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jullien:1993:1.2

1.2 O estatuto absoluto do livro

Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)

1. Retorna-se ao paralelo: se o Yi king pode ser comparado à Bíblia, é sobretudo porque um e outro livro têm por vocação esclarecer o mistério do real, possuindo uma visada absoluta, do Absoluto, uma aposta total.

  • Como sublinha o Grande comentário atribuído a Confúcio, o Clássico da mudança serve para revelar a Via, aquela de onde procedem sem fim as existências e à qual o homem deve se conformar, permitindo aceder à dimensão de espírito, propriamente insondável, que não cessa de animar a realidade.
  • Põe-se então a questão de saber como, na ausência de um Deus que escolhe se fazer conhecer aos homens, se opera essa comunicação com o Invisível e de onde procede aqui a revelação.

2. Viu-se anteriormente que a unidade do Clássico e sua coerência resultavam do simples fato de sua génese ser tida por coincidente com o próprio desenvolvimento da civilização, e ver-se-á igualmente que sua legitimidade para significar o absoluto provém de coincidir perfeitamente com o processo do real, de se enquadrar inteiramente com ele.

  • O teor do livro não é garantido por uma verdade interna, a crer ou a demonstrar, mas por sua capacidade de adequação, que é suposta total.
  • Como celebra uma célebre fórmula do Grande comentário, o Clássico da mudança está à medida do Céu e da Terra, e por isso se acorda universalmente com a Via do Céu e da Terra, isto é, o grande processo do Mundo, ao lhe desposar completamente a lógica interna.
  • Seus dois primeiros hexagramas, com efeito, representando a polaridade de que tudo decorre, comandam o conjunto da realidade, e a partir deles as outras figuras e todos os seus traços vão até o fim de todas as modificações possíveis.
  • Assim, não apenas o Clássico da mudança reproduz, a partir de sua própria estrutura e de modo fiel, todo o ser constitutivo da realidade, mas desdobra também de modo exaustivo, através de voltas e desvios e pelos acessos mais diversos, o inteiro funcionamento, nos termos neoconfucianos ti e yong, permitindo apreender em todo ponto e sempre de modo correto a marcha das coisas.

3. Esse motivo de uma total adequação estabelecida entre o livro e o mundo reencontra-se no fim do mesmo parágrafo sob as imagens associadas do molde e do recinto.

  • O Clássico da mudança imita as transformações engendradas pelo Céu e pela Terra de modo tão semelhante quanto por um molde, e as recolhe também tão completamente e as encerra dentro de seu próprio perímetro.
  • Desse modo esse livro não excede a realidade nem dela deixa nada de lado, recortando-se as fronteiras entre o livro e o real, sendo perfeito o encaixe.
  • Segundo outra fórmula do Grande comentário, o Mestre diz que o Clássico da mudança serve para abrir a existência, completar os negócios e cobrir as vias do mundo inteiro, e isso é tudo.
  • Que ele abre a existência significa, segundo WFZ, que a alternância regulada do yin e do yang, que o Clássico da mudança põe em cena, está na origem de todas as situações como de todos os existentes, e que se diga, de modo paralelo, que ele completa os negócios implica que o Clássico não se limita a nos desvelar a lógica inerente ao real, mas possui também utilidade prática, permitindo dirigir o curso das coisas e fazê-lo chegar a bom termo.
  • O Clássico é contemporâneo dos primeiros começos, seja dos fenómenos, seja das condutas, e acompanha também estes até seu completo desdobramento, cobrindo todos os caminhos de seu ponto de partida até seu fim extremo.

4. Mas não importa apenas que o livro se estenda a todo o real, convindo igualmente que não o transborde, pois o quadro, no sentido em que aqui se diz que o livro se enquadra com o mundo, ao mesmo tempo que abre um espaço, serve para delimitá-lo.

  • Esse discreto e isso é tudo, com que se concluía a citação anterior, seria também rico de ensinamento, pois a ele cabe, segundo o comentador, marcar uma fronteira a não ser transposta pelo desdobramento da glosa e das interpretações, diante do perigo de uma proliferação do comentário que evocávamos no começo.
  • Assim que o sistema veio à luz, diz WFZ, ele se prestou à multiplicação das teorias como também a um excesso de interpretação na ordem do fasto e do nefasto, e é contra esse transbordamento que o rei Wen teria reagido compondo as primeiras fórmulas de juízo.
  • Ele visava assim recentrar o livro sobre o que constitui o fundamento do real, o Céu, e sobre o modo como o homem nele se enraíza, desejando retirar ao mesmo tempo todas as excrescências a que o uso da combinatória, desviando-se, pudera dar lugar.
  • Posteriormente ainda o livro deu lugar a muitos excessos, que WFZ enumera com o maior desdém: ora há abuso na interpretação das concordâncias, servindo o livro para presságios, ora serve para imaginar toda sorte de deduções indevidas, como no Cantongqi, ora ainda serve de ornamento às teorias mais falaciosas, como as dos budistas, quando Li Tongxuan comenta o sutra Huayan.
  • E da especulação, que nos faz sair da experiência e nos arrasta fora do real, há apenas um passo para a mais tola superstição, que os geomantes e os dizedores de boa aventura depressa transposeram, pilhando o livro a quem melhor o fizesse.

5. Mas em nome de quê se poderá deter a deriva e decidir entre o que corresponde ao ensinamento do livro, porque corresponde ao real, e o que o ultrapassa e por aí o falsifica?

