0 Introdução
FERRARIS, Maurizio. Il mondo esterno. Milano: Bompiani, 2001.
Introdução — Ontologia e ecologia
1. A aproximação entre ontologia e deontologia, sugerida pelo episódio de Gianni Sassi, encontra respaldo na concepção heideggeriana de um Ser fundamental que determina os entes por meio da linguagem e da tradição e cujo encontro assume a força de um dever, em continuidade com a tradição que culmina na filosofia transcendental de Kant.
2. O terremoto inesperado na Cidade do México põe em questão a identificação da ontologia com o sentido da existência, pois manifesta, assim como a enumeração das coisas criadas pela pequena Antonie em Os Buddenbrook, a independência de um mundo exterior que precede o nascimento humano e perdura após a morte.
3. A ontologia, constituída como metafísica geral do ente enquanto ente e sistematizada por Christian Wolff, perde centralidade quando Kant toma a física como modelo de ciência e atribui à filosofia transcendental a tarefa de fundar a matematização da natureza nas faculdades humanas, conferindo ao mundo explicado pela física primazia sobre o mundo encontrado na experiência.
4. A identificação kantiana entre experiência e física torna-se paradoxal quando a ciência passa a descrever escalas microscópicas e macroscópicas que escapam à percepção cotidiana, rompendo a correspondência entre o sensível e o inteligível que ainda se podia supor nas antigas concepções dos átomos e das ideias.
5. A tentativa heideggeriana de reconduzir a ontologia à experiência cotidiana entra em tensão com o apelo a uma realidade mais profunda, pois uma descrição legítima no âmbito da física, como a descrição de uma mesa em termos de partículas subatômicas, torna-se um sofisma quando invocada para negar a existência do móvel diante de um oficial de justiça.
6. O fisicalismo de Quine e a hermenêutica de Gadamer subordinam a ontologia à epistemologia por vias distintas, pois um privilegia o mundo acessível à ciência matematizada, enquanto o outro atribui à arte e à história o poder de abrir o mundo, reproduzindo nas ciências do espírito a primazia que o fisicalismo concede ao conhecimento científico.
7. A física ingênua dos gestaltistas Lipmann e Bogen evidencia a autonomia da experiência cotidiana em relação à ciência, pois as coisas se apresentam como sólidas e determinadas e certos modos de percebê-las persistem mesmo quando o conhecimento especializado oferece uma explicação física para eles.
8. A redução transcendental da experiência à condição de etapa preliminar da ciência perde força quando se reconhece que os sentidos orientam a conduta no ambiente, que a percepção conserva traços estáveis através de épocas e teorias distintas e que o mundo externo, em sua resistência à correção pelos esquemas conceituais, constitui o campo próprio da ontologia.
9. A redução do alcance da filosofia transcendental apoia-se tanto na distinção entre o que de fato ocorre e o que necessariamente deve ocorrer quanto na impossibilidade de testar decisivamente a tese de que toda percepção é mediada por esquemas conceituais, circunstância que torna dogmática sua pretensão constitutiva e deixa à sua função meramente regulativa pouca utilidade para a ontologia.
10. A comparação entre o funcionamento das coisas sob a hipótese transcendental e seu funcionamento no mundo externo aos esquemas conceituais permite examinar de que depende a realidade encontrada na experiência.
