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Phôs, phainô, phêmi: uma Grécia ultra-fenomenológica
CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
- Pertinência grega originária da fenomenologia
- O termo fenomenologia surge historicamente apenas no século XVIII.
- Apesar disso, sua estrutura conceitual pertence integralmente ao horizonte grego.
- A fenomenologia não é uma invenção moderna aplicada retroativamente aos gregos.
- Ela está já inscrita na própria constituição semântica da língua grega.
- Estrutura etimológica de phainomenon
- Phainomenon é o particípio médio de phainô.
- Ele designa aquilo que aparece por si mesmo e a partir de si mesmo.
- O fenômeno não é algo produzido por um sujeito externo.
- A aparição é autárquica, imanente ao próprio aparecer.
- A fenomenologia é, assim, uma explicitação do modo grego de aparecer do ente.
- Ligação tradicional entre phainô e phôs
- Heidegger recorda que phainô deriva de phôs, luz.
- A aparição é pensada a partir da luminosidade.
- O fenômeno é aquilo que se mostra na luz.
- A visibilidade não é acidental, mas constitutiva do aparecer.
- Nó etimológico mais profundo entre luz e palavra
- A análise etimológica revela uma ligação ainda mais radical.
- Phainô deriva da raiz sânscrita bha.
- Essa raiz é semanticamente ambivalente.
- Ela significa tanto brilhar quanto falar.
- Iluminar e dizer pertencem à mesma origem linguística.
- A aparição já implica articulação discursiva.
- Não há fenômeno sem logos.
- A fenomenologia está já no próprio fenômeno.
- Phêmi como polo verbal da mesma raiz
- Phêmi significa dizer, afirmar, declarar.
- O latim fari pertence à mesma família.
- Falar não é adição posterior ao aparecer.
- A linguagem é uma modalidade de iluminação.
- Dizer é fazer aparecer.
- Polissemia fundamental de phôs
- Phôs designa luz, mas também homem, herói, mortal.
- O termo é corrente em Homero.
- A identidade lexical entre luz e homem é decisiva.
- A etimologia é formalmente clara, semanticamente problemática.
- Fenomenologicamente, ela é extremamente fecunda.
- Homem grego como lugar do aparecer
- O homem é aquele que vê a luz enquanto mortal.
- Ele vê a luz do nascimento, do retorno e da morte.
- Ele vê o que aparece na luz.
- Ele ilumina o que aparece ao dizê-lo.
- O homem é simultaneamente receptor e agente da manifestação.
- A finitude humana é condição da fenomenalidade.
- Jogo acentual e ressonância semântica
- A diferença de acento distingue sentidos semanticamente divergentes.
- Allotrion phôs pode significar luz de outro lugar.
- Pode significar também homem estrangeiro.
- A ambiguidade é explorada poeticamente.
- O jogo não é fortuito, mas semanticamente produtivo.
- A língua mantém juntas luz, alteridade e humanidade.
- Continuidade entre poesia, cosmologia e filosofia
- O jogo lexical aparece em Parmênides.
- Reaparece em Empédocles.
- A poesia épica e a filosofia partilham a mesma matriz linguística.
- O pensamento cosmológico é inseparável do jogo verbal.
- A fenomenalidade do mundo é articulada poeticamente.
- Matriz grega da percepção
- A percepção grega articula aparecer e dizer.
- Não há separação entre sensibilidade e linguagem.
- A verdade emerge dessa copertença.
- O aparecer não é mudo.
- O dizer não é arbitrário.
- Verdade como abertura finita
- A verdade é simultaneamente abertura e limitação.
- Ela ocorre no existir humano.
- A copertença de aparecer e dizer define aletheia.
- A verdade não é adequação externa.
- Ela é desvelamento situado.
- Verdade como reflexão etimológica
- A estrutura da verdade replica a estrutura da língua.
- A etimologia não é apenas histórica.
- Ela é pensante.
- O pensamento da verdade é meditação dessa origem.
- A fenomenologia é fidelidade a essa matriz grega.
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