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gaboriau:1963b:3.r.2

3.R.2 Linguagem

GABORIAU, Florent. La nouvelle initiation philosophique. 4 volumes. Paris: Casterman, 1962–1965. Phénoménologie de l'existence. Gravitations II. (1963)

CAPÍTULO II A LINGUAGEM: SISTEMA DE REFERÊNCIAS

1. Abordagens fenomenológicas.

A linguagem é relação. A linguagem é signo.

A linguagem só é uma coisa ao ser a outra: ela só tem significado na medida em que se refere a algo; se não se relaciona com nada, não tem sentido. Sem sentido = sem relação!

Mas costuma-se distinguir entre sinal natural (que se aplica às coisas) e sinal convencional (que seriam as palavras). Ora, se está na natureza da palavra “relatar”, é, portanto, natural que ela seja um sinal — um sinal natural, imune às convenções, pelo menos no que diz respeito ao essencial daquilo que a constitui.

É a esse essencial da linguagem, à dialética dos dialetos, que nos interessamos para questioná-la: qual é a sua origem, no sentido metafísico do termo, qual é a sua fonte, a hipótese (arche)?

2. A dupla hipótese.

Busquemos a lei do ser que preside a esse fato: uma língua é compreendida! O que é necessário para que esse fato exista, como vimos, fenomenologicamente (pois as línguas são o lugar de um significado: percebemos que um estrangeiro quer dizer algo…)?

A. Uma língua é compreendida, pensa-se, quando se compreende a relação que existe entre uma palavra e a coisa.

Mas não há, na verdade, uma relação da palavra (na palavra) com a coisa. Há uma relação do falante que compreende com aquilo que ele compreende (com a coisa que ele compreende. É ele quem é o sujeito modificado quando compreende; e não o termo, quando é compreendido, apesar da forma passiva que dá a impressão contrária).

sujeito ↔ desinformado e, ainda assim, relacionado ↔ à coisa compreendida.

Considere o seguinte esquema:

Pferd, para meu pai, oatniki = signos.

SIGNOS. Se realmente houvesse uma relação entre esses desenhos ou sons e a coisa designada, bastaria ao pesquisador examiná-los com diligência suficiente para descobri-la. Ora, jamais se descobrirá em vatniki (essas 3 sílabas…) uma relação com a realidade que é uma “jaqueta de veludo”.

A relação real só existe no nível do falante, que, por meio dessa palavra, estabelece uma relação — uma primeira relação — “implícita” na noção assim transmitida.

B. Uma segunda relação intervém então — como hipótese real da linguagem. A linguagem não consiste, de fato, em palavras justapostas, mas em palavras sintáticas. Essa “sintaxe” é uma nova ordem, que reúne o que se encontrava, por si só, separado (taxis… tese): mar, calma, Eichmann, santo, criminoso, Hitler, etc.

Mas compreender uma língua não é apenas captar noções por meio de palavras dispersas; é tomar conhecimento do que ela quer dizer: tomar conhecimento dos julgamentos que nela se fazem, das afirmações que nela se pronunciam. As palavras estão organizadas sintaticamente: ou seja, uma relação última apresenta como um único todo o que, no nível nocional, se apresentava como distinto. Um será o real: Hitler-criminoso. Um: mar-calmo. Um: Eichmann-culpado. Etc.

Sendo a linguagem o que é fenomenologicamente — sintática, ou seja, sintética e afirmativa —, só se dá conta desse fato supondo, além de uma primeira referência que vimos ser suficiente para dar sentido à palavra isolada, uma referência posterior que fundamenta as noções —, como tais, distintas e muitas vezes indiferentes —, na realidade que as une de fato ou as separa de fato. Exemplo: Hitler (não é) santo [= Hitler e um santo, são dois]; o mar [está] tempestuoso, ou o mar [está] calmo. A única função do verbo “ser” nessa circunstância é indicar essa união, existencial, de duas noções concebidas separadamente.

A linguagem, tendo como termo de sua relação o real, só se completa efetivamente nessa referência última. Seu valor universal provém da primeira referência: a razão, a noção [valor que a palavra carrega porque o falante a faz carregar] é intercambiável: de um sistema monetário para outro, de um sistema linguístico para outro. E a tradução, assim como a troca, atesta a realidade de um capital nocional acessível a todos, portanto universal. Mas o valor último das ideias não reside na universalidade do comércio possível: ele se “conclui” na existência que as julga e determina; a partir da qual elas se avaliam ou se medem, na afirmação. O último recurso de validade da linguagem não é sua universalidade, mas sua existencialidade fusional.

Não se deve esquecer que essa sintaxe é o resultado de uma sinergia. A relação baseia-se na ação, no ato de julgar, ou seja, de assumir a palavra, de forma definitiva, até o fim. O estudo da linguagem, assim levado até o fim, nos ilumina de maneira inesperada sobre o falante (sobre a ação de emitir um logos, como faz esse animal falante que é o homem).

A respeito da liberdade de expressão, sobre a qual um dia teremos de nos pronunciar, não se deve esquecer que expressar é produzir, e que um certo liberalismo da produção não é menos nocivo nesse domínio do que o dirigismo; não se deve esquecer que expressar pode significar oprimir, se a expressão imposta ao público for de natureza a contrariar seu bem comum; não se deve esquecer que opor-se à expressão da realidade que importa equivale a tiranizar o homem no que ele tem de específico. O homem está constrangido se sua palavra não for livre (condições econômicas, etc.).

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