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3 Discurso

DREYFUS, Hubert L.; RABINOW, Paul; FOUCAULT, Michel. Michel Foucault, beyond structuralism and hermeneutics. 2nd ed ed. Chicago: University of Chicago Press, 1983.

Rumo a uma teoria da prática discursiva

Uma fenomenologia para acabar com todas as fenomenologias

1. As palavras e as coisas mostra de modo convincente que as ciências do homem, como suas precursoras clássicas, não podiam ter uma teoria abrangente dos seres humanos e estão fadadas à desintegração, sem concluir ainda que se deva questionar a própria tentativa de compreender teoricamente o homem, pois, como Kant despertado do sono dogmático para dar à física bases seguras, Foucault quer despertar do sono antropológico para abrir caminho a um estudo bem-sucedido dos seres humanos, empreendimento que tenta livrar-se das últimas coerções antropológicas e revelar como elas se formaram, método já praticado na análise do colapso das ciências do homem e exposto em detalhe, com a teoria do discurso que o sustenta, em A arqueologia do saber.

2. Ao refletir, após uma década de trabalho sobre loucura, medicina e fundamentos das ciências do homem, sobre as poderosas técnicas que desenvolvera, Foucault descobriu um vasto território inexplorado, domínio ainda não analisado, irredutível às interpretações e formalizações e inacessível tanto à hermenêutica, herdeira das ciências do homem que leva o sentido a sério, quanto ao estruturalismo, que o abandona, território de que A arqueologia do saber toma posse fornecendo o equipamento para explorá-lo.

3. Esse território é tão próximo que é muito difícil de encontrar, e Foucault chegou a ele por passos tateantes que refaz pedagogicamente num círculo das formações discursivas aos enunciados e de volta às formações discursivas, passos que convém reordenar como sequência lógica.

4. O tema central da análise do discurso revela-se um tipo de função linguística até então despercebido, o enunciado, que não é enunciação nem proposição, entidade psicológica nem lógica, acontecimento nem forma ideal.

5. Os enunciados não são proposições, pois a mesma frase com o mesmo sentido pode constituir enunciados diferentes, com condições de verdade distintas, conforme o conjunto em que aparece, sendo sua identidade relativa e oscilante segundo o uso e o manejo, como a afirmação de que as espécies evoluem, que numa macro-história é o mesmo enunciado em Darwin e em Simpson e, num campo de uso mais restrito, como o neodarwinismo diante do sistema darwiniano, dois enunciados diferentes, de modo que a constância do enunciado através das enunciações e das formas é constituída pelo campo de uso em que se situa.

6. Os enunciados tampouco são enunciações, pois várias enunciações podem repetir o mesmo enunciado, como a comissária que explica os procedimentos de segurança em várias línguas, e nem sequer são entidades gramaticais restritas a frases, já que um mapa usado como representação de uma área ou o desenho de um teclado num manual podem ser enunciados.

7. Foucault sustenta ainda que os enunciados não são atos de fala, mas admite ter errado ao distingui-los dos atos de fala descobertos por John Austin e sistematizados por John Searle, comparação muito esclarecedora.

8. Searle nota que os atos de fala têm sentido literal independentemente de outros níveis de interpretação, e Foucault também considera os enunciados desempenhos tomáveis ao pé da letra independentemente da ambiguidade das frases que os formulam, objeto dos comentários de textos, e dos fatores causais de sua enunciação, estudados hermeneuticamente como na psicanálise da vida cotidiana.

9. A polissemia que justifica a hermenêutica e a descoberta de outro sentido concerne à frase e a seus campos semânticos, pois o mesmo grupo de palavras pode dar vários sentidos e construções sobre a mesma base enunciativa, e a supressão, substituição ou interferência entre desempenhos verbais pertencem ao nível da formulação, sem dizer respeito ao enunciado mesmo.

10. Searle e Foucault concordam que a existência do sentido literal dispensa a busca do sentido profundo e que basta ao arqueólogo aceitar o enunciado ao pé da letra e situá-lo entre outros enunciados de superfície, mas Searle interessa-se por como o ouvinte compreende o ato de fala, o que exige ouvi-lo num contexto local e sobre um fundo partilhado de práticas que não são meros enunciados, compreensão cotidiana que Foucault pressupõe sem que lhe interesse.

11. Foucault pôde ignorar a identidade entre enunciados e atos de fala porque seus interesses diferem inteiramente dos de Austin e Searle, não lhe importando os atos de fala cotidianos, a teoria das regras de sua produção nem o modo como o contexto pragmático local e o fundo de práticas não discursivas determinam suas condições de satisfação, mas apenas os atos de fala desligados da situação local e do fundo cotidiano que constituem um domínio relativamente autônomo, conquistado ao passar por provas institucionais como as regras da argumentação dialética, do interrogatório inquisitorial ou da confirmação empírica, já que se pode dizer a verdade no vazio, mas só se está no verdadeiro obedecendo às regras de uma polícia discursiva reativada a cada fala.

12. Passadas as provas, os enunciados podem ser entendidos por um ouvinte informado como verdadeiros sem referência ao contexto cotidiano de sua enunciação, espécie exótica de ato de fala que floresceu em forma pura na Grécia por volta de 300 a.C., quando Platão se interessou pelas regras que permitiam ser levado a sério e, estendendo essa relativa independência do contexto a uma independência total, inventou a teoria pura, embora qualquer cultura em que métodos permitam a falantes privilegiados falar com autoridade além de sua situação pessoal possa ser objeto de arqueologia, em que um sujeito autorizado afirma, com base num método aceito, uma pretensão de verdade séria.

13. Essa justificação sistemática e institucionalizada da pretensão de verdade de certos atos de fala ocorre num contexto em que verdade e falsidade têm consequências sociais sérias, e esse subconjunto atípico, que Foucault chama enganosamente de enunciados, pode ser chamado atos de fala sérios, podendo qualquer ato de fala tornar-se sério se se instituem procedimentos de validação e comunidade de especialistas, como a previsão de chuva emitida pelo serviço meteorológico a partir de uma teoria geral, e a cultura tende a converter cada vez mais atos de fala cotidianos em sérios, manifestação de uma vontade de verdade que cresce dia a dia em força, profundidade e implacabilidade.

14. O método de justificação e refutação confere a esses atos de fala sérios sua pretensão de saber e faz deles objetos a estudar, repetir e transmitir, raros entre tudo o que se diz, escreve e rabisca e por isso estimados, pois os enunciados não são uma transparência infinita como o ar, mas coisas transmitidas, conservadas, valorizadas, que se tenta apropriar e que se duplicam por cópia, tradução, exegese, comentário e proliferação interna do sentido.

15. Foucault não pretende acrescentar comentários a esses atos de fala, tarefa da exegese, nem coligir e formalizar os conjuntos de asserções verificadas, tarefa dos filósofos da ciência, nem examinar como falantes e ouvintes sérios se compreendem em ocasiões específicas, o que certamente envolve, como sustentam Wittgenstein, Kuhn e Searle, um fundo partilhado de práticas, mas interessa-se exclusivamente pelos tipos de atos de fala sérios, pelas regularidades de suas relações, as formações discursivas, e por suas transformações regulares, desenvolvendo um método que evita as condições internas da compreensão e se concentra no que foi efetivamente dito ou escrito e em como se encaixa no sistema relativamente autônomo de atos de fala sérios em que foi produzido.

16. O estudo das formações discursivas exige uma dupla redução, pois o investigador deve pôr entre parênteses não só as pretensões de verdade dos atos de fala sérios, como na redução fenomenológica de Husserl, mas também suas pretensões de sentido, permanecendo neutro quanto à verdade do que afirmam, quanto a cada pretensão de verdade fazer sentido e quanto à coerência da própria noção de pretensão de verdade independente do contexto.

