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kolakowski:1972:preliminares
1 Preliminares
KOLAKOWSKI, Leszek. A Presença do mito. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981. (original 1972)
- O trabalho da mente analítica que produz a ciência é o órgão, na cultura humana, que domestica o ambiente físico, sendo a ciência extensão do núcleo tecnológico da civilização; em sentido científico, “verdadeiro” significa aquilo com chance de emprego em procedimentos tecnológicos eficazes, não dependendo sempre os critérios de decisão científica de possibilidades práticas imediatas, mas sendo construídos de modo geral a excluir do campo do conhecimento válido tudo que não tenha chance de aplicação tecnológica, estando o pensamento popular, o pensamento científico e a linguagem correlacionados, na estratégia evolutiva global, com a sobrevivência física da espécie.
- As questões e crenças metafísicas são tecnologicamente estéreis e, por isso, não integram o esforço analítico nem a ciência, constituindo, como órgão da cultura, extensão do núcleo mítico, dizendo respeito às condições absolutamente primordiais do domínio da experiência, à qualidade do Ser como um todo, distinto do objeto, e à necessidade dos eventos, visando revelar a relatividade do mundo da experiência e desvendar uma realidade incondicionada graças à qual a realidade condicionada se torna inteligível.
- As questões e crenças metafísicas revelam um aspecto da existência humana não revelado pelas questões científicas, aquele que se refere intencionalmente a uma realidade incondicionada e não empírica; a presença dessa intenção não garante a existência de seus referentes, sendo apenas evidência de uma necessidade viva na cultura de que aquilo a que a intenção se refere esteja presente, presença que não pode, em princípio, ser objeto de prova, pois a capacidade de provar é ela mesma um poder da mente analítica, orientada tecnologicamente, que não se estende além de suas tarefas próprias, decorrendo a ideia de prova introduzida na metafísica de uma confusão entre duas fontes distintas de energia ativas na relação consciente do homem com o mundo: a tecnológica e a mítica.
- Tentemos descrever a necessidade que gera respostas a questões últimas e metafísicas, incapazes de conversão em questões científicas, considerando antes as circunstâncias visíveis na superfície da cultura, das quais as pessoas geralmente têm consciência, do que as fontes dessa necessidade nas condições inadequadamente concebidas e obscuras ligadas à situação permanente da consciência humana no mundo.
- Primeiro, como necessidade de tornar compreensíveis as realidades empíricas, apreendendo o mundo da experiência como inteligível ao relacioná-lo à realidade incondicionada que vincula teleologicamente os fenômenos, ordem propositada que não pode ser deduzida do material experimental legitimamente considerado pelo pensamento científico, representando sua afirmação uma interpretação compreensiva desses dados; o ponto de vista que nega o direito a tal interpretação pode significar recusa das questões últimas, paralisia ou embotamento do aspecto da existência humana intencionalmente voltado à transcendência, ou aceitação consciente do absurdo do mundo, violando inutilmente sua própria instrumentalidade tecnológica qualquer linguagem que pretenda alcançar diretamente a transcendência, alcançada esta, em vez disso, nos mitos que conferem sentido às realidades empíricas e às atividades práticas por meio da relativização; permanece sempre presente na cultura uma organização mítica do mundo, não perdendo força argumentativa, para a consciência cujo estrato mitopoético foi despertado, a objeção de que tal organização não se torna verdadeira apenas por ser permanente, pois aqui não se trata de fazer corresponder um juízo a uma situação que descreve, mas de fazer corresponder uma necessidade a uma área que a satisfaz, degenerando o mito ao converter-se em doutrina que exige e busca prova, sendo tentativas de imitar o conhecimento a forma que provoca a degeneração da fé, não podendo a experiência de correlacionar uma necessidade com a área do Ser que a satisfaz ser questionada como inválida do ponto de vista do conhecimento científico, desde que diferenciada dos procedimentos de justificação.
- Segundo, como necessidade de fé na permanência dos valores humanos, personalizados a partir do momento em que a evolução natural alcança a existência pessoal; onde a personalidade desaparece totalmente, os valores a ela ligados confinam-se estritamente a essa existência, enquanto, herdados de modo material e objetivo por grupos humanos contínuos, gozam de segunda existência paralela enquanto tais grupos perdurarem, tendendo, portanto, a totalidade dos valores produzidos por indivíduos ao desaparecimento último, dissolvendo-se totalmente nossos esforços, mesmo quando estendidos materialmente além da existência individual, na desintegração da existência física, já que nem a humanidade nem a terra são eternas; assim, a crença na sobrevivência pessoal não é postulado, por não admitir justificação concebível, mas modo de afirmar valores pessoais, tendo tal afirmação, na cultura, a mesma validade de outros atos mitopoéticos, desde que produto de necessidade real.
- Terceiro, como desejo de ver o mundo como contínuo, apesar de sua sujeição a mutações e descontinuidades em pontos críticos, não conseguindo o conhecimento empírico das propriedades dos elementos deduzir as propriedades dos complexos nesses pontos, sendo necessário estabelecer independentemente que, sob certas condições, propriedades dos elementos revelam novas propriedades dos complexos, ignorando-se como as propriedades do mundo orgânico se incluem na construção da matéria inanimada, ou como as propriedades da inteligência humana se incluem nos atributos da vida, apenas se conjecturando descontinuidades, ou seja, especulando que transições não precisariam ter ocorrido com base apenas nas propriedades do estado anterior; desejamos, portanto, compreender a mutação como ato de escolha que estabelece continuidade, satisfazendo essa necessidade uma transcendência capaz de escolha, sem que sua presença se torne hipótese, já que o pensamento científico não estabelece necessidade alguma para as continuidades, não sendo, portanto, o desejo de continuidade razão que transforma o mito em tese, mas motivação de convicção.
- Ao enumerar essas três formas em que a necessidade do mito aparece na superfície de nossa cultura, tratei-as como três versões do mesmo fenômeno, parecendo de fato haver em todas a mesma motivação comum: o desejo de deter o tempo físico impondo-lhe forma mítica de tempo, permitindo ver na mutabilidade das coisas não apenas mudança, mas acumulação, ou crer que o passado se retém, quanto aos valores, no que perdura, não sendo os fatos meros fatos, mas blocos construtivos de um universo de valores possível de salvar apesar do fluxo irreversível dos acontecimentos; uma crença em ordem propositada oculta no fluxo da experiência permite julgar que naquilo que passa cresce e se preserva algo que não passa, havendo no impermanente crescimento de significado não diretamente percebido, afetando decomposição e destruição apenas a camada visível da existência sem tocar a outra, resistente à decadência; a mesma conquista da temporalidade se dá nos mitos que possibilitam a crença na permanência dos valores pessoais, podendo mutabilidade e aniquilação ser vistas, sob perspectiva mítica, como estágios do crescimento dos próprios valores, e do mesmo modo a crença na continuidade das mudanças, onde saltos mutacionais aparentes são obra de escolha, constitui mero complemento necessário de uma ordem em que o que passou e está passando pode sobreviver quanto à sua camada normativa não empírica, resistindo ao tempo por referência a uma ordem atemporal.
- Mesmo um olhar mais superficial mostra tratar-se sempre do mesmo problema: evitar aceitar um mundo contingente que se esgota a cada ocasião em seu estado impermanente, sendo apenas o que é agora sem referência a mais nada, surgindo apenas neste ponto, quase óbvio, a questão própria sobre as fontes desse desejo, que supostamente nos revelaria a localização do mundo numa construção atemporal, pois o surgimento desse desejo não é em si inteligível e exige esclarecimento nas próprias condições que tornam a cultura possível.
- Todas as razões em que se enraíza a consciência mítica, tanto em sua variante inicial quanto em suas extensões metafísicas, são atos de afirmação de valores, podendo ser fecundas na medida em que satisfazem a necessidade real de controlar o mundo da experiência por meio de interpretação que lhe confere sentido, referindo-o ao Ser incondicionado; mas também as razões últimas que orientam a escolha do que se afirma no pensamento científico são atos de avaliação, criando, ao reconhecermos o valor do aumento das energias que o grupo humano pode mobilizar na exploração do ambiente físico, a condição necessária dos critérios de escolha entre verdade e falsidade, critérios que não são arbitrários em sentido histórico, podendo seu surgimento e triunfo ser historicamente explicados, mas são arbitrários em sentido lógico, não havendo regras de lógica anteriores a esses critérios capazes de justificá-los, sendo antes as próprias regras lógicas produto da presença desses critérios.
- Por isso, a oposição entre uma fé geradora de sentido e uma ciência explicativa possui sentido algo distinto do geralmente considerado pelos positivistas, tendo ambas suas próprias razões enraizadas em valores culturais, não estando nenhuma delas fundada em normas transcendentais de cognição, que, mesmo existindo, não poderiam ser por nós conhecidas; sendo diferentes os valores em que cada uma floresce, será preciso refletir sobre em que sentido sua irreconciliabilidade é acidental, definida em termos civilizacionais, e em que sentido parece irreversível, sendo, contudo, possível remover a forma lógica dessa colisão se não pretendermos fixar o valor do mito como tecnológica, ou seja, cientificamente valioso; é comum, porém, diferenciação falha entre as funções mítica, ritualística e tecnológica desempenhadas por diversos elementos da vida coletiva, cumprindo certas atividades e produtos culturais função dupla ou tripla, sobretudo quando compartilham raiz comum, como certas áreas da arte, tornando mais provável a confusão interpretativa sem, contudo, impossibilitar a diferenciação; sociedades estagnadas incorporaram atividades técnicas à ordem ritualística e mítica, conferindo-lhes aspecto sagrado dentro de ordem mais ampla que lhes dava sentido, permanecendo, contudo, clara nessas sociedades, como observa Malinowski, a diferenciação entre eficácia derivada da ordem sagrada e eficácia técnica; a cultura orientada tecnologicamente empreendeu esforço contrário, desejando incluir o mito na ordem tecnológica, transformando-o em elemento de cognição no mesmo sentido em que a ciência é cognição, buscando justificação para o mito, esforço grotesco de racionalização que criou caricaturas do mito, afetando particularmente a religião cristã, empreendendo-se agora tentativas de deter essa decadência, por muito tempo vista como sinal de progresso, restaurando o mito em sua dignidade primordial, sem certeza alguma de êxito.
- O mito não pode ser alcançado pela persuasão, pertencente a área diversa da comunicação interpessoal, onde vigoram os critérios de resistência tecnológica dos juízos; a filosofia discursiva contribuiu, de tempos em tempos, para o florescimento da consciência mítica, ainda que incapaz de comprimir validamente o conteúdo dos mitos nos recursos da razão analítica, onde geralmente só sobrevive graças à própria passividade, inerte e estéril como capas vazias de livros em prateleiras de biblioteca; assim, a filosofia pode, primeiro, despertar autoconhecimento sobre a importância que as questões últimas assumem na vida humana; segundo, revelar, à luz dessas questões, o absurdo de considerar um mundo relativo como realidade autossuficiente; terceiro, abrir a possibilidade de interpretar o mundo da experiência como mundo condicionado, nada mais podendo fazer além disso, sendo a passagem dessa possibilidade à atualidade conquista da consciência pessoal, iniciando movimento espontâneo de compreensão no momento em que desperta uma partícula adormecida intencionalmente voltada à realidade mítica, movimento que não é prova nem raciocínio, mas o próprio despertar da consciência mítica.
- O senso de continuidade em relação à tradição pode, mas não precisa, ajudar a consciência mítica, havendo sempre razão a ser revelada na permanência dos mitos e na inércia do conservadorismo, transmitindo-se os valores apenas por herança social, graças à irradiação de uma tradição autoritativa, sendo a herança dos mitos a herança dos valores que os mitos impõem, exigindo, portanto, a coerência da convivência humana que a tradição enquanto tal, e não apenas por ter sido considerada boa no passado, irradie autoridade; disso não se segue, porém, que os valores do mito sejam inteiramente imanentes em relação aos valores que o mito transmite e que as sociedades humanas requerem, nem que se deva venerar a tradição sem reservas, permanecendo tradições particulares vivas ou perdendo força e definhando conforme diversas condições, vivendo e morrendo como seres humanos; Jung e Eliade tentaram demonstrar que mitos individuais são particularizações local e historicamente determinadas de um mito comum, formando reservatório arquetípico da consciência mítica que se manifesta apenas em especificações culturalmente designadas, parecendo tais tentativas fazer parte, elas mesmas, de empreendimentos mitopoéticos, sendo difícil imaginar como dotá-las de status de hipótese, merecendo talvez atenção como esforços ecumênicos dentro da própria consciência mítica, mas dificilmente bem-sucedidas como tentativa de tornar a consciência mítica objeto de reflexão puramente científica.
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