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gabriel:2013:1

1 Mundo

GABRIEL, Markus. Warum es die Welt nicht gibt. Berlin: Ullstein Verlag, 2013.

O que É Isto, Afinal: o Mundo?

1. Recomeçar exige retomar a pergunta filosófica fundamental sobre o que tudo isso significa, pois, depois de chegarmos a um mundo sem saber de onde viemos nem para onde vamos e de nos habituarmos a ele pela educação, esquecemos em geral de perguntar o que é, afinal, o mundo.

2. As interações, esperanças e desejos da vida costumam fazer sentido, como numa viagem de trem pela Dinamarca em que mensagens, anúncios e o vaivém do condutor são compreensíveis, ao passo que um alienígena gigantesco de substância verde e líquida que embarcasse no mesmo vagão acharia tudo estranho e talvez ininteligível, sobretudo os animais peludos que tocam freneticamente pequenas telas.

3. Os filósofos veem o mundo de modo semelhante ao dos alienígenas e das crianças, como algo sempre novo, desconfiando de juízos arraigados e até das afirmações científicas dos especialistas, seguindo o modelo de Sócrates, que declarava saber que nada sabia.

4. A filosofia ensina a nunca esquecer que as coisas poderiam ser muito diferentes do que parecem e, ao questionar tudo, inclusive a si mesma, examina o pretensamente evidente, atitude que está por trás das grandes conquistas humanas, como a democracia e a descoberta de que a Terra é redonda, embora tenha custado a Anaxágoras a acusação de blasfêmia e a Giordano Bruno a condenação como herege por defender a vida extraterrestre e a infinitude do universo.

5. A questão condutora é saber o que tudo isso significa e se a vida, a história e o conhecimento humanos têm algum sentido ou se somos apenas animais num planeta qualquer, formigas cósmicas ou seres tão estranhos para os alienígenas quanto os alienígenas do filme o são para nós.

6. Para descobrir o que tudo significa é preciso, como sustentava Descartes, pôr em dúvida ao menos uma vez na vida tudo aquilo em que se acreditou e perguntar, como alienígenas ou crianças, onde de fato nos encontramos, pois antes de indagar pelo sentido do todo convém responder o que é o todo.

7. No romance russo O Dedo Mindinho de Buda, Piotr Pustota percebe que Moscou está na Rússia, a Rússia nos continentes, estes na Terra, a Terra na Via Láctea e a Via Láctea no universo, mas não consegue dizer onde está o universo, e o diálogo socrático com Tchapaev mostra que, se o universo estiver na consciência e a consciência num lugar, a pergunta pelo lugar do próprio lugar retorna indefinidamente.

8. Piotr apreende assim o pensamento vertiginoso de que o mundo não existe e de que tudo acontece num grande lugar nenhum, resposta de Pelevin que evoca A História sem Fim de Michael Ende, onde o mundo infantil da Fantasia é ameaçado pelo Nada, razão pela qual a mensagem do livro é cultivar a fantasia e não deixar de sonhar para não sucumbir a uma realidade totalmente desprovida de sentido.

9. A filosofia se ocupa das questões levantadas por romances como esses e por filmes como A Origem, de Christopher Nolan, ou O Mundo por um Fio, de Fassbinder, precursor muito superior de Matrix, mas a questão de saber se a realidade é apenas uma gigantesca ilusão ou um sonho deixou marcas profundas por milênios em toda religião, filosofia, poesia, pintura e ciência.

10. A ciência moderna também põe em dúvida grande parte da realidade experimentada pelos sentidos, desde Galileu, que considerava as cores dependentes das sensações e a realidade composta de objetos materiais matematicamente descritíveis, até a física teórica atual, cujos teóricos das cordas supõem que o espaço-tempo quadridimensional talvez seja um holograma projetado de dimensões superiores.

11. A ideia de que a realidade é diferente do que parece é familiar ao homem moderno desde a escola, quando se descobre que se pode calcular com letras, ou nas viagens que obrigam a rever preconceitos, o que leva a perguntar por que ainda se confia na realidade tal como aparece se tanto conhecimento parece envolto em profunda ignorância.