17. Se O nascimento da clínica punha entre parênteses uma pretensão específica de sentido sério, como a descrição de Pomme, a Arqueologia suspende toda a noção de sentido sério, sem deixar de compreender os enunciados como atos de fala significativos, como faria um estruturalista ou behaviorista reduzido a sons sem sentido, mas suspendendo justamente sua pretensão de serem significativos, penetrantes e profundos, pouco importando que esse sentido seja doação de um sujeito transcendental, como em Husserl, ou provenha do lugar do enunciado numa totalidade que faz sentido sobre um fundo de práticas, como em Wittgenstein, de modo que, indo além de Husserl, Foucault trata referência e sentido como meros fenômenos, suspendendo o ponto de vista do significado e também o do significante.

18. Husserl e Merleau-Ponty puseram entre parênteses a legitimidade das pretensões de verdade independentes do contexto sem jamais suspender a crença em seu sentido, pois seu empreendimento visava estabelecer as condições de sua possibilidade, mostrando Husserl a origem do sentido e da verdade nas gestalts perceptivas do mundo cotidiano e o desenvolvimento teleológico das verdades situacionais até as pretensões científicas, desenvolvido por Merleau-Ponty na Fenomenologia da percepção, tentativas que Foucault rejeita como análises da experiência vivida ainda presas no duplo transcendental-empírico.

19. Foucault pretende deixar para trás as fenomenologias transcendental e existencial, descrevendo como elas como emergem as pretensões de verdade sérias, mas com um distanciamento duas vezes mais radical, pois, enquanto elas queriam fundar a validade dos atos de fala sérios na percepção após fundar esta e mostrar seu primado, ele julga que essa tentativa de fundar a verdade por uma história do referente não atingiu o distanciamento fenomenológico total, tratando-se de não neutralizar o discurso nem fazê-lo signo de outra coisa e atravessar sua densidade rumo ao que lhe é silenciosamente anterior, mas de mantê-lo em sua consistência e fazê-lo emergir em sua própria complexidade.

20. Ao contrário de Husserl e Merleau-Ponty, Foucault não considera que a dependência do discurso em relação a objetos anteriores precise ser fundada para que os atos de fala sérios sejam levados a sério, pois simplesmente não os leva a sério, permanecendo neutro quanto à verdade de cada pretensão e quanto à necessidade de uma justificação transcendental de sua possibilidade, dupla redução que, neutra em relação à própria noção de verdade, abre a possibilidade de uma descrição pura dos acontecimentos discursivos como horizonte da busca das unidades que nela se formam.

21. A própria noção de horizonte pertence ao discurso hermenêutico que o arqueólogo abandona, pois em vez de explicitar um horizonte de inteligibilidade Foucault descreve um espaço lógico aberto em que certo discurso ocorre, substituindo a exegese dos monumentos significativos da humanidade, própria do humanismo tradicional, pela construção quase estruturalista de conjuntos de elementos sem sentido.

22. Onde a história decifrava os traços deixados pelos homens, ela desdobra agora uma massa de elementos a relacionar em totalidades, e, se outrora a arqueologia, disciplina dos monumentos mudos e objetos sem contexto, aspirava à condição da história e só ganhava sentido pela restituição de um discurso histórico, hoje a história aspira à condição da arqueologia, à descrição intrínseca do monumento.

23. Essa descontextualização, que suprime o horizonte de inteligibilidade e sentido caro à hermenêutica, deixa apenas um espaço lógico das permutações possíveis de tipos de enunciados, descritos pela arqueologia apenas na medida em que caem nesse espaço, numa análise histórica que evita toda interpretação e não interroga as coisas ditas sobre o que escondem, o que realmente diziam ou o não dito que contêm, mas sobre seu modo de existência e o que significa terem aparecido quando e onde apareceram, elas e não outras.

24. O fenomenólogo husserliano quer reconstruir sob os parênteses todo o sentido presente e consideraria um fracasso não ter absorvido no cogito explícito o horizonte impensado do sentido, ao passo que Foucault não pretende captar tudo o que o participante vive no horizonte e não vê objeção em que as relações significativas entre enunciados desapareçam de suas análises, já que mesmo a neutralidade husserliana é termo fraco demais para um distanciamento que não suspende crenças, mas reencontra o exterior em que, em seu espaço desdobrado, se distribuem os acontecimentos enunciativos.

25. Pode-se perguntar se desse ponto de vista distanciado é possível sequer identificar os atos de fala para descrever as formações discursivas e estudar sua pretensão de sentido profundo, mas Foucault sustenta que não precisa partilhar as crenças dos que os levam a sério para localizá-los entre tudo o que se diz e escreve, podendo contar com a seriedade dos participantes para selecionar, limitar, defender, criticar e comentar o que é levado a sério em cada período e estudar então os raros enunciados sérios cuidadosamente conservados e a profusão de comentários sobre eles.

26. O fenomenólogo duplamente distanciado pode assim localizar o que é sério e significativo para uma época sem que o seja para ele, repudiando explicitamente os três duplos antropológicos ao declarar-se feliz por ser positivista se isso significa substituir a busca das totalidades pela análise da raridade, o tema do fundamento transcendental pela descrição das relações de exterioridade e a busca da origem pela análise das acumulações.

27. Foucault compraz-se na liberdade que esse positivismo fenomenológico extremo lhe dá em relação à bagagem filosófica das ciências do homem, sendo refrescante compreender e explicar o fenômeno das ciências humanas sem enredar-se nos debates e contradições que as explicações científicas do comportamento humano inevitavelmente geram, empresa estimulante e esclarecedora demonstrada em As palavras e as coisas, cujo método cabe examinar em detalhe antes de perguntar que poder explicativo Foucault lhe atribuiu e se essa pretensão se justificava.

Para além do estruturalismo: das condições de possibilidade às condições de existência

1. O ato de fala sério não existe isolado, pois, como nota Searle a propósito da rede de atos de fala, alguns só são possíveis numa rede de outros, como votar para presidente, e Foucault observa que a função enunciativa, que torna sérios os enunciados, não opera sem um domínio associado, sendo a questão crucial como tratar a relação entre os atos individuais e o domínio que determina sua seriedade, e, rejeitando a hermenêutica, que compreende as enunciações sobre um fundo comum de sentido, e a formalização, que reconstrói um sistema dedutivo de proposições científicas, Foucault propõe como única alternativa que esse domínio não é um segredo, a unidade de um sentido oculto ou uma forma geral e única, mas um sistema regido por regras.

2. Se os enunciados se unificam em sistemas regidos por regras, deve haver elementos que as regras relacionem, modelo de inteligibilidade familiar desde a mathesis clássica, em que toda organização era combinação complexa de representações primitivas, e, embora Foucault tenha abandonado a noção clássica e kantiana de representação, conserva a ideia de decompor um todo em partes e relações sistemáticas, chamando seu novo método análise arqueológica, um método de análise purgado de todo antropologismo.

3. O objetivo de analisar a rede de atos de fala sérios como sistema de elementos ordenados por regras de transformação assemelha-se ao estruturalismo, como admite Foucault ao dizer que a transformação autóctone do saber histórico que pretende revelar talvez não seja inteiramente alheia à análise estrutural, mas na mesma página afirma que esse tipo de análise não é especificamente usado, duzentas páginas depois que seus métodos e conceitos não podem confundir-se com o estruturalismo e no prefácio à tradução inglesa de As palavras e as coisas que não empregou nenhum dos métodos, conceitos ou termos-chave da análise estrutural, restando determinar essa diferença sutil mas significativa.

