1.2 Gedanke
BOUVERESSE, Jacques. Le mythe de l'intériorité: Expérience, signification et langage privé chez Wittgenstein. Paris: Éditions de Minuit, 1976.
2. O lugar da «proposição pensada» (Gedanke) no “Tractatus”
1. O papel central desempenhado no Tractatus pela noção de proposição pensada, por oposição à proposição como entidade linguística, só foi descoberto de modo bastante tardio pelos comentadores, e é possível que o próprio Wittgenstein tenha levado algum tempo para se dar conta da necessidade de introduzir esse elemento essencial.
2. Nos Carnets só se fala de Sätze e não de Gedanken, e apenas na data de 12 de setembro de 1916 ocorre a «descoberta» de que o pensamento é uma espécie de linguagem, sendo o conceito de Gedanke totalmente ausente dos Carnets fora disso.
3. As proposições que enunciam que «a imagem lógica dos fatos é o pensamento» e que «o pensamento é a proposição dotada de sentido» são duas das sete proposições principais do Tractatus, a terceira e a quarta.
4. Favrholdt considera que a teoria das relações entre pensamento e linguagem e a teoria do sujeito pensante dela decorrente foram elaboradas entre janeiro de 1917 e o verão de 1918, quando Wittgenstein concluiu a redação definitiva do Tractatus, e que o autor provavelmente «nunca foi ao fundo desses problemas, contentando-se com uma concepção esquemática».
5. Mesmo duvidando que se possa ser tão preciso quanto às datas, há razões para admitir que as coisas se passaram em linhas gerais como Favrholdt sugere, inclusive quanto ao caráter relativamente sumário da parte «acrescentada», e nesse ponto, para falar como Bergmann, o Tractatus representa provavelmente em certa medida a miséria e as Investigações filosóficas a esplendor de Wittgenstein.
6. Uma maneira adequada de fazer justiça tanto à continuidade quanto à mudança na evolução das ideias de Wittgenstein poderia ser apresentar as coisas como faz Malcolm, para quem se pode talvez dizer que ele descobriu que as investigações lógicas do Tractatus e seu problema supremo da relação da linguagem com a realidade o haviam arrastado cada vez mais para questões que pertencem à filosofia da psicologia.
7. A razão fundamental que levou Wittgenstein a perceber que uma teoria da significação não se concebe sem uma teoria da proposição «pensada» pode muito bem ter sido vista com acerto por Favrholdt, que a busca numa ideia formulada e criticada no início do Caderno azul, segundo a qual sem um sentido ou sem o pensamento uma proposição seria uma coisa completamente morta e trivial e nenhuma adição de signos inorgânicos poderia torná-la viva, de onde se conclui que o que deve ser acrescentado aos signos mortos é algo imaterial com propriedades diferentes das dos simples signos.
8. Wittgenstein, no Tractatus, fala da proposição elementar como assemblagem articulada de nomes enquanto «quadro vivo» e observa nos Carnets que a proposição não é um agregado de palavras, assim como a melodia não é um agregado de notas, como creem todos os que não são músicos.
9. O lugar das duas observações correspondentes no Tractatus indica que Wittgenstein quer sobretudo sublinhar que a proposição não é uma simples coleção de nomes, mas uma combinação específica de nomes num fato, pois só fatos podem exprimir um sentido.
10. Wittgenstein observa que o que pôde levar Frege a considerar a proposição como um nome complexo é o fato de a frase escrita, por exemplo, não parecer à primeira vista de natureza fundamentalmente diferente da dos elementos que a compõem, ao contrário do que ocorre quando se representa a proposição como constituída por um arranjo de objetos espaciais como mesas, cadeiras ou livros, cuja situação espacial recíproca exprime o sentido da proposição.
11. Em outros termos, a proposição enquanto signo não está de modo algum no mesmo plano que os signos que a compõem, pois o que lhe dá vida e significação é a organização e a estrutura conferidas a elementos em si mesmos inertes.
12. É sempre possível, contudo, não apreender esse conjunto articulado, esse fato ao qual dá nascimento uma disposição determinada dos objetos uns em relação aos outros no espaço, como uma proposição, pois a forma da factualidade é condição necessária, mas certamente não suficiente, da significância.
13. Uma proposição deve ser não apenas um fato, mas também um fato proposicional, e enquanto fato puro e simples o fato proposicional não se distingue dos outros nem pela natureza nem pelo arranjo particular dos elementos que o compõem, pois qualquer organização de signos inorgânicos é em si mesma, quando se trata de dizer algo, exatamente tão morta quanto esses signos.