Você e o Universo

1. Responder racionalmente onde tudo acontece exige primeiro distinguir dois conceitos sobre os quais reina confusão na ciência, na vida cotidiana e na filosofia: mundo e universo.

2. O conceito de universo está hoje carregado de conotações místicas e religiosas, como nos best-sellers esotéricos e em séries como How I Met Your Mother, onde aparece como lugar do destino que quer algo de nós, representando o todo máximo em que nos encontramos e cuja pergunta pelo ser é feita de modo vago.

3. A pergunta pelo sentido da vida e a pergunta pelo ser do todo estão intimamente ligadas, pois se o todo for apenas um monte de partículas subatômicas ou de cordas vibrando em múltiplas dimensões, a vida parece mera ilusão, simples efeito de partículas sem espírito, e o Nada de A História sem Fim já terá tomado conta de nós.

4. Falar do universo já implica uma resposta sobre o ser do todo, geralmente imaginado como uma gigantesca agregação de galáxias e corpos astronômicos brilhando sobre um fundo escuro, à maneira de uma fotografia do telescópio Hubble, onde ocupamos o terceiro planeta de um sistema solar da Via Láctea.

5. Essa descrição da localização é enganosa, pois planetas e galáxias são objetos da astronomia e da física, enquanto salas de estar não são, já que nelas se mobília, come, passa roupa ou vê televisão, e a física trata no máximo dos objetos físicos que nelas estão submetidos a leis naturais.

6. Salas de estar e planetas pertencem a domínios de objetos diferentes, entendidos como domínios que contêm certos tipos de objetos ligados entre si por regras próprias, como a política ou os números inteiros, domínios que nem sempre são espaciais, já que o prefeito de Oberwesel continua prefeito em Londres, embora alguns dependam de regras locais, como os dedos que deixariam de pertencer à mão esquerda se ficassem em Aarhus.

7. Todos os objetos se encontram em domínios de objetos e há muitos domínios, como salas de estar com televisores e manchas de café, galáxias com estrelas e buracos negros, e prefeituras com funcionários, processos, orçamentos e tédio.

8. No cotidiano esses domínios são facilmente distinguíveis, e a visita a uma repartição pública, com suas senhas, esperas e documentos esquecidos, não envolve elétrons nem ligações químicas, pois a análise física de um ponto do escritório já não é análise do escritório, assim como a física não estuda funcionários, clipes ou o conteúdo do Fausto de Goethe, mas apenas os átomos dos livros que o registram.

9. O apartamento não está propriamente no universo, porque o universo é apenas o domínio de objetos das ciências naturais, sobretudo da física, isto é, aquilo que se submete à investigação experimental, e como toda ciência é cega para o que não investiga, o universo é menor que o todo, sendo apenas uma parte dele.

10. Por ser o domínio da física, o universo evoca a fronteira final em que nos perdemos vertiginosamente, sem que se saiba exatamente onde estamos, já que noções como centro e periferia não descrevem bem o espaço-tempo, situação que Schopenhauer descreveu de forma pessimista.

11. Para Schopenhauer, num espaço infinito giram incontáveis esferas luminosas cuja crosta fria foi coberta por um mofo de seres vivos e cognoscentes, condição precária para um ser pensante que flutua sem saber de onde vem nem para onde vai, entre inúmeros seres semelhantes que surgem e perecem num tempo sem início nem fim, onde só a matéria e a recorrência das formas orgânicas permanecem.

12. Situar toda vida e todo sentido no universo transforma o sentido da vida numa ilusão de formigas que se julgam importantes, pois, sob a perspectiva cósmica, a ideia de que a humanidade é especial parece uma fantasia arrogante a serviço da sobrevivência, já que a uma galáxia extinta pouco importa se alguém tomou café da manhã.

13. A falta de lugar para o sentido no universo não decorre de sermos formigas num globo iluminado, mas da confusão entre domínios de objetos totalmente diferentes, pois o universo é também uma perspectiva determinada, resultado de uma complexa operação de pensamento e acessível pelos métodos específicos da ciência moderna, e não o nome evidente do todo.

14. Como no aforismo de Nietzsche segundo o qual em torno do herói tudo se torna tragédia e em torno de Deus talvez um mundo, para o cientista natural tudo se torna universo, mas supor que tudo existe no universo é tomar um domínio de objetos entre outros pelo todo, como se só existissem plantas porque se estuda botânica.