4. Dos dois tipos de estruturalismo, o atomista, que especifica os elementos independentemente de seu papel num sistema, e o holista, que define os elementos possíveis fora do sistema e os efetivos em função do todo de diferenças, Foucault considera primeiro o atomista, em que o enunciado aparece como átomo último e indecomponível do discurso, mas distingue o domínio dos atos de fala sérios de um domínio como a gramática, em que elementos isoláveis se combinam por regras formais abstratas, pois, enquanto a construção gramatical só precisa de elementos e regras, não há enunciado em geral, livre, neutro e independente, pertencendo sempre a uma série, um todo e uma rede de enunciados.

5. Os atos de fala sérios não podem ser isolados da rede enunciativa, pois são constituídos como sérios pelas regras vigentes de um jogo de verdade específico em que têm papel, os campos enunciativos, o que distingue claramente a posição de Foucault de todo estruturalismo atomista de elementos isoláveis, já que uma sequência de elementos linguísticos só é enunciado imersa num campo enunciativo em que aparece como elemento singular.

6. A arqueologia nada tem em comum com o estruturalismo atomista, pois seus elementos são produtos de um campo de relações, mas sua relação com o estruturalismo holista, que define elementos recorrentes, oposições e critérios de individuação para estabelecer leis de construção, equivalências e regras de transformação, é mais complexa, pois, sendo seus elementos enunciados ou atos de fala sérios, segui-lo exigiria definir o conjunto dos tipos possíveis de atos de fala sérios independentemente de qualquer sistema e deixar a cada sistema a determinação dos que contam efetivamente, projeto plausível para um estruturalista de elementos estipuladamente sem sentido, mas não para o arqueólogo, que, embora ponha o sentido entre parênteses, depende de que os enunciados sejam supostos significativos pelos usuários.

7. Os elementos do arqueólogo não só são individuados pelo sistema de enunciados, mas só podem ser identificados como elementos no sistema específico em que fazem sentido, pois, embora os atos de fala tenham para Foucault e Searle certo conteúdo informativo fixo, a identidade de sentido entre dois atos depende do contexto, que para Searle é o fundo de práticas cotidianas e para Foucault o sistema de outros atos de fala sérios em que um ato faz sentido sério, de modo que, como os holistas estruturalistas, Foucault faz a individuação do enunciado depender de um campo associado, mas seu holismo pragmático é mais radical, pois até a identidade do enunciado depende de seu uso, relativa e oscilante segundo o uso e o manejo.

8. O atomismo estruturalista identifica e individua os elementos isoladamente e nega que o todo difira da soma das partes, o holismo estruturalista identifica os elementos isoladamente e faz o sistema determinar quais dos possíveis se tornam efetivos, sendo o todo efetivo menos que a soma das partes possíveis, e o holismo arqueológico afirma que o todo determina o que pode contar até como elemento possível, sendo o contexto verbal mais fundamental que seus elementos e mais que a soma das partes, que só existem no campo que as identifica e individua.

9. Assim como não se podem abstrair os elementos possíveis do sistema dos efetivos, não se pode construir um quadro abstrato de todas as permutações possíveis de enunciados, mas apenas descrever regras específicas de transformação, de modo que, enquanto o estruturalista pretende encontrar leis abstratas, transculturais e a-históricas do espaço total das permutações de elementos sem sentido, o arqueólogo só pretende encontrar as regras locais e mutáveis que numa época e numa formação discursiva definem o que conta como enunciado significativo idêntico, e, se regra significa princípio formal das condições necessárias e suficientes da seriedade, não há regras, mas apenas os modos efetivos de relação entre os enunciados, já que a regularidade dos enunciados é definida pela própria formação discursiva, sendo uma só coisa pertencer a ela e as leis que a regem.

10. Não há sistema completo nem modo de determinar de antemão as condições de possibilidade de que o sistema presente seria uma instância, podendo-se apenas descrever sistemas específicos e determinar os tipos de enunciados sérios que efetivamente ocorrem, numa empresa puramente descritiva que pretende descrever os enunciados e a função enunciativa de que são portadores, analisar as condições em que ela opera e percorrer os domínios que pressupõe e o modo como se articulam.

11. Foucault resume essas diferenças dizendo que o estruturalista estuda possibilidades e o arqueólogo existência, pois o enunciado não é uma estrutura, grupo de relações entre elementos variáveis que autoriza um número possivelmente infinito de modelos concretos, mas uma função de existência própria dos signos a partir da qual se decide se fazem sentido, segundo que regra se sucedem ou justapõem, de que são signo e que ato se realiza por sua formulação.

12. Embora haja razões para chamar análise o método arqueológico, por lidar com elementos e regras, ele tem pouco em comum com a mathesis clássica ou seus descendentes estruturalistas modernos, e esse método de decomposição em categorias de enunciados e transformações dependentes do contexto, em vez de elementos atômicos e regras abstraíveis, poderia antes, à maneira de Kant, chamar-se analítica, por buscar as condições a priori que tornam possível a análise praticada em cada disciplina, inclusive no estruturalismo.

13. Essa comparação também deve ser matizada, pois as condições a priori de emergência dos enunciados não são condições formais transcendentais, e nada seria mais agradável e mais inexato que conceber esse a priori histórico como um a priori formal dotado de história, figura grande, imóvel e vazia que irrompesse um dia na superfície do tempo, exercesse uma tirania inescapável sobre o pensamento e desaparecesse num eclipse inesperado, síncope transcendental de formas intermitentes, de modo que, sem elementos básicos em que a análise termine, o método não é estruturalista, e, sem regras vazias de nível superior para uma época nem princípios atemporais das mudanças entre épocas, não é transcendental, não sendo nem análise nem transcendental.

14. Apesar de rejeitar as condições de possibilidade e descobrir condições de existência, a arqueologia ainda se assemelha ao estruturalismo de dois modos, a rejeição de todo recurso à interioridade de um sujeito consciente, individual e doador de sentido, partilhada com tantos outros movimentos, psicanálise, etnologia, linguística, fenomenologia existencial heideggeriana e behaviorismo wittgensteiniano, que é semelhança com o movimento geral para além da antropologia, e, mais específica e marcante, o desinteresse pelo sentido sério suposto pelos participantes, rejeitando a tese, partilhada por pragmatistas como Dewey, fenomenólogos hermenêuticos como Heidegger e filósofos da linguagem comum como Wittgenstein, de que estudar práticas linguísticas exige considerar o fundo de práticas partilhadas que as torna inteligíveis.

15. Heidegger chamou esse fundo clareira em Ser e tempo e o aberto nos escritos posteriores, designando como diferença ontológica a diferença fundamental entre esse fundo prático e uma rede de crenças ou enunciados, e Foucault rejeita explicitamente a fenomenologia husserliana e a hermenêutica heideggeriana ao opor ao relato exegético a exterioridade da atitude arqueológica, que isola conjuntos de enunciados para analisá-los numa exterioridade paradoxal sem forma correlativa de interioridade e em sua descontinuidade, sem relacioná-los a uma abertura ou diferença mais fundamental, pretendendo ter descoberto um novo domínio de enunciados sérios que, embora vividos como dependentes de práticas não discursivas pelos que estão dentro deles, podem ser descritos e explicados pelo arqueólogo como domínio autônomo.

16. O arqueólogo insiste em que não se podem estudar atos de fala sérios isoladamente, mas sustenta que se podem estudar conjuntos deles isoladamente do fundo prático, pois até o contexto relevante é determinado pelo sistema de enunciados sérios em que um enunciado é usado, determinando-se o efeito de contexto sobre o fundo de uma relação mais geral entre formulações e de toda uma rede verbal, de modo que a rede das práticas discursivas pode ser tratada como conjunto de elementos interligados pondo entre parênteses o tecido espesso de relações não discursivas que forma o fundo de inteligibilidade dos falantes.

