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Galileu, platonismo

Studies and Essays in the History of Science Offered in Homage to George Sarton (…), ed. M.F. Ashley Montagu, New York, H. Schuman, 1946, pp. 276-297.

O platonismo de Galileu

1.

1. A identificação de Galileu como platônico exige uma definição precisa de platonismo, pois suas múltiplas formas históricas apresentam divergências e oposições que impedem aplicar indistintamente esse conceito à sua filosofia científica.

2. A admiração de Galileu por Platão fundamenta-se principalmente no reconhecimento da matemática como condição indispensável da investigação filosófica, encontrando nessa orientação um modelo clássico para sua própria concepção do conhecimento.

3. A identificação entre platonismo e valorização da matemática oferece um argumento importante para a interpretação platônica de Galileu, mas não esclarece inteiramente as dificuldades que essa classificação suscita diante da singularidade de sua obra.

4. O platonismo físico de Galileu constitui uma orientação paradoxal perante a tradição platônica, porque esta reserva a verdade rigorosa aos objetos eternos e imutáveis e atribui ao conhecimento dos fenômenos sensíveis apenas o estatuto de opinião.

5. A ciência galileana exige uma teoria dedutiva dos fenômenos físicos capaz de alcançar relações necessárias e invariáveis, rejeitando a redução do conhecimento da natureza à probabilidade e afirmando uma lógica do movimento comparável à dos números e das figuras.

6. Platão e Galileu compartilham a exigência de necessidade como critério da ciência, mas divergem quanto aos objetos capazes de satisfazê-la, pois Galileu encontra na natureza uma ordem matematicamente inteligível, enquanto a investigação platônica procura nos conceitos a segurança que os sentidos não proporcionam.

7. A orientação dialética de Platão contrapõe a instabilidade da investigação dependente do corpo e dos sentidos à constância da alma recolhida em si mesma, cuja afinidade com o eterno permite alcançar a inteligência das realidades imutáveis.

8. A valorização platônica da ordem e da beleza sensíveis, fortalecida pela influência pitagórica, não elimina a separação entre fenômenos e ideias, pois a participação dos primeiros nas segundas conserva uma diferença essencial entre a imperfeição das coisas e a plenitude de seus arquétipos.

9. A teoria física do Timeu substitui os elementos sensíveis tradicionais por formas matemáticas, reconhecendo que somente uma transformação do ponto de partida da investigação permite descrever inteligivelmente a constituição do mundo natural.

10. A elaboração galileana de uma dinâmica exige ultrapassar a representação estática do universo por números e figuras e introduzir uma linguagem capaz de tratar grandezas variáveis e suas relações, diferentemente de Kepler, cuja formação envolve uma luta prolongada com o modelo cosmológico dos sólidos regulares.

11. A física adquire em Galileu uma certeza objetiva e uma centralidade intelectual e moral que não possuía em Platão, tornando a investigação da natureza o núcleo de um novo ideal de verdade cuja defesa compromete a própria existência do investigador.

2.

1. O interesse galileano pelo Menão concentra-se na capacidade da razão de alcançar por si mesma verdades necessárias, exemplificada pela descoberta geométrica do jovem escravo, pois a experiência isolada fornece dados contingentes e não demonstra aquilo que não pode ser de outro modo.

2. A importância do Menão para Galileu precisa ser compreendida independentemente da metafísica platônica da reminiscência, porque a afinidade intelectual entre ambos não pressupõe aceitar a preexistência da alma ou a contemplação anterior dos arquétipos eternos.

3. A determinação do elemento que aproxima Galileu do Menão exige esclarecer simultaneamente sua origem histórica e seu significado sistemático.

4. A investigação da possibilidade de ensinar a virtude conduz o Menão ao procedimento de argumentar por hipóteses, mediante o qual Sócrates transfere para uma questão ética o modo geométrico de examinar as condições necessárias à solução de um problema.

5. O método hipotético platônico constitui o germe da análise problemática, pela qual se supõe resolvido um problema para investigar suas condições e transformá-las progressivamente em relações conhecidas que permitam realizar a construção procurada.

6. A aplicação da análise problemática à astronomia aparece na exigência platônica de encontrar movimentos circulares uniformes capazes de explicar as irregularidades aparentes dos deslocamentos planetários.

7. A longa fecundidade do método hipotético na astronomia aproxima o raciocínio geométrico da investigação dos fenômenos celestes, mas não elimina em Platão a diferença ontológica entre as formas matemáticas perfeitas e os movimentos materiais que apenas as exemplificam imperfeitamente.

8. A tradição de salvar os fenômenos atribui às hipóteses astronômicas uma função descritiva e preditiva sem exigir sua verdade física, orientação ainda expressa por Osiander ao apresentar o sistema copernicano como um instrumento de cálculo compatível com as observações.

9. A dinâmica galileana depende de hipóteses idealizadas, como a de um corpo livre de influências exteriores, cuja validade não exige observação direta, mas a confirmação experimental das consequências deduzidas de seus postulados, procedimento que encontra um antecedente decisivo em Arquimedes.

10. A resistência aristotélica aos princípios galileanos decorre da dificuldade de admitir que condições matemáticas não encontradas na experiência imediata possam explicar os fenômenos reais, dificuldade que a própria física antiga não superara plenamente ao permanecer limitada sobretudo à estática.

11. A transferência galileana da análise problemática para a física modifica seu alcance ao demonstrar experimental e dedutivamente a homogeneidade da matéria e a universalidade das leis mecânicas, superando a separação tradicional entre movimentos terrestres e celestes.

12. A inovação ontológica de Galileu consiste em atribuir aos princípios da mecânica a mesma validade objetiva dos princípios aritméticos e geométricos, de modo que aparentes conflitos entre abstração matemática e experiência devem ser resolvidos pela correção da análise dos fenômenos.

13. A dialética platônica exige dividir e reunir segundo articulações descobertas pelo pensamento, recusando tanto as classificações superficiais da experiência comum quanto as divisões arbitrárias que desfiguram a unidade organizada das coisas.

14. A distinção galileana entre dados e princípios substitui os dualismos platônico e aristotélico por uma relação de interdependência, na qual observação, experimentação, matemática e dedução cooperam para verificar um sistema coerente de conhecimento da natureza.

15. A fundação da dinâmica pressupõe uma nova lógica científica cuja relação com os métodos resolutivo e compositivo da escola de Pádua evidencia antecedentes históricos importantes, sem demonstrar por si mesma que a originalidade galileana se reduza à continuidade da tradição medieval.

16. A novidade de Galileu reside na transformação efetiva da investigação natural por meio de leis matemáticas e da análise hipotética clássica, cujos modelos em Platão, Eudoxo, Euclides e Papo esclarecem melhor sua dimensão teórica e dedutiva do que uma interpretação exclusivamente experimentalista ou positivista.

17. A ampliação galileana da análise problemática para o domínio físico revela uma afinidade profunda com a dialética platônica, pois sua ciência distingue rigorosamente o que fora confundido e unifica fenômenos anteriormente considerados heterogêneos.

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