15. Ao situar o apartamento no universo passa-se despercebidamente de um domínio de objetos a outro, e muitos objetos, como a série Stromberg ou A Montanha Mágica de Thomas Mann, não pertencem ao universo, o que o torna uma província ontológica entre outras, sem que esses outros domínios existam fora dele, por trás ou acima das galáxias.

16. Contra a objeção de que todos esses objetos pertencem ao universo por consistirem em matéria, cabe lembrar que mesas de centro sonhadas, notas imaginadas de cem dólares e jantares lembrados não são materiais, pois do contrário bastaria imaginar milhões para enriquecer e recordar um jantar engordaria, de modo que os objetos da memória não existem materialmente nem se encontram no universo.

Materialismo

1. O fisicalismo afirma que tudo o que existe está no universo e pode ser investigado fisicamente, enquanto o materialismo, aqui entendido em duas teses, sustenta que tudo está no universo e que tudo no universo é material ou tem fundamento material, compondo-se de partículas elementares como num gigantesco sistema de Lego, dos átomos de hidrogênio aos pensamentos conscientes, tidos como estados cerebrais.

2. Os materialistas consideram lembranças e imagens tão materiais quanto estados cerebrais, mas, ao admitir que estes se referem a objetos não materiais, como um alienígena viscoso que escreve um livro sobre a inexistência das pessoas, já reconhecem que existe algo não material, pois mesmo que todos os pensamentos fossem materiais versariam sobre coisas que não se julgam materiais.

3. Um segundo problema surge porque, se alguns estados materiais como as fantasias se referem a objetos não materiais, o materialista que pensa que só existem condições materiais não tem como saber se esse próprio pensamento não é uma fantasia e se as condições materiais que pensa são realmente materiais.

4. Comprovar indutiva e experimentalmente que todos os objetos e pensamentos são materiais seria impossível pela enorme quantidade de dados e pelo tempo exigido, de modo que o materialismo, sem poder justificar sua tese, revela-se apenas uma suposição metafísica que aparenta respaldo científico, mas não pode ser provada pelas ciências naturais.

5. O materialismo é, além disso, simplesmente falso, apesar de se recomendar como explicação completa do mundo segundo a qual tudo é material, inclusive os pensamentos, e todo o resto é fantasia.

6. O primeiro problema é o da identificação, pois para reduzir a representação de uma mesa manchada de café às suas partículas é preciso já reconhecer a existência da mesa e da representação, única via para identificar o conjunto certo de partículas, de modo que o materialismo precisa admitir as representações para negá-las em seguida, o que é contraditório.

7. O segundo problema, devastador, é que o próprio materialismo não é material, já que a verdade de uma teoria não pode ser idêntica a um estado neural do materialista, sob pena de todo pensamento ser verdadeiro pelo simples fato de ser pensado, e não se concebe como a verdade de uma grande teoria poderia consistir em partículas elementares.

8. A operação mental que situa tudo no universo, da sala de estar às galáxias, revela-se inconsistente, pois fisicalismo e materialismo são erros crassos que confundem um domínio específico de objetos com o todo, como um cientista que dissesse ao condutor do trem que ele não existe e é apenas uma massa de partículas, o que não o impediria de cobrar a passagem.

“O Mundo É Tudo o que É o Caso”

1. Distinto do universo, o mundo designa no uso cotidiano a Terra, planetas habitáveis ou o mundo de um romance, dos aborígenes ou dos romanos, e tende-se a identificá-lo com a totalidade dos objetos existentes, mas tal totalidade exige uma regra que a mantenha unida, como Wittgenstein assinalou ao definir o mundo como tudo o que é o caso e como a totalidade dos fatos, não das coisas.

2. Num mundo hipotético composto apenas de uma maçã, uma fruteira e o espaço que ocupam, seria tentador identificar o mundo com a totalidade dessas três coisas.

3. Esse mundo, porém, não seria o que é se a maçã fosse maior que a fruteira ou não estivesse dentro dela, de modo que, além das coisas, existem fatos relativos às relações entre elas.