17. Foucault insiste no caráter puramente linguístico de seu objeto e na autonomia dos campos de estabilidade e de uso, pois, formando os atos de fala sérios um sistema, o arqueólogo pode estudar de fora a função enunciativa, aquilo que faz uma época levar certos atos de fala a sério, convicto, como um estruturalista, de que ela depende apenas de outros atos de fala sérios, de modo que, vistos de dentro, os enunciados só fazem sentido sério sobre um fundo de práticas científicas e não científicas, mas, vistos de fora, esse fundo não desempenha papel essencial na determinação dos atos de fala que fazem sentido sério, devendo-se a seriedade apenas a seu lugar na rede de outros atos de fala sérios.

18. Foucault tem razão ao sustentar que enunciados como o de que as espécies evoluem só têm sentido numa formação discursiva que especifica suas condições de verdade, mas dessa dependência do contexto não se pode concluir que os atos de fala sérios devam sua seriedade apenas a essa teia de práticas discursivas, conclusão estruturalista que confunde condições necessárias e suficientes e que as próprias pesquisas de Foucault o levaram a rejeitar, embora na época da Arqueologia ele partilhe com os estruturalistas o isolamento e a objetivação de um domínio de investigação teórica supostamente dotado de legalidade autônoma.

A análise das formações discursivas

1. Para testar a possibilidade de uma disciplina situada no domínio intermediário entre as práticas cotidianas não discursivas e as disciplinas formalizáveis como a matemática e algumas ciências naturais, Foucault aplica o método arqueológico ao conjunto de enunciados das chamadas ciências do homem, pois, se esse domínio pudesse ser recortado, analisado e explicado como autônomo por pura descrição, sem apelo ao sentido nem à formalização, a arqueologia contribuiria para uma nova disciplina que, desligada do senso comum, poderia ser o primeiro passo para uma teoria bem-sucedida de um aspecto importante dos seres humanos.

2. Foucault propõe começar como um empirista puro, tomando como dados brutos um conjunto do que numa época era tido por atos de fala sérios, pré-selecionado presumivelmente pelos conservadores da Biblioteca Nacional, cuja decisão sobre o sério e cuja classificação baseada em suas práticas discursivas e não discursivas não constituem problema, já que o arqueólogo não toma esse conjunto e a classificação em disciplinas que pressupõe ao pé da letra, mas apenas como matéria-prima de uma sistematização independente.

3. Postos duplamente entre parênteses os atos de fala sérios, sem apelo a seu sentido e verdade nem aos processos de pensamento dos grandes pensadores ou ao progresso das ciências, é preciso uma nova maneira de sistematizar o discurso, até porque as unidades tradicionais falham em seus próprios termos, já que nenhuma característica essencial de uma disciplina tradicionalmente definida permanece através das mudanças, não definindo as disciplinas seus objetos, tipos de descrição, praticantes legítimos, conceitos e métodos do mesmo modo de um período a outro e sofrendo seus objetos constantes deslocamentos, transformações e substituições mesmo dentro de um período.

4. Foucault não é o primeiro a notar esse problema, pois Wittgenstein diria que as disciplinas não escapam à verdade geral de que não classificamos objetos, sejam cadeiras e jogos ou botânica e física, por uma essência ou lista de traços essenciais, mas por uma rede complicada de semelhanças que se sobrepõem e entrecruzam, como um fio cuja resistência não reside numa fibra que o percorra inteiro, mas na sobreposição de muitas, captando-se essa semelhança de família por um exemplo perspícuo em relação ao qual se organizam os demais casos.

5. Historiadores da ciência atentos às descontinuidades, como Thomas Kuhn, enfrentaram também o problema da unidade através da mudança, resolvido por Kuhn, sob influência de Wittgenstein, pela noção de paradigma, exemplar específico de trabalho bem-sucedido, explicando a unidade de uma comunidade científica, com seus objetos e métodos, pela adesão comum a um paradigma e não a um conjunto específico de crenças.

6. Foucault silencia estranhamente sobre a descrição kuhniana por paradigmas, que pareceria resolver seu próprio problema de explicar a unidade de um corpo de saber evitando o recurso hermenêutico a um referente oculto comum e a busca formalista de condições necessárias e suficientes de identidade, talvez porque, como muitos leitores de Kuhn, entendesse o paradigma como conjunto de crenças ou quadro conceitual partilhado, confundindo numa entrevista posterior sistematicidade, forma teórica e paradigmas e aceitando como única explicação a identidade tradicional das disciplinas fundada em regras partilhadas do aceitável, sistema de controle da produção do discurso por reativação permanente das regras, ao passo que Kuhn afirma explicitamente que determinar um paradigma partilhado não é determinar regras partilhadas, já que as regras derivam dos paradigmas, mas estes podem guiar a pesquisa na ausência de regras.

7. Foucault não sustenta que as supostas regras normativas autoimpostas que definem uma disciplina para seus praticantes expliquem sua constância através de objetos e métodos mutáveis, pois também elas mudam, mas, ao propor um princípio de unidade através das descontinuidades sem apelo às intenções dos sujeitos, ignora de novo a possibilidade de que as unidades disciplinares resultem de práticas partilhadas irrefletidamente e supõe que elas devam ser encontradas no nível do discurso regido por regras.

8. Supondo que os atos de fala sérios devam revelar os princípios de sua própria unidade autônoma a um novo estudo descritivo, Foucault precisa introduzir o aparato conceitual para catalogar esse domínio, tomando precauções em cada etapa para que a análise dos atos de fala sérios evite as velhas categorias antropológicas, o que procura assegurar de dois modos.

9. Primeiro, como a melhor defesa é o ataque, propõe como estratégia provisória analisar o próprio discurso cuja influência difusa pretende evitar, as ciências do homem, que oferecem um campo de relações discursivas numerosas, densas e relativamente fáceis de descrever, sem ter atingido a formalização, analisando todos os enunciados a partir dos quais se constituem as categorias antropológicas, que escolheram o sujeito do discurso como objeto e campo de conhecimento.

10. Segundo, as novas categorias de descrição dos conjuntos de atos de fala sérios devem ser constantemente contrastadas com os descendentes de ambos os lados do duplo transcendental-empírico, as categorias empíricas que explicam as enunciações e as transcendentais que analisam as proposições, e com essas precauções Foucault introduz suas quatro novas categorias descritivas das formações discursivas, objetos, sujeitos, conceitos e estratégias.

Objetos

1. O modo mais óbvio de catalogar formações discursivas seria agrupar os atos de fala sérios referentes a um objeto comum, como tentou o livro sobre a loucura ao estudar os enunciados que tinham por objeto certa experiência, mas na Arqueologia Foucault percebe que, longe de diferenciar-se por seus objetos, as formações discursivas produzem o objeto de que falam, não sendo a loucura um objeto ou experiência-limite exterior ao discurso que cada época tentou captar em seus termos nem uma experiência primitiva e fundamental depois organizada, traduzida, deformada ou recalcada pelos discursos, mas uma doença mental constituída por tudo o que foi dito nos enunciados que a nomeavam, dividiam, descreviam, explicavam, julgavam e eventualmente lhe davam a palavra, de modo que não se trata de interpretar o discurso para escrever uma história do referente.

2. Tampouco unificam o campo de estudo as condições transcendentais que definem a objetividade do discurso e regem a produção de objetos transcendentes, pois esse movimento kantiano do empírico ao transcendental também falha, já que nem um objeto fixo e unificado nem as regras transcendentais dos sentidos doados por um sujeito transcendental podem explicar o objeto sistematicamente mutável que é a loucura.