14. Está-se, portanto, diante da dificuldade seguinte: uma proposição não pode conter nem em suas partes constitutivas nem em sua estrutura um elemento específico que indique qual fato possível ela descreve, isto é, qual sentido ela tem, mas, por outro lado, como diz o Tractatus, a proposição mostra seu sentido, mostra como as coisas se passam quando é verdadeira, e diz que elas são assim.
15. A resposta é evidentemente que a proposição é algo mais que o simples signo proposicional, pois ela é o signo proposicional em sua relação projetiva com o mundo, e o método de projeção é o pensamento do sentido proposicional.
16. Os dois conceitos de proposição e pensamento parecem estritamente correlativos no Tractatus, pois, de um lado, na proposição o pensamento se exprime de modo perceptível aos sentidos, o que parece sugerir uma prioridade lógica do pensamento sobre a proposição, e, de outro, o signo proposicional aplicado e pensado é o pensamento, o que poderia querer dizer que o pensamento procede necessariamente por meio de signos que não devem ser apenas mentais, sendo da essência de um pensamento poder ser exprimido num signo proposicional.
17. Em 4, Wittgenstein acaba por identificar pura e simplesmente o pensamento com a proposição dotada de sentido, o que aparentemente reforça os Carnets, onde observava simplesmente que o pensamento é «uma espécie de proposição».
18. Essa relação de dependência recíproca completa entre o pensamento e a proposição é talvez o que melhor permite compreender por que é difícil admitir o que Russell sugere em sua introdução, a saber, que o Tractatus «se ocupa das condições que deveriam ser preenchidas por uma linguagem logicamente perfeita».
19. É verdade que Wittgenstein pode ter ele mesmo encorajado esse mal-entendido ao declarar no prefácio que o objetivo de seu livro era «traçar um limite ao exercício do pensamento, ou antes — não ao exercício do pensamento, mas à expressão dos pensamentos», pois para traçar um limite ao exercício do pensamento seria preciso poder pensar os dois lados desse limite, ou seja, poder pensar o que não pode ser pensado.
20. Segue-se que «o limite só poderá, portanto, ser traçado na linguagem, e o que está situado do outro lado do limite será simplesmente sem-sentido», o que poderia dar a impressão de que, embora não se possa pensar o que não pode ser pensado, pode-se de certo modo «dizer» o que não pode ser dito, e que é por isso que a delimitação deve concernir não ao pensamento ele mesmo, mas aos meios de expressão linguística do pensamento.
21. Ora, essa impressão só pode ser errônea, pois uma das conclusões essenciais do Tractatus é que, assim como só podemos delimitar o pensável de dentro pensando tudo o que pode ser pensado, só podemos delimitar o dizível dizendo tudo o que pode ser dito, e não dizendo que isso pode ser dito, pois o que não podemos pensar não podemos pensar e, portanto, também não podemos dizer o que não podemos pensar.
22. Em outros termos, determinar os limites do pensamento e determinar os limites da expressão do pensamento constituem necessariamente uma só e mesma coisa, e segue-se que, se uma linguagem logicamente perfeita deve ser algo como uma linguagem que permitiria, por sua estrutura, dizer tudo o que é dizível e apenas o que é dizível, isto é, exprimir todas as pensamentos pensáveis e nada mais, não podemos propor-nos construí-la e não poderíamos sequer dizer que a temos, se fosse o caso.
23. A razão desse fato é evidentemente que os conceitos de «pensamento possível», «pensamento exprimível», «pensamento» tout court e «proposição» dotada de sentido se recobrem exatamente no Tractatus, sendo a proposição essencialmente a expressão de um pensamento e o pensamento algo que se exprime numa proposição.
24. A proposição 3 enuncia que «a imagem lógica dos fatos é o pensamento», o que poderia significar que o pensamento é não apenas uma imagem lógica dos fatos, mas a imagem lógica dos fatos, que o que se chama a imagem lógica de um fato é simplesmente o pensamento desse fato.
25. Se o termo «lógica» tem aqui o mesmo sentido que em 2.182, onde se diz que «toda imagem é também uma imagem lógica», segue-se aparentemente que toda imagem de fatos é necessariamente também de certo modo um pensamento, portanto uma proposição, ou implica algo que é da natureza do pensamento.
26. Essa conclusão poderia eventualmