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Aretê: excelência e finalidade
CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
- Unidade semântica originária de aretê
- O termo aretê designa, em grego antigo, excelência, valor, virtude, mérito e consideração.
- Ele deriva de aristos, superlativo de agathos, bom.
- Uma única palavra reúne campos que, na modernidade, se encontram separados.
- Aretê articula excelência corporal, excelência da alma e os efeitos sociais dessa excelência.
- Não há, em sua origem, redução moralizante do conceito.
- Aretê como excelência corporal e heroica
- A excelência do corpo inclui valor, coragem, força, beleza e saúde.
- Essas qualidades são inseparáveis do coração e da inteligência.
- Já em Homero, a excelência define heróis, deuses e também mulheres.
- Aretê caracteriza o modo pleno de realização de uma natureza viva.
- O herói é excelente enquanto cumpre plenamente sua potência própria.
- Aretê como excelência da alma
- A excelência da alma é definida como domínio de si.
- Heráclito associa aretê à sôphrosynê, o autodomínio.
- Demócrito a vincula ao respeito e à reverência.
- Platão inclui nela virtudes políticas, públicas, éticas e privadas.
- Aretê não é apenas interior, mas manifesta-se na vida comum.
- Aretê e seus frutos: reconhecimento e felicidade
- A excelência produz consideração social.
- Produz também felicidade.
- O valor não é separado de seus efeitos existenciais.
- A felicidade não é um acréscimo externo à excelência.
- Ela é a manifestação de sua realização.
- Aretê como competência funcional
- O termo aplica-se também à competência de um artesão.
- Designa o bom funcionamento de um órgão.
- Um olho excelente é aquele que vê bem.
- Aretê refere-se à adequação perfeita entre função e realização.
- Não há distinção rígida entre técnica, biologia e ética.
- Dimensão ontológica da aretê
- Toda aretê envolve a realização de um ser enquanto tal.
- Mesmo quando traduzida como virtude moral, conserva um sentido ontológico.
- O valor não é arbitrário, mas enraizado no modo de ser.
- A excelência é sempre excelência de algo.
- Ela é inseparável da natureza própria do ente.
- Aretê e telos
- Toda aretê é realização de um telos.
- O telos é o fim próprio, a finalidade adequada.
- O valor é essencialmente teleológico.
- Aristóteles define a aretê como uma forma de perfeição.
- Pode haver excelência em qualquer função, inclusive moralmente reprovável.
- A noção de perfeição não coincide com a de bondade moral moderna.
- Dificuldades de tradução moderna
- A tradução por virtude é insuficiente.
- A tradução por excelência também é limitada.
- Nenhum termo moderno cobre todos os usos.
- Cada contexto exige ampliação do horizonte interpretativo.
- O problema da tradução é estrutural, não lexical.
- Aretê no Protágoras de Platão
- O diálogo investiga se a aretê pode ser ensinada.
- Protágoras afirma ensinar a technê politikê.
- Sócrates duvida da ensinabilidade da excelência.
- Arte e ética aparecem indissociáveis.
- Ambas pertencem ao domínio da aretê.
- Comparação entre technai e política
- A excelência técnica é aprendida com especialistas.
- A excelência política parece compartilhada por todos.
- Essa diferença estrutura o debate do diálogo.
- Aretê tektonikê designa excelência na construção.
- Aretê politikê designa excelência na vida da cidade.
- Argumento socrático sobre a não ensinabilidade
- Os atenienses consultam especialistas para técnicas.
- Não consultam especialistas exclusivos para política.
- Isso sugere que não consideram a virtude ensinável.
- Para Sócrates, isso prova que não há ciência política transmissível.
- A prática democrática torna-se argumento filosófico.
- Resposta de Protágoras
- Protágoras invoca o mito de Zeus.
- Aidôs e dikê são distribuídas igualmente a todos.
- Sem essa distribuição, não haveria cidades.
- A excelência política é condição da vida comum.
- Ela não é técnica especializada, mas partilhada.
- Universalidade da aretê política
- Todos participam da aretê política.
- Não em grau técnico, mas em grau suficiente.
- A igualdade política funda-se nessa partilha.
- A cidade exige essa excelência comum.
- Aretê torna-se condição ontológica do político.
- Aretê na Ética a Nicômaco
- Aristóteles define a aretê ética no livro II.
- Antes de defini-la como meio, define-a como excelência.
- Toda aretê põe algo em bom estado.
- E faz com que sua obra seja bem realizada.
- A definição é funcional e ontológica.
- Exemplos fisiológicos de aretê
- A excelência do olho faz o olho bom.
- Faz também sua função ser bem realizada.
- O mesmo vale para o cavalo.
- A excelência permite cumprir adequadamente a função própria.
- O modelo biológico fundamenta o modelo ético.
- Spoudaios como critério
- Spoudaios designa o homem excelente.
- O termo opõe-se a phaulos.
- É usado para distinguir bons e maus cidadãos.
- Designa seriedade, empenho e valor.
- Une sentido fisiológico e moral.
- Continuidade entre natureza e ética
- A excelência é o ótimo do ergon próprio.
- Quando não há impedimento, ela se manifesta.
- A felicidade decorre da excelência.
- Não é separável da virtude.
- A ética aristotélica integra natureza, finalidade e bem viver.
- Distância em relação à moral moderna
- A felicidade não é compensação moral.
- Não há separação entre dever e realização.
- A ética não se funda em precaução.
- Ela se funda na realização plena da natureza.
- Aretê permanece estranha às categorias morais modernas.
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