3. Foucault resume essas duas opções e a necessidade de resistir à tendência de pensar a linguagem em termos de referentes e de palavras que apontam objetos, pois em sua análise palavras e coisas estão deliberadamente ausentes, consistindo a arqueologia em não mais tratar os discursos como conjuntos de signos que remetem a conteúdos ou representações, mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam, já que não se pode falar de qualquer coisa em qualquer momento e é preciso falar do espaço em que diversos objetos emergem e se transformam continuamente.

4. Esse espaço parece inicialmente uma versão concreta e restrita da tese partilhada por Wittgenstein e Heidegger de que uma constelação de práticas permite aos que as partilham destacar objetos e falar deles, e Foucault chega a enfatizar as práticas sociais não discursivas entre as relações que permitem destacar objetos e dar-lhes realidade pública, relações entre instituições, processos econômicos e sociais, padrões de comportamento, sistemas de normas, técnicas, tipos de classificação e modos de caracterização, sublinhando, como os pensadores do fundo prático, que esse espaço não se encontra analisando os conceitos dos objetos, pois essas relações não estão no objeto nem definem sua constituição interna, mas o que lhe permite aparecer e situar-se num campo de exterioridade.

5. Foucault faz então um movimento estruturalista que distingue nitidamente sua concepção do fundo de práticas da de Wittgenstein e Heidegger, pois, embora saiba que as práticas não discursivas contribuem para formar os objetos, insiste em que o papel decisivo cabe às relações discursivas, não as relações lógicas e retóricas entre proposições, mas presumivelmente as relações entre atos de fala usados em contextos específicos para realizar ações, que estão no limite do discurso, oferecem-lhe objetos de que falar e determinam o feixe de relações que ele deve estabelecer para falar de um objeto, tratá-lo, nomeá-lo, analisá-lo, classificá-lo e explicá-lo.

6. Para estabelecer o papel especial da prática discursiva, Foucault mostra que as relações discursivas que tornam possível a referência séria não são objetivas nem subjetivas, nem relações primárias independentes do discurso entre instituições, técnicas e formas sociais, nem relações secundárias pelas quais os sujeitos definem reflexivamente seu comportamento, como o que os psiquiatras do século XIX diziam sobre família e criminalidade, que não reproduz as dependências reais nem as relações que sustentam os objetos do discurso psiquiátrico, pois, embora instituições, acontecimentos políticos e processos econômicos afetem o que pode ser dito seriamente e os falantes devam falar dos objetos aceitos por sua comunidade científica, os cânones partilhados de seriedade são determinados pelo modo como a prática discursiva organiza as relações primárias e secundárias, estabelecendo entre elementos heterogêneos uma relação de forma bem determinada.

7. A tese de que as práticas discursivas têm certa prioridade por estabelecerem relações entre os demais tipos de relações é uma das mais importantes e menos discutidas da Arqueologia, pois toda teoria que pretenda que a prática discursiva é autônoma sem lhe conferir idealidade pura e independência histórica total deve explicar como as relações discursivas interagem com as primárias e secundárias, problema que Foucault formula ao distinguir um sistema de relações reais ou primárias, um espaço de relações reflexivas ou secundárias e um sistema de relações propriamente discursivas cuja especificidade e interação com os outros dois cumpre revelar, mas sobre o qual diz muito pouco, limitando-se a nomeá-lo ao afirmar que o campo dos enunciados é um domínio prático autônomo, embora dependente, descritível em seu nível, embora articulado a outra coisa.

8. Essa posição é plausível se se distingue dependência causal de inteligibilidade descritiva, entendendo-se que, embora o que se diz dependa causalmente de muitos fatores não discursivos, não é preciso recorrer a eles para sistematizar e tornar inteligível por que certos tipos de atos de fala sérios são realizados e outros não, bastando descobrir e expor as regras da prática discursiva, de modo que se é remetido ao estabelecimento de relações que caracteriza a própria prática discursiva e a um conjunto de regras imanentes que a definem em sua especificidade.

9. Foucault parece, porém, querer afirmar mais que a inteligibilidade autônoma das regras discursivas, sustentando que as relações discursivas afetam todas as demais, como mostra seu melhor exemplo, a relação entre discurso médico e outros fatores da prática médica, pois, se em O nascimento da clínica todas as práticas eram manifestações da mesma estrutura subjacente, agora, restrita a análise às regras dos atos de fala sérios, surge a questão da relação entre as regras do discurso médico e as demais forças da prática médica, à qual responde que o discurso usa os fatores sociais, técnicos, institucionais e econômicos dando-lhes unidade, ditando, por assim dizer, os termos de sua dependência, o que se vê no exemplo detalhado.

10. Foucault começa por enumerar as relações não discursivas, primárias e secundárias, que parecem influenciar o discurso médico.

11. Se no discurso clínico o médico é sucessivamente o questionador soberano e direto, o olho que observa, o dedo que toca, o órgão que decifra signos, o ponto de integração de descrições já formuladas e o técnico de laboratório, é porque está implicado um feixe de relações entre o espaço hospitalar como lugar de assistência, observação sistemática e terapêutica parcialmente experimental e entre os papéis terapêutico, pedagógico, de intermediário na difusão do saber médico e de representante responsável da saúde pública no espaço social.

12. Mostra-se em seguida que o novo na prática médica moderna não pode resultar da transformação dessas técnicas, instituições ou conceitos.

13. A medicina clínica não deve ser vista como resultado de uma nova técnica de observação, a autópsia, praticada muito antes do século XIX, nem da nova instituição do hospital de ensino, já existente havia décadas na Áustria e na Itália, nem da introdução do conceito de tecido no Tratado das membranas de Bichat, mas como estabelecimento, no discurso médico, de uma relação entre elementos distintos referentes ao estatuto dos médicos, ao lugar institucional e técnico de onde falavam e à sua posição como sujeitos que percebem, observam, descrevem e ensinam.

14. Segue-se a conclusão que constitui a tese forte de Foucault.

15. Essa relação entre elementos diversos, novos ou já existentes, é efetuada pelo discurso clínico, que como prática estabelece entre eles um sistema de relações, e, se há unidade e as modalidades enunciativas que usa ou a que dá lugar não estão simplesmente justapostas por contingências históricas, é porque ele faz uso constante desse feixe de relações.

16. O que quer que signifique o discurso estabelecer um sistema de relações, a afirmação da autonomia do discurso na Arqueologia vai além da tese de que ele é inteligível em seus próprios termos, sustentando a tese extrema e interessante, mas implausível, de que o discurso unifica todo o sistema de práticas e de que só nessa unidade discursiva os fatores sociais, políticos, econômicos, tecnológicos e pedagógicos se reúnem e funcionam coerentemente, quando se poderia pensar que as práticas institucionais já deveriam ser coerentes para que se desenvolvessem práticas discursivas unificadas, ou que haveria práticas culturais comuns subjacentes a ambas, como para Kuhn um exemplar partilhado foca e unifica práticas e discurso científicos.

17. Um exemplo mais familiar torna plausível a concepção estruturalista de Foucault, pois o funcionamento da universidade depende de muitas relações primárias, econômicas, políticas, familiares, institucionais, arquitetônicas e pedagógicas, que só se fundem na universidade moderna graças a uma ideia da universidade partilhada em parte por administradores, professores e estudantes, relação secundária condicionada por um fator unificador final que não é objetivo nem mental, mas um modo atualmente aceitável de falar levado a sério no domínio do ensino superior, relacionado com o que se pensa sobre educação universitária, mas não redutível a isso, de modo que o que organiza as relações institucionais e o pensamento é o sistema de regras que governa que tipo de discurso sobre educação, e de que falantes, pode ser levado a sério num período, regras que, por contraintuitivo que pareça, efetuam ou estabelecem a vida universitária tal como a conhecemos.