4. Um fato é algo verdadeiro sobre algo e importa ao mundo ao menos tanto quanto as coisas ou objetos, pois um mundo só de coisas sem fatos seria contraditório, e mesmo o nada absoluto conteria o fato de ser um nada, donde se segue que é impossível não haver absolutamente nada, já que deve haver ao menos um fato para que nada mais exista.

5. Não existe mundo sem fatos, pois até a falta de almoço é um fato, e nada nem ninguém, nem mesmo um Deus onipotente, escapa aos fatos, já que seria um fato que ele é Deus e não nada.

6. Um mundo sem coisas, ao contrário, é facilmente concebível, como nos sonhos, onde há apenas objetos sonhados e não coisas espaço-temporais extensas, sendo esta a diferença central entre coisas, sempre concretas e materiais, e objetos, que não o são necessariamente.

7. O mundo é, portanto, ao menos uma totalidade de conexões, não apenas de objetos ou coisas, mas também de fatos, ponto em que a análise de Wittgenstein se encerra por supor uma totalidade de fatos que definiria o mundo.

8. Como existem também domínios de objetos, o mundo pode ser entendido como o domínio dos domínios que abriga todos os domínios de objetos, os quais em parte se excluem e em parte se englobam, como a história da arte, que exclui a dissolução química de obras renascentistas, os números inteiros, que incluem os pares, e a política democrática local, que exclui o partido único mas inclui o clube de boliche.

9. Os fatos não são todos iguais, e o solo dos fatos se divide em domínios de objetos, possuindo uma estrutura subdividida em regiões ou províncias ontológicas.

10. Pode-se objetar que os domínios de objetos seriam apenas domínios de fala sobre salas de estar, partículas, girafas ou a lua, e que nada garante que a própria realidade se divida nessas regiões, sendo a divisão do mundo em domínios talvez mera maneira de falar.

11. A objeção se apoia no fato de que muitos objetos, talvez todos, são compostos de outros, podem ser rearranjados e têm fronteiras difusas, como uma cordilheira cortada por um novo vale, que não se sabe se passa a ser duas ou continua uma.

12. Também se apoia em casos como a garrafa sobre a mesa no ateliê de um artista que se revela uma peça única pintada, ou a água que se decompõe em moléculas, átomos e núcleons, sugerindo que muitos domínios de objetos seriam projeções humanas e que talvez exista apenas uma única totalidade de fatos.

13. Essa reflexão contém pequenos erros e algumas verdades, entre elas a de que às vezes é preciso eliminar domínios de objetos das crenças por meio da redução ontológica, que reconduz um domínio pretensamente objetivo a mero domínio de linguagem determinado por contingências socioeconômicas ou psicológicas, como no caso dos escritos sobre bruxas ou das baleias que não são peixes, exigindo uma teoria do erro que aponte as suposições falsas sistemáticas desse domínio.

14. Realizar uma redução ontológica exige conhecimento científico substancial, natural, histórico ou sociológico, de modo que uma biografia inovadora de Bismarck pode alterar a imagem da política tanto quanto a prova de que a Terra gira em torno do Sol.

Construtivismo

1. Não é possível reduzir ontologicamente todos os domínios de objetos a um só, pois qualquer redução bem fundamentada pressupõe um método científico distinto de outros e, portanto, a existência de vários domínios, sendo a redução de tudo a um único domínio uma ambição excessiva e, no máximo, expressão de preguiça não científica.

2. A humanidade se engana sobre muitas coisas e não pode medir a extensão de sua ignorância, mas disso não se segue que todos os domínios de objetos sejam projeções humanas sobre uma realidade homogênea, ideia escondida numa célebre declaração de Nietzsche.

3. Nietzsche afirma que não há fatos, apenas interpretações, que nenhum fato em si pode ser estabelecido e que até a tese de que tudo é subjetivo é interpretação, pois o sujeito não é dado, mas acrescentado, inventado e projetado por trás do que existe.

4. Grande parte dessa ideia, que ainda hoje tem defensores proeminentes em todas as ciências, é falsa, e o construtivismo consiste justamente na suposição de que não descobrimos nenhum fato em si, mas construímos todos os fatos.

