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0 Prefácio

BOUVERESSE, Jacques. Wittgenstein, la rime et la raison: science, éthique et esthétique. Paris: Éditions de Minuit, 1985.

1. Wittgenstein permanece singularmente inatual na França, e tornar-se moda seria para ele pior que um contratempo, pois sua filosofia, entendida como empreendimento puramente negativo e ascético, é uma luta permanente e jamais vitoriosa contra a sedução das palavras mágicas, das fórmulas rituais e das teorias consagradas, nascida da convicção de que o entendimento humano adoece perpetuamente de seus próprios êxitos.

2. Embora a reputação de obscuridade alimente o prestígio do autor do Tractatus, o que caracteriza seu procedimento é a paixão pela clareza e pela simplicidade, o desprezo pelo jargão e pelo hermetismo e a preocupação de expor diante dos olhos o que todos podem ver, num estilo despojado e epigramático que, singular na filosofia alemã, foi favorecido pela própria falta de formação filosófica sistemática.

3. Se, de certo ponto de vista, ninguém precisaria escrever livro algum, há sempre algo melhor a fazer do que escrever um livro sobre ética, pois tal livro tornaria todos os outros fúteis e, no entanto, as tentativas de escrevê-lo representam o cúmulo da futilidade, condenadas a um mutismo prolixo que conjura a ausência do objeto pela proliferação do discurso, embora seja difícil resignar-se à ideia de que todo discurso ético é necessariamente palavrório.

4. Wittgenstein não pretende dizer algo ao falar do indizível, pois sua ambição no Tractatus é puramente tópica, consistindo em assinalar à ética seu lugar traçando uma fronteira por dentro, sem que o místico remeta a enigma ou mistério algum, já que a distinção entre o que pode ser dito e o que só pode ser mostrado não deixa espaço intermediário para quase-discursos, de modo que a obscuridade nunca é inerente ao assunto, resultando apenas das invasões do discurso num domínio que não é o seu.

5. A existência de centenas de livros sobre ética não prova que algo tenha sido dito sobre ela, e as observações de Wittgenstein constituem uma crítica racionalista destrutiva do racionalismo moral, que não se confunde com a recusa da moral racional nem com um existencialismo recalcado, pois sua opção pela racionalidade é radical e, ao expulsar a ética do universo do dizível, ele pretendia antes de tudo pô-la definitivamente ao abrigo de toda dúvida e controvérsia.

6. Embora a ética pareça quase inteiramente apagada no Tractatus, o sentido implícito da obra era, para o próprio autor, ético, e como tudo o que se diz da estética pode ser transposto para a ética, a estética ocupa em sua filosofia um lugar central, comparável ao da Crítica do Juízo na obra de Kant.

7. Apesar do rigor implacável de seu procedimento, Wittgenstein aproxima-se mais dos filósofos artistas que dos filósofos cientistas, fascinado apenas por questões conceituais e estéticas, dotado de uma capacidade quase anormal de inventar imagens e tendo na música algo tão central que, sem ela, sentia-se certo de ser mal compreendido, embora estivesse convencido de que o que nela se exprime não pode ser explicitado na linguagem verbal.

8. Oriundo de uma família vienense rica e culta, intimamente ligada aos meios artísticos e musicais, e tendo praticado música, arquitetura e escultura com talento e senso crítico superiores aos de um amador, Wittgenstein estava particularmente qualificado para tratar da estética, abordando-a exclusivamente pelas experiências do praticante e do crítico e nunca pelas teorias filosóficas, o que faz dele a antítese exata de Kant.

9. Assim como o Tractatus teria uma parte não escrita e mais importante, toda a filosofia de Wittgenstein só pode ser corretamente compreendida pela ponderação entre o que ele disse oficialmente, o que disse oficiosamente em aulas e conversas, o que tentou dizer sem conseguir e o que considerava intrinsecamente indizível, situação que impõe ao comentador o dilema entre a tarefa historiográfica de atribuição e o uso livre de todos os materiais para fazer avançar a reflexão, uso legitimado em parte pelo fato de ele considerar suas aulas uma forma de publicação.

10. A atitude razoável de tomar o opus postumum e as notas dos discípulos como comentários aos dois grandes textos acabados precisa levar em conta que é difícil distinguir comentário de retificação ou extrapolação, que a publicação dos inéditos modificou consideravelmente a ideia da obra em seu conjunto e que tal atitude é impraticável em matéria de ética e de estética, o que torna em certa medida desarrazoado consagrar um livro a esse tema.

11. A questão de saber se o Wittgenstein aqui considerado é o verdadeiro é incongruente e provavelmente insolúvel, pois perde sentido claro quando se usam textos que não exprimem a pensamento autêntico segundo os critérios usuais, restando ainda a questão capital, inclusive para a ética, de saber que tipo de homem havia por trás das palavras, à qual nem os que o conheceram de perto souberam responder.

12. Representar a personalidade de Wittgenstein apenas pelo Tractatus e pelas Investigações e confrontá-la depois com cartas, testemunhos e inéditos dá a impressão de dois homens completamente distintos, pois ele evitou com extremo cuidado as questões consideradas mais importantes da filosofia, sendo um filósofo sem opiniões, até em matéria filosófica, embora fosse na realidade o contrário de um homem sem opiniões.

13. Sua vontade de segredo, no duplo sentido de permanecer secreto e de guardar segredo sobre certas questões, deveria vedar toda intrusão em sua vida privada, mas os que tinham mais razões para calar-se, como Anscombe, viram-se obrigados a falar para corrigir ideias falsas, já que uma obra tão desprovida de exibicionismo provoca inevitavelmente certo voyeurismo, e quem se interessa pela parte não escrita de sua mensagem dispondo apenas de informações indiretas assume um risco considerável.

14. A obra de Wittgenstein não pode ser separada de sua vida, sem que esta a explique, pois afirmar que certas questões não têm resposta linguística não significa que não tenham resposta alguma, e ele próprio respondeu de modo exemplar aos grandes problemas de seu tempo com sua existência, símbolo ainda mais ambíguo e mudo que uma obra, de modo que sua filosofia é menos uma interpretação que um sintoma e um símbolo de uma época conturbada, representativa pela energia espiritual com que resiste às tendências dessa época.

15. Embora seja exagerado afirmar que quem conhece o significado de época conturbada não conhece Wittgenstein e vice-versa, há provavelmente alguma verdade na ideia de que os mais preparados para compreendê-lo foram os que o fizeram mais tarde e pior, o que torna tentador examinar seriamente o que há de menos anglo-saxão em seu pensamento, aquilo que o aproxima mais de Nietzsche e Heidegger que de Russell ou Carnap e que em grande parte ele não chegou a dizer, sem esquecer que o que se tem a dizer sobre ele deve ser dito no fim e não no começo.

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