18. Mesmo que as regras do discurso estabeleçam um sistema de relações, isso não exclui perguntar como o discurso depende das práticas sociais e econômicas que unifica, pois não se instalaria uma universidade moderna num sistema feudal ensinando uma elite a falar como o Conselho de Regentes da Califórnia, devendo as instituições e práticas sustentar o discurso, e Foucault reconhece que a arqueologia revela relações entre formações discursivas e domínios não discursivos, algo sobre o qual o discurso se articula, relação que não é de sentido nem de causalidade objetiva, já que a arqueologia não busca grandes continuidades culturais nem mecanismos causais, não pergunta o que motivou os fatos enunciativos nem o que neles se exprime, mas define formas específicas de articulação entre as regras de formação e os sistemas não discursivos.

19. Foucault assegura que revelar em sua pureza o espaço dos acontecimentos discursivos não é encerrá-lo num isolamento insuperável, mas deixar livre para descrever o jogo de relações dentro e fora dele, e que suspender a análise causal e a conexão pelo sujeito falante não visa garantir a independência soberana do discurso, mas descobrir o domínio de existência e funcionamento de uma prática discursiva, sem dar na Arqueologia nenhuma explicação adicional das relações de articulação além da promessa de mostrar como o discurso médico, prática voltada a um campo de objetos, nas mãos de indivíduos estatutariamente designados e com funções sociais, se articula a práticas externas não discursivas.

20. Só quando Foucault abandonar a tese semiestruturalista de que o discurso tem uma prioridade que lhe permite usar as relações não discursivas poderá descobrir o domínio legítimo do funcionamento das práticas discursivas e explicar o modo singular pelo qual o discurso depende das práticas não discursivas que serve e ao mesmo tempo retroage sobre elas e as influencia.

Modalidades enunciativas

1. Assim como em História da loucura Foucault julgou erroneamente poder individuar um campo discursivo por seus objetos fixos, ao preparar O nascimento da clínica pensou poder isolar estágios fixos e homogêneos da ciência médica por estilos constantes de enunciados, modos básicos de falar dos sujeitos, mas, como a análise de uma formação discursiva não revela um conjunto denso de objetos, mas uma série cheia de lacunas, substituições e transformações, a tentativa de definir um grupo de enunciados como um grande texto contínuo deu lugar à descrição de um campo de tipos heterogêneos de enunciados.

2. Para compreender a variedade de estilos de enunciados, o arqueólogo deve considerar outras práticas discursivas sistematicamente mutáveis, como quem tem o direito de enunciar, de que lugar os enunciados emanam e que posição ocupa o sujeito do discurso, o que na medicina exige descrever como os médicos são certificados, os hospitais organizados e como muda a posição do médico como observador, interrogador, coletor de dados e pesquisador.

3. No estudo dos enunciados, como no dos objetos, a análise conduz aos limites da prática discursiva, reconhecendo que o discurso clínico era tanto um conjunto de hipóteses sobre a vida e a morte, escolhas éticas, decisões terapêuticas, regulamentos institucionais e modelos de ensino quanto de descrições, mas, fiel aos preconceitos teóricos da arqueologia, Foucault subordina essa descoberta e salva a autonomia relativa do discurso ao sustentar que as práticas éticas, pedagógicas e terapêuticas pressupostas pelos atos de fala médicos são possibilitadas por relações discursivas mais amplas, ignorando a gama de práticas pedagógicas não discursivas, como a aprendizagem que transmite desde preconceitos médicos sobre vida e morte até habilidades como ler radiografias de tuberculose, e restringindo-se à questão de quem pode ser levado a sério, quem tem direito de falar com presunção de verdade, que remete ao sistema geral de relações discursivas, pois os enunciados médicos não podem vir de qualquer um e seu valor, eficácia e poder terapêutico não se dissociam da pessoa estatutariamente definida com direito de proferi-los e de reivindicar o poder de vencer o sofrimento e a morte.

4. Determinado a evitar a remissão tradicional do saber médico ao ato fundador do sujeito pensante, cognoscente e falante, Foucault ignora as práticas médicas cotidianas partilhadas, transmitidas por modelos de ensino e assimiladas pela aprendizagem abaixo do nível da consciência reflexiva, substituindo os modelos de ensino não discursivos por formulações explícitas de critérios de competência, saber, normas pedagógicas e condições legais, e, ignorando exemplares e outras práticas de fundo que formam os falantes sérios, passa da tese justificada de que o domínio enunciativo não remete a um sujeito individual, a uma consciência coletiva nem a uma subjetividade transcendental à tese injustificada de que as diferentes formas de subjetividade falante são efeitos próprios do campo enunciativo.

5. Pensadores hermenêuticos como Heidegger e Kuhn concordariam que os sujeitos não são a fonte do discurso e que esta é um campo anônimo de práticas, mas insistiriam em que esse campo não é puramente discursivo nem consiste apenas na totalidade das coisas ditas, de suas relações, regularidades e transformações, pois habilidades não discursivas mutáveis sustentam os estilos de enunciados, as modalidades enunciativas e os tipos de sujeitos possíveis, nível de prática inacessível à consciência reflexiva dos sujeitos empíricos e irrecuperável como sistema implícito de crenças de uma consciência transcendental, como queria Husserl, cujo reconhecimento não significa recair na reanimação da história da mentalidade médica.

6. Para Foucault nessa fase, a única alternativa à sua posição parecem ser as filosofias tradicionais do sujeito, rejeitadas com razão, pois, assim como a regulação dos objetos de uma formação discursiva não se define por palavras nem por coisas, a regulação de suas enunciações não se define pelo recurso a um sujeito transcendental nem a uma subjetividade psicológica, restando apenas um estruturalismo modificado que atribui eficácia autônoma ao campo discursivo e funda as modalidades enunciativas numa lei operante por trás dos enunciados diversos, que evita referência a objetos ou sujeitos à custa de pôr de lado todas as características específicas das práticas sociais atuais.

A formação dos conceitos

1. Se se tenta mostrar que a unidade de uma formação discursiva é determinada pelo uso de um conjunto fixo de conceitos, a explicação tradicional revela-se inadequada, pois, como mostrou As palavras e as coisas, os conceitos mudam, conceitos incompatíveis se sobrepõem e todos sofrem revoluções conceituais, e Foucault propõe de novo uma descrição inteiramente externa contra o interesse tradicional pelas regras internas de construção dos conceitos acessíveis ao sujeito psicológico, buscando, como Kuhn, um nível de análise que dê conta das continuidades, pequenos deslocamentos e reordenações radicais dos conceitos sem recorrer a uma racionalidade imanente, mas, ao contrário de Kuhn, para quem a adesão mutável a paradigmas e não regras explica continuidade e descontinuidade, permanecendo no nível dos sistemas de práticas discursivas autônomos e regidos por regras, numa análise do campo pré-conceitual em que os conceitos podem coexistir e das regras a que esse campo está submetido.

2. O estatuto dos princípios explicativos de Foucault é tão mutável quanto os conceitos que pretendem regular, pois, em vez de uma lei operante por trás dos fenômenos discursivos, descrevem-se agora regras operantes no próprio nível discursivo, sendo o pré-conceitual, em vez de um horizonte que sobe das profundezas da história, o conjunto de regras que operam no nível mais superficial, o do discurso, o que presumivelmente significa que, enquanto as modalidades enunciativas se baseavam em leis inacessíveis aos praticantes, os conceitos se explicariam pelas próprias regras seguidas pelos falantes, descritas porém não como meios pelos quais os indivíduos asseguram que fazem sentido e serão levados a sério, mas, da perspectiva neutra arqueológica, como regras do jogo anônimo de verdade que operam no próprio discurso e, por uma espécie de anonimato uniforme, sobre todos os que falam nesse campo.