5. O que pode falar a favor do construtivismo é que produzimos convicções científicas por meio de equipamentos, mídias e teorias, montando experimentos, formulando equações, dissecando rãs, detectando partículas em aceleradores, fazendo pesquisas, comparando Goethe e Schiller ou escrevendo a história da legislação social.

6. Toda investigação científica recorre a um registro, isto é, um conjunto de premissas, mídias, métodos e materiais, muitos deles deliberadamente concebidos, como o microscópio pelo qual se observa a bactéria da peste, mas do fato de registrarmos algo de modos diferentes não se segue que o produzimos, inferência equivocada dos construtivistas.

7. Essa suposição é especialmente marcada nas humanidades interpretativas, que lidam com produções culturais e interpretam um poema em registros estruturais, psicanalíticos ou hermenêuticos, mas aparece também quando se concebe a ciência natural como mera construção de modelos do mundo em vez de conhecimento do universo em si, o que é um erro facilmente corrigível.

8. O fato de passageiros embarcarem num trem existe em si, pois aconteceria mesmo sem observadores, assim como Fausto se apaixonaria por Gretchen sem germanistas, Albertine Simonet dialogaria com o impressionismo de Monet sem cursos de literatura comparada e Monet continuaria tendo vivido na mesma Paris de Proust, ao contrário de Elstir, que só existe na imaginação, sendo absurdo interpretar Morte em Veneza como alucinação de Aschenbach sob LSD em Hamburgo.

9. Dentro de romances, histórias e filmes considerados ficção há também fatos e ficções, e a fronteira supostamente estável entre o ficcional e o real é habilmente minada por obras como os falsos documentários The Office e Parks and Recreation ou por A Origem, que brinca com a ideia de que filmes são mundos oníricos visualizados.

10. Todo reconhecimento é reconhecimento de fatos, muitas vezes de fatos em si, e o neuroconstrutivismo, segundo o qual a realidade colorida e quadridimensional seria uma construção cerebral a partir de partículas incolores e cordas vibrantes, é um conto de fadas pós-moderno para quem prefere viver num filme de terror como Videodrome a encarar a vida cotidiana.

11. Para o neuroconstrutivismo quase nada seria verdadeiro, pois se tudo o que se observa pelo cérebro nada tem a ver com a realidade, o mesmo vale para o próprio cérebro observado pelos sentidos, que se revelaria alucinação, de modo que a teoria, tomada ao pé da letra, não existe e é apenas uma simulação sem cérebro, incapaz de ser verdadeira.

12. O erro básico do construtivismo é não reconhecer que conhecer fatos não constitui problema, pois os demais passageiros reconhecem exatamente o mesmo embarque, independentemente de quem o observa ou de como se sente, e esses fatos não são produzidos por alucinação a partir de estímulos brutos.

13. No máximo, alguns processos que levam ao conhecimento são construções, já que sem cérebro e receptores sensoriais não se saberia do embarque dos passageiros, mas ainda que o processo de conhecer envolva construção, isso não prova que não existam fatos.

14. As condições do processo de conhecer devem em geral ser distinguidas das condições do conhecido, pois olhar pela janela é condição para ver o embarque, enquanto o trem parado e as portas abertas são condição para que os passageiros embarquem, que não entram no trem porque são vistos, mas são vistos porque entram, e entram no trem, não na consciência ou no cérebro.

15. O construtivismo às vezes alega que interpretar imagens astronômicas, textos literários ou sonatas é muito mais complexo do que uma cena de plataforma, mas esta também não é simples, pois nenhum outro animal possui os conceitos de trem e passageiro, e o cão que abana o rabo ao ver o dono na plataforma não apreende isso como embarque.

16. Quanto à existência dos fatos, é indiferente se e em que medida podem ser conhecidos, e embora os conceitos de fato e conhecimento estejam ligados de diversas maneiras, nenhuma análise dessa ligação que conclua não haver fatos, apenas interpretações, pode estar correta.

Filósofos e Físicos

1. O mundo, se existir, precisa estar dividido em domínios, pois afirmar que só nós o dividimos seria como dizer que numa biblioteca não há livros, apenas um único texto, e a questão de quais domínios compõem o mundo se responde pela experiência e pela ciência, que às vezes erram, mas frequentemente acertam.