  • A única maneira de bem estabelecer essa demarcação necessária é retornar à articulação de base que instauram, à cabeça do livro, os dois primeiros hexagramas, um yang e outro yin, o Céu e a Terra.
  • Pois se o Clássico da mudança é capaz de dar conta, por princípio, da totalidade do real, é que dá conta dela a partir do único jogo dessa polaridade, e desde então todas as interpretações que não se fundam nela, ou não se limitam a ela, devem ser rejeitadas.
  • Segundo uma fórmula do Grande comentário, essas duas primeiras figuras constituem todo o interior do livro, bastando que estejam em lugar para que o livro esteja estabelecido, como basta que sejam arruinadas para que não se possa mais perceber em que consiste esse livro.
  • Ou ainda esses dois hexagramas formam a porta de dois batentes por onde tudo passa, não podendo a extrema complexidade do real, que a série das figuras e dos traços assume, escapar a esse quadro inicial.
  • Tal sentido da complexidade seria aliás levado tanto mais longe no Clássico da mudança quanto sua primeira explicitação veio à luz numa época de grande declínio, a do rei Wen, no fim dos Shang, e é apenas nas épocas de declínio, observa WFZ, que se podem encarar todas as possibilidades de evolução e se assiste à concomitância dos aspectos mais diversos, menos esperados também, e até seu entrelaçamento paradoxal, ao passo que as épocas de ordem nos mostram, ao contrário, apenas a simplicidade de um curso normal e regular.
  • Permanece que o rei Wen soube reconduzir toda essa extrema complicação das coisas, e nisso está seu mérito, à interação de base, a do yin e do yang, e, por tê-la reduzido a esse princípio, tornou-a inteligível.

6. Essa capacidade de ir do mais simples ao mais complexo, a que se deve a amplitude e a extensão do livro, celebradas pelo Grande comentário, reencontra-se no nível de sua expressão.

  • Ela transparece em particular na relação complementar do próximo e do distante, quando o Grande comentário diz que seu propósito se estende ao longe sem encontrar obstáculo e se estende de perto ao ponto que, mesmo em repouso, apreende-se sua retidão.
  • Que seu propósito se estenda ao longe significa, segundo WFZ, que o Clássico é capaz de desdobrar até o fim, para dar conta delas, as inumeráveis modificações do real, e que se estenda de perto significa, em sentido inverso, que se pode fazer a experiência dele por retorno sobre si, na vida de todos os dias.
  • A compreensão do livro é, portanto, ao mesmo tempo a mais extensiva e a mais íntima, pois de um lado a ausência de obstáculo se entende do ponto de vista do desenvolvimento da razão das coisas e, de outro, pode-se verificar por si mesmo, sem precisar se pôr em movimento, a justeza desses princípios constantes.
  • Assim, o caráter absolutamente completo do sistema dos hexagramas, que se viu abraçar a totalidade do real, vale também do ponto de vista da manifestação do sentido.
  • Outra fórmula do Grande comentário resume essa plenitude procurando cingir o texto sob seus diferentes aspectos, dizendo que as denominações que ele utiliza são restritas, mas seu desenvolvimento analógico é grande, seu alcance se estende ao longe, seu propósito é ordenado, e as palavras, ao mesmo tempo que são desviadas, atingem o centro, e as coisas ao mesmo tempo são estendidas e são ocultas.
  • São outras tantas tensões diversas, mas concorrentes, que exploram o texto em todos os sentidos e lhe conferem todas as dimensões.
  • A partir da oposição do particular e do geral, a estreiteza das denominações remetendo segundo WFZ aos nomes dos hexagramas assim como das realidades ou situações evocadas nos juízos pronunciados a seu respeito, a primeira fórmula estabelece o princípio de uma compreensão analógica e dá conta do alcance simbólico da expressão, de modo que o terceiro hexagrama, Zhun, designa a vegetação que sai da terra, mas se pode desdobrar seu motivo até fazê-lo significar o estabelecimento dos príncipes feudatários.
  • Ora, por essencial que seja, esse valor simbólico não é o único, dobrando-se sobretudo de uma visada estratégica, pois esse texto procede de modo indireto e desviado para melhor atingir o fim, encarando ao mesmo tempo todos os aspectos das coisas de modo exaustivo e reconduzindo-os ao centro de que emanam.
  • A densidade da escrita deve-se a que ela não cessa de cruzar todos esses procedimentos, mas sem os confundir, fazendo jogar eficazmente os contrários e atingindo um através do outro.
  • O que se verifica ainda a partir dos planos do manifesto e do oculto entre os quais o Clássico não cessa de operar: o da clareza das coisas que ele estende e o do mistério da razão das coisas, que ele quer desvelar.

7. Uma tal relação do manifesto e do oculto, essencial a todo projeto de revelação, remete-nos, de modo ainda mais preciso, ao caso bíblico, pois a Bíblia também se escreveu no encontro desses dois planos, ek phaneron kai krypton, mas a comparação para aí.

  • De um livro a outro, o procedimento seguido pelo trabalho da revelação é conduzido a se inverter, pois na Bíblia, ao mesmo tempo que visa fazer conhecer aos homens os mistérios úteis à sua salvação, Deus cuida de ocultar esses mistérios sob o revestimento de textos mais fáceis de ler, como são os relatos históricos ou as coletâneas de leis.
  • Uma tal criptagem faz, portanto, parte do desígnio divino, e é sob esse véu, excitando nosso desejo, que devemos ir buscar a Verdade.
  • Mas porque não transcreve nenhuma Mensagem e não está carregado de nenhum Querer, o Clássico da mudança procede, quanto a ele, em sentido oposto, pois se a razão das coisas está profundamente enterrada, cabe ao dispositivo que o Clássico da mudança põe em obra elucidá-la.
  • Convém, por isso, considerar esse dispositivo com tanto mais cuidado quanto é de seu único funcionamento que podemos esperar a vinda à luz do mistério da realidade.
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