3. Cresce a suspeita de que Foucault é muito mais claro sobre os métodos humanistas que rejeita do que sobre o estatuto dos princípios de formação que introduz, mas um ponto é claro, pois, sejam eles as mesmas regras seguidas pelos falantes vistas de fora como relações entre acontecimentos sem sentido, sejam, como nas modalidades enunciativas, uma lei por trás dos fenômenos totalmente diferente das regras na mente dos praticantes e descoberta apenas pela observação arqueológica, trata-se de princípios de rarefação.

4. Como o arqueólogo não leva a sério os atos de fala sérios, a profusão discursiva gerada pela tentativa de afirmar verdades sobre objetos tidos por reais e de interpretar o que os sujeitos sérios dizem revela-se restrita a um domínio estreito, rarefação que não significa apenas que o conjunto dos atos de fala sérios se explica por poucas regras ou leis nem que o arqueólogo rejeite relatórios, bancos de dados, biografias ou autobiografias, mas que, vistos de fora, os atos de fala que podem ser levados a sério numa época ocupam pequenas regiões descontínuas.

5. Cabe perguntar regiões de quê, e a tentação de responder regiões do domínio de todos os atos de fala sérios possíveis recairia na tese estruturalista de que se podem identificar de antemão todos os elementos e regras de combinação possíveis para determinar o campo total das permutações, quando só se podem determinar condições de existência e não de possibilidade, devendo a raridade dos atos de fala sérios efetivos definir-se sem recurso à noção contrastante de plenitude dos atos de fala sérios possíveis.

6. A noção de rarefação indica presumivelmente que noutras épocas, com outras formações discursivas, atos de fala hoje bizarros e incompreensíveis eram levados a sério e que atos hoje tidos por sérios, se alguém os proferisse então, pareceriam delírios de louco ou visionário, e Foucault quer sustentar que as ilhas de densidade em que proliferam os atos de fala sérios resultam de princípios que operam dentro ou por trás do discurso para restringir o que pode contar como objeto, o que se pode dizer seriamente dele, quem pode dizê-lo e que conceitos se podem usar.

A formação das estratégias

1. Uma última tentativa tradicional de compreender as unidades e descontinuidades das antigas disciplinas busca temas subjacentes, abordagem cujos problemas Foucault mostra facilmente, pois o mesmo tema, como a evolução, articula-se em campos diferentes de objetos e conceitos, baseando-se no século XVIII num contínuo de espécies interrompido por catástrofes naturais e no século XIX na descrição de grupos descontínuos, um só tema e dois tipos de discurso, e inversamente, na economia, o mesmo conjunto de conceitos entra em duas estratégias diferentes de explicação do valor, pela troca e pela remuneração.

2. Em lugar dos temas, um grupo de atos de fala sérios é individuado pelos pontos de escolha que uma formação discursiva torna disponíveis, pelas possibilidades de reanimar temas existentes, suscitar estratégias opostas, dar lugar a interesses inconciliáveis e jogar diferentes jogos com um mesmo conjunto de conceitos, abrindo um campo de opções possíveis, espaço mutável em que possibilidades de ação surgem, são exploradas e abandonadas e que deve substituir as noções teleológicas do desenvolvimento de temas ou teorias.

3. Essa concepção deve responder como essas possibilidades estratégicas se distribuem na história, o que abre esse espaço e como explicar suas transformações, e Foucault aponta rapidamente as falhas das abordagens ditadas pelo duplo kantiano, a transcendental, que pretende um desenvolvimento necessário de soluções cada vez melhores para o mesmo problema, e a empírica, que atribui o aparecimento e desaparecimento das possibilidades a ideias e influências contingentes, propondo descrever o modo sistemático como as diversas estratégias se relacionam, as regras de formação das escolhas teóricas, individualizando-se uma formação discursiva quando se mostra que todas as suas estratégias derivam do mesmo conjunto de relações.

4. Foucault não dedicou um livro à descrição de um sistema de formação de estratégias, mas sua sistematização densa e esclarecedora da analítica da finitude exemplifica o que essa abordagem pode realizar, mostrando como em dois séculos três estratégias, variações sobre como identificar e superar as limitações essenciais do homem, foram mais ou menos sucessivamente exploradas e esgotadas, sem que os praticantes se vissem restritos a uma gama limitada de estratégias abertas quando as limitações descobertas no fim da idade clássica foram definidas como finitude nem como jogadores de um jogo perdido de fundar a transcendência de todos os limites no reconhecimento de si como limitado, pois de dentro viam-se explorando programas de pesquisa promissores, e só de fora essas estratégias aparecem regidas por princípios de raridade que restringem o espaço das opções, modos regrados de praticar as possibilidades do discurso.

5. A analítica da finitude mostra também que o sistema de formação não é estranho ao tempo, pois estabelece condições-limite cujas estratégias possíveis não são descobertas de uma vez quando o homem emerge como fonte unificadora da representação, nem exploradas uma a uma numa convergência dialética em que cada uma é superada ao revelar suas contradições, mas numa série sobreposta em que algumas se mostram pouco promissoras, levam a debates estéreis ou inauguram tarefas infinitas que entediam, enquanto novas torções parecem prometer organizar a matéria recalcitrante, de modo que os elementos sofrem mutações intrínsecas inscritas na prática discursiva sem alterar a forma geral de sua regularidade.

6. Vendo como mudam os sistemas de formação, percebe-se que tipos definidos de discurso têm historicidade própria, cabendo examinar a nova compreensão arqueológica da história para concluir a análise das propriedades das formações discursivas.

Transformação histórica: a desordem como tipo de ordem

1. Como descreve as regras do discurso histórico moderno, que toma a história como progresso significativo rumo à verdade, o arqueólogo já não leva a sério a teleologia da história nem pressupõe a continuidade histórica, entendendo o discurso sério não como expressão externa gradual de um sentido profundo interno, mas como prática que revela suas próprias regras de mudança sistemática e tem suas formas próprias de sequência e sucessão, proclamando ao historiador sério, comprometido com desenvolvimento e continuidade modelados na biografia, que o discurso não é a vida e que seu tempo não é o tempo dele.

2. Cabe perguntar o que são tempo e história para o arqueólogo e como ele explica as descontinuidades e transformações tomadas erroneamente por marcha significativa da história, se suas regras de transformação não congelam toda mudança, e Foucault afirma o contrário, pois a arqueologia não trata como simultâneo o sucessivo nem substitui o fluxo dos acontecimentos por correlações de uma figura imóvel, mas suspende o tema de que a sucessão é um absoluto, sequência primária e indissociável a que o discurso estaria submetido pela lei de sua finitude.

3. O arqueólogo não se interessa pela sucessão empírica dos acontecimentos nem por regras históricas transcendentais das condições de possibilidade de toda mudança, mas pelo modo como uma formação discursiva substitui outra, revelando as relações que caracterizam a temporalidade das formações discursivas e regem a sucessão de espaços em que se determinam diversas buscas de origens e compreensões do tempo e da história, mostrando como é possível haver sucessão e em que níveis se encontram sucessões distintas, sem tentativa hermenêutica de remontar a sucessão a sua fonte, pois seu papel não é redescobrir no fundo das coisas ditas o momento de seu nascimento empírico ou transcendental nem ser rememoração do originário ou memória da verdade, mas fazer diferenças, constituí-las como objetos, analisá-las e definir seu conceito.

4. A alternativa à hermenêutica não é o estruturalismo, pois as relações entre diferenças descritas pelo arqueólogo não são condições de possibilidade a-históricas do espaço de todas as transformações possíveis, mas presumivelmente regras que determinam apenas as condições de existência, as regularidades das transformações efetivas, permitindo uma teoria da mudança que evite o dilema clássico entre regras a-históricas que explicam toda mudança e mudança inteiramente ininteligível.

5. O arqueólogo substituirá uma referência indiferenciada à mudança pela análise das transformações, o que deixa em aberto a questão decisiva de quão sistemática é essa mudança, se as regras de formação, com seus deslocamentos e descontinuidades sobrepostas, mudam sistematicamente, pois, embora se deva descrever como se transformaram os elementos de um sistema de formação, regras atemporais das transformações históricas de regras e elementos seriam condições de possibilidade e recairiam no estruturalismo.

6. Foucault não toma posição final sobre esse ponto, deixando obscuras na Arqueologia as diferenças importantes entre sua obra e a dos estruturalistas, pois responde à questão das metarregras de transformação afirmando que a arqueologia tenta estabelecer o sistema de transformações que constitui a mudança, sistema que se revela mais semelhante a uma semelhança de família wittgensteiniana, em que certas semelhanças persistem, outras desaparecem e novas surgem, do que a uma reestruturação regrada à maneira de Piaget ou Lévi-Strauss, já que a análise das rupturas arqueológicas pretende estabelecer entre tantas mudanças analogias, diferenças, hierarquias, complementaridades e deslocamentos, isto é, descrever a dispersão das próprias descontinuidades.

7. A ordem sistemática encontrada por Foucault parece ser uma descrição meticulosa da desordem, e ele precisa sustentar que as relações emaranhadas reveladas por sua descrição do discurso antropológico são ainda assim sistematizáveis e semelhantes a regras, pois só se essas regras puderem ser construídas como regras de formação autônomas o discurso sério fica protegido da influência das práticas cotidianas.

8. Na luta entre a dispersão e descontinuidade últimas e as regras de mudança sistemática que restaurariam ordem e inteligibilidade, Foucault parece hesitar, atraído por ambas as alternativas sem achar nenhuma inteiramente satisfatória, e, como verdadeiro fenomenólogo husserliano ou wittgensteiniano, resolve ater-se o mais possível aos fatos da dispersão e chamar a descrição resultante sistema de transformação, desejando analisar tendências de longo prazo sem teleologia humanista nem metarregras estruturalistas e explicar as descontinuidades como mais que mudanças aleatórias, mas sendo nesse ponto mais claro sobre os problemas das duas propostas correntes do que sobre a possibilidade de uma abordagem alternativa.

Estratégias discursivas e o fundo social

1. Uma teoria que pretenda explicar o que efetivamente se diz deve responder por que nem todas as alternativas possíveis se realizam e por que certas estratégias das ciências humanas, que poderiam ser levadas a sério sob as regras vigentes, são ignoradas, e Foucault conclui de alguns exemplos que a limitação em cada nível de análise resulta ou de segmentos relativamente concretos do discurso, os modelos concretos, ou de constelações discursivas gerais relativamente abstratas.

2. Não é evidente que a única explicação possível de como certas estratégias permitem ou excluem outras seja que os discursos se limitam sistematicamente, pois Kuhn oferece outra explicação, que envolve modelos concretos sem tomá-los como discursivos e evita as posições transcendental e empirista, em que o paradigma ou exemplar, trabalho concreto aceito por todos os praticantes como modo correto de proceder, funciona diretamente pelas práticas dos treinados para ver, pensar e agir segundo ele, restringindo as escolhas teóricas e as estratégias seriamente concebíveis sem ser acessível à análise teórica, já que incorpora um modo de saber deturpado quando reconstruído em regras abstraídas dos exemplares, guiando a prática laboratorial e o discurso sério sem ser quadro conceitual analisável em regras transcendentais nem preconceitos pessoais analisáveis como crenças psicológicas, de modo que admitir a importância dos modelos concretos e interpretá-los como constelações discursivas preserva o primado do discurso e de suas regras à custa de ignorar as evidências convincentes de Kuhn.

3. Foucault poderia responder que a explicação de Kuhn só vale para ciências normais como a física, em que há acordo sobre o que conta como bom trabalho, ao passo que as ciências humanas não são normais e comportam sempre escolas rivais com seus pseudoparadigmas, exigindo outra forma de inteligibilidade para explicar teoricamente essas escolas e estratégias conflitantes.

4. Como nas ciências humanas não há paradigma científico geralmente aceito, Foucault propõe que nelas regras de formação quase estruturalistas, desconhecidas dos praticantes, regem um discurso num período e determinam o espectro de estratégias que podem ser levadas a sério, aceitas por umas escolas e seriamente combatidas por outras, e mais tarde introduzirá uma noção semelhante ao paradigma kuhniano, mas não restrita às ciências normais, que lhe permitirá relacionar a permissão e exclusão de estratégias às práticas sociais vigentes de modo mais concreto e plausível, faltando-lhe por ora uma explicação convincente.

5. Foucault parece por vezes concordar com Heidegger, Wittgenstein e Kuhn em que as práticas não discursivas fornecem o horizonte, fundo ou elemento em que a escolha da estratégia discursiva se torna inteligível, ao afirmar que a análise arqueológica deve relacionar as formações discursivas às práticas não discursivas que as cercam e lhes servem de elemento geral, com uma noção desse fundo muito mais concreta e social que a filosófica, incluindo campo institucional, acontecimentos, práticas e decisões políticas, processos econômicos, flutuações demográficas, técnicas de assistência, necessidades de mão de obra e níveis de desemprego, que parecem sustentar e cercar os fatores discursivos e contribuir para sua inteligibilidade, mas, como no caso das relações primárias, mantém a autonomia do discurso e chega à conclusão oposta, de que nem os processos de apropriação do discurso nem seu papel entre as práticas não discursivas são extrínsecos à sua unidade, caracterização e leis de formação.

6. Em vez de elemento ou horizonte das práticas discursivas, as práticas não discursivas parecem elementos que estas assumem e transformam, sem poderes produtivos próprios para introduzir novos objetos, conceitos e estratégias e sem perturbar aleatoriamente o que se diz, mas como elementos formadores do discurso que atuam no espaço permitido pelos princípios de rarefação vigentes para produzir novas exclusões.

7. Os arqueólogos fazem assim um uso exatamente oposto das práticas sociais de fundo ao dos filósofos existenciais e pragmatistas, para os quais, como Heidegger, Wittgenstein, Kuhn e Searle, são justamente as práticas não discursivas de fundo que permitem encontrar objetos e falar deles, produzindo e regendo a ação e o discurso e dando-lhes conteúdo sério, em vez de apenas rarefazer ainda mais o conjunto já rarefeito de enunciados aceitáveis, numa visão amplamente hermenêutica em que as regularidades da prática discursiva são influentes, mas se explicam pela compreensão dos propósitos que práticas discursivas específicas servem nas atividades humanas cotidianas significativas, e em que considerações práticas determinam quais estratégias teóricas serão levadas a sério.

8. Essas questões sobre a relação entre práticas não discursivas e discursivas mal são tocadas em A arqueologia do saber, pois, como reconhece Foucault, as estratégias, ao contrário das demais formas de unidade das formações discursivas, não tinham sido objeto de nenhum livro anterior, limitando-se a indicar o lugar e as implicações das escolhas estratégicas e mal tocando em sua formação.

9. Nos livros seguintes as estratégias passarão ao primeiro plano, já não restritas a opções teóricas, mas mostradas como o elemento que sustenta a atividade discursiva, e, ampliados e tornados básicos seu caráter e papel, a questão da influência relativa das práticas discursivas e não discursivas será enfim tematizada e certas contradições latentes da Arqueologia resolvidas, sendo preciso, para ver como a posição revista representa um progresso importante, explicitar e examinar essas contradições latentes.

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