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0 Prólogo

1. Em junho de 2012, no Instituto Italiano de Estudos Filosóficos de Nápoles, a pergunta do jovem filósofo alemão Markus Gabriel sobre o título adequado para uma conferência internacional dedicada ao caráter fundamental da filosofia contemporânea recebeu como resposta a expressão novo realismo, fruto da constatação de bom senso de que o pêndulo do pensamento, depois de oscilar no século XX rumo ao antirrealismo da hermenêutica, do pós-modernismo e da virada linguística, movera-se com o novo século em direção ao realismo em seus múltiplos aspectos.

2. O neologismo, cunhado à uma e meia da tarde de 23 de junho, não inaugura uma teoria nova nem designa uma corrente filosófica ou uma koiné de pensamento, mas constitui apenas a fotografia realista de um estado de coisas confirmado pelo amplo debate dos anos seguintes, razão pela qual o artigo que anunciou a conferência adotou a forma do manifesto de Marx e Engels, cujo espectro que ronda a Europa constatava que os comunistas eram muitos, e não a descoberta de uma doutrina, como teria sido absurdo se Kant tivesse assim anunciado uma filosofia transcendental existente apenas em seu livro.

3. O que há de original nessa elaboração são as reflexões desenvolvidas ao longo de vinte anos, desde a virada do início dos anos noventa que levou ao abandono da hermenêutica e à proposta de uma estética como teoria da sensibilidade, de uma ontologia natural como teoria da inemendabilidade e de uma ontologia social como teoria da documentalidade.

4. A referência ao realismo não significa reivindicar um risível monopólio filosófico sobre o real, semelhante à pretensão de privatizar a água, mas afirmar que a água não é socialmente construída, que a vocação desconstrutiva inerente a toda filosofia digna do nome deve acertar contas com a realidade para não se tornar jogo fútil e que toda desconstrução sem reconstrução é irresponsabilidade.

5. O novo realismo nasce da reflexão sobre os resultados do pós-modernismo e consiste antes de tudo no reconhecimento de uma virada, pois a experiência dos populismos midiáticos, das guerras pós-11 de setembro e da crise de crédito desmentiu os dois dogmas pós-modernos de que toda realidade é socialmente construída e infinitamente manipulável e de que a verdade é inútil por ser a solidariedade mais importante que a objetividade, fazendo valer necessidades, vidas e mortes reais irredutíveis a interpretações, numa virada com implicações éticas e políticas e circunscrita geograficamente ao Ocidente que viveu e agora parece ter abandonado o pós-modernismo, inconcebível na China ou na Índia.

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