doutrinação, inevitável na transmissão cultural, cuja distinção entre boa e má forma dependeria de nossa própria visão de mundo, o que tornaria a definição de violência arbitrária.
  • A coerção não física em geral também suscita dúvidas quanto a ser chamada de “violência moral”: a chantagem constitui claramente violência, enquanto a greve de fome apresenta caso mais ambíguo, sendo provavelmente justificável quando protesta contra condições desumanas de prisão, mas configurando forma de violência quando busca extrair concessões políticas de um governo democrático.
  • Distinguir violência justificada de injustificada exige avaliar os fins a que serve: quando o fim é inquestionavelmente legítimo e não há outro meio de alcançá-lo, a violência pode ser justificada, ainda que nem sempre prudente, como no caso da tirania, que só pode ser combatida pela força, tendo até teólogos cristãos justificado o tiranicídio; observou-se também luta bem-sucedida e não violenta em países totalitários, mas apenas quando o totalitarismo já se encontrava enfraquecido, pois quando forte e impune, a resistência não violenta não teria chance de êxito diante da capacidade repressiva do regime.
  • O fim que justifica o recurso à violência deve ser específico, bem delimitado e claramente definido, como a independência de um país subjugado, a morte de um déspota ou a punição de um criminoso; o movimento jovem dos anos sessenta, que recorreu à violência “revolucionária” para construir uma “sociedade alternativa” de contornos indefinidos, carecia de qualquer justificativa, assim como seus mentores intelectuais, Sartre e Marcuse, felizmente malsucedidos em seus delírios tirânicos, ao passo que, no mesmo período, opositores dos regimes comunistas lutavam apenas com a palavra como arma, obtendo êxito ao transformar gradualmente as mentalidades e expor as mentiras do regime, caso em que o uso de alguma violência teria sido justificável, embora provavelmente ineficaz.
  • É fácil desejar um mundo sem violência, mas ninguém apresentou ainda uma fórmula sensata para alcançá-lo; condenar toda forma de violência de modo absoluto e indiscriminado equivale a condenar a própria vida, ao passo que aspirar a um mundo em que a violência se dirija apenas contra o crime, a escravidão, a agressão e a tirania não constitui aspiração irracional, mesmo havendo boas razões para duvidar de sua plena realização.
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