2. O mundo não é a totalidade das coisas nem dos fatos, mas o domínio em que se encontram todos os domínios existentes, o domínio de todos os domínios, na formulação precisa de Heidegger, e afirmar que o mundo não existe equivale a negar a existência desse domínio, deixando lugar para todo tipo de domínios que não são blocos de um domínio maior e abrangente.

3. A história filosófica do conceito de mundo não terminou com Heidegger, que apenas indicou o que se segue dele, e, como importa o conhecimento do mundo e de sua inexistência e não a intenção de Heidegger, agradece-se a ele a percepção de que o mundo é o domínio de todos os domínios e deixa-se o filósofo para trás com um aceno amistoso.

4. O físico britânico Stephen Hawking, muito superestimado como intelectual público, fez recentemente uma declaração que se espera ter sido provocação e não demonstração embaraçosa de ignorância.

5. Hawking afirma que, vivendo pouco e explorando uma pequena parte do universo, os humanos sempre se perguntaram como compreender o mundo, como o universo se comporta, qual a natureza da realidade, de onde tudo veio e se o universo precisou de um criador, questões tradicionalmente filosóficas, mas que a filosofia está morta por não ter acompanhado a física e que os cientistas tornaram-se os portadores da tocha da descoberta.

6. Hawking identifica o mundo, o todo ao qual pertencemos, com o universo, ignorando que a filosofia desde Platão e Aristóteles distingue o universo, domínio de objetos da física, daquilo que os modernos chamam de mundo, e que o universo é uma província ontológica, e se conhecesse a história da filosofia saberia que suas próprias perguntas não se respondem aprendendo mais sobre o universo.

7. A filosofia pode ser criticada por não ter desenvolvido suficientemente o conceito de mundo por ter se deixado intimidar pela ciência natural moderna, como ocorre com Habermas, que adota com modificações a concepção kantiana do mundo como ideia reguladora, um todo pressuposto do qual tudo o que se conhece é um recorte, não sendo coisa nem universo, mas pressuposição formal-pragmática ligada às práticas comunicativas.

8. Para Habermas, uma visão compartilhada da realidade como território intermediário entre as visões de mundo de diferentes línguas é pressuposto necessário de todo diálogo significativo, e o conceito de realidade se liga à ideia reguladora da soma de tudo o que é cognoscível.

9. Habermas fala ainda da totalidade dos objetos, conceito falso de mundo, pois sem fatos não haveria mundo, e contenta-se em reservar à filosofia uma pequena área de análise da linguagem e do discurso, entregando o restante do conhecimento da realidade às ciências naturais e sociais, sem justificar seu conceito de mundo por lhe ser conveniente defender o mundo social como região filosófica.

10. A definição do mundo como soma de tudo o que é cognoscível também falha, porque nem todos os fatos são cognoscíveis para os humanos, como as condições no interior de um buraco negro, que podem conter fatos inacessíveis a qualquer conhecimento inteligível para nós.

11. Outro exemplo são os objetos que se retraem ativamente sempre que observados, como hipotéticos elefantes cor-de-rosa no lado oculto da lua que fugem à velocidade da luz ou se disfarçam de crateras, e muitos intérpretes do princípio da incerteza de Heisenberg entendem certas propriedades das partículas desse modo, já que toda observação e medição é uma intervenção física no ambiente.

12. O conceito de mundo de Habermas é comprovadamente falso, e enquanto Hawking subestima a filosofia por não saber do que ela trata, Habermas é modesto demais e exige demais das ciências naturais, quando a filosofia, que progride e regride como as demais ciências, alcançou um grande avanço ao aprimorar o conceito de mundo, pois não se prova a morte da filosofia ignorando-a, assim como não se mata todo aquele que não se conhece.

13. Os cinco resultados principais desses primeiros capítulos são que o universo é o domínio de objetos da física, que há muitos domínios de objetos, que o universo é um deles e portanto uma província ontológica, que muitos domínios de objetos são também domínios de discurso e alguns são apenas mera conversa, e que o mundo não é a totalidade dos objetos, das coisas ou dos fatos, mas o domínio de todos os domínios.

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