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1 Diante do insuportável

JULLIEN, François. Fonder la morale: dialogue de Mencius avec un philosophe des Lumières. Paris: Bernard Grasset, 1995.

1. Um rei duvidava de sua capacidade de fazer o bem de seus súditos, e o sábio, para convencê-lo, lembra uma anedota: estando o rei em sua sala de audiências, viu passar ao pé da escadaria um boi arrastado ao sacrifício e, não suportando o ar amedrontado do animal, semelhante a um inocente levado ao suplício, ordenou soltá-lo, e, quando seus oficiais perguntaram se deveriam renunciar ao sacrifício, respondeu que era impossível e que bastava substituir o boi por um carneiro.

2. Essa anedota basta para provar que o príncipe é capaz de exercer a realeza, embora pareça à primeira vista voltar-se contra ele, acusado de avareza e reconhecendo ele mesmo sua inconsequência, pois o que se passou em sua consciência, e que nem ele nem os outros perceberam, é que ele viu o ar amedrontado do boi e não viu o carneiro, de modo que, sob a inconsequência da conduta, revela-se seu mérito: não suportou ver sofrer nem pôde assistir indiferente à sorte do outro, mesmo animal, reação imediata diante do insuportável que prova sua inclinação virtuosa.

  • Por que preferir um carneiro a um boi, se aquele era tão inocente quanto este?
  • O príncipe foi testemunha pessoal do terror de um, surgido inesperadamente sob seus olhos, sem que pudesse prevenir-se, enquanto a sorte do outro permaneceu para ele uma ideia anônima, abstrata e, por isso, sem efeito.
  • Não atuou no caso do carneiro o face a face da presença, o olhar aberto sobre o terror do outro que depois não pode mais fechar-se.
  • O sacrifício do carneiro não pode perturbar o príncipe, que o arrumou de antemão na ordem das coisas, enquanto ver bastou para comovê-lo e abalar momentaneamente sua lógica interior.

3. A anedota é relatada por Mêncio, filósofo chinês do século IV antes da era comum, que a generaliza afirmando que o homem de bem, tendo visto os animais vivos, não suporta vê-los morrer e, tendo ouvido seus gritos, não suporta comer sua carne, máxima que lembra os patos trazidos pequenos ao tanque e vistos a brincar com prazer, que, mortos um dia pelo cão, ninguém suportaria depenar e cozinhar, o que revela uma demarcação relativa, mas inegável e crucial, pois, desde que se estabeleceu uma conivência com outra existência, mesmo animal, e atuou o face a face de sua presença, mesmo momentânea, não se pode permanecer insensível.

  • Resta saber em nome de que essa demarcação necessária se introduz no seio da experiência.
  • Mêncio observa que o homem de bem mantém à distância o açougue e a cozinha, isto é, os matadouros devem ser afastados.
  • Essa observação, que se tomaria por preconceito elitista, cava oportunamente a diferença.

4. No domínio da moral, tão debatido, o exemplo não é simples ilustração, mas pedra de toque, pois só a experiência, apreendida em sua radicalidade e com fato incontestável, pode triar os argumentos, e por isso Mêncio constrói um caso típico: quem vê uma criança prestes a cair num poço é tomado de violento pavor e precipita-se para salvá-la, não para conquistar a gratidão dos pais, obter elogios de vizinhos e amigos ou evitar má reputação, mas espontaneamente, sem cálculo nem reflexão, situação erigida em paradigma porque expõe uma conduta absolutamente desinteressada, em que o individual é ultrapassado.

  • Nenhum interesse entra em jogo, e o gesto de socorro é incontrolado.
  • Já não se é senhor da própria iniciativa e de seus fins egoístas: é a própria existência que, através de nós, se insurge em favor de outrem.

5. Descobre-se assim, ao vivo e instantaneamente, o que nenhuma razão poderá contestar, como mostram os antigos costumes relatados por Mêncio: gente que outrora não enterrava os pais e jogava seus corpos na vala, ao passar de novo por ali e ver raposas devorando os cadáveres, moscas e vermes saciando-se neles, cobria-se de suor e só ousava olhar de viés, reação que subia do mais fundo de si e não era sentida por causa dos outros, e por isso voltavam com pás e cestos para cobrir os corpos, de modo que os cuidados funerários não são mera convenção, mas revelam um laço de existência a existência que nem a morte desfaz.

  • Segundo Mêncio, experimenta-se inegável contentamento interior quando, para os entregues à grande transformação natural, a terra não toca sua pele.
  • Até na morte não se pode ser indiferente ao que ameaça outrem.

6. Tais exemplos apelam a uma universalidade de princípio, pois para todo homem há algo que ele não suporta que aconteça aos outros, e estender esse sentimento do insuportável ao que ainda suporta que lhes aconteça é o sentimento de humanidade, de modo que, vista da China, a moralidade nada postula, não contém mandamento nem preceito, e consiste apenas nessa extensão da reação do intolerável a tudo o que ainda se tolera diante da aflição humana.

  • Para todo homem há algo, na desgraça alheia, que não o deixa indiferente e suscita sua reação.
  • Essa não-indiferença significa não poder permanecer tranquilo, à vontade, em repouso, diante do que acontece de infeliz aos outros, como já na noção confuciana de desconforto da consciência.
  • Ao mesmo tempo, há muitos outros aspectos da desgraça alheia aos quais cada um permanece indiferente ou nem presta atenção.

7. Do mesmo modo, para todo homem há algo que ele não faz, isto é, não aceitaria fazer, e estender essa consciência do inaceitável ao que ainda continua a fazer de repreensível é a equidade, pois quem não aceitaria abrir um buraco ou pular um muro para roubar o vizinho pode consentir em cortejar seu príncipe contra a retidão, dizendo o que não convém dizer ou calando o que conviria dizer, desonestidade da mesma ordem que o roubo mais descarado, enquanto em quem é capaz de levar ao auge a forma de consciência que o impede de roubar a equidade é inesgotável.

8. A extensão constitutiva da moralidade realiza-se em duas dimensões, em nós mesmos, como desdobramento a toda a experiência do sentimento de insuportável sentido ocasionalmente diante da aflição alheia, e fora de nós, como desdobramento em direção aos outros, do mais próximo ao mais distante, por simples propagação do bom exemplo, a começar pelo soberano, sendo desdobrar, estender e propagar as funções-chave do Mêncio, pois a moralidade é como um fogo que começa a arder ou uma fonte que começa a correr, e por isso a simples reação de insuportável do príncipe diante do boi amedrontado, plenamente desdobrada, bastaria para fazer reinar a paz no mundo.

  • Em nós, a extensão vai também do cuidado que já se tem pelos outros a tudo aquilo de que ainda não se cuida, e do sentimento do inaceitável a tudo o que ainda se aceita fazer de repreensível.
  • Fora de nós, o bom exemplo se propaga por si, do próximo ao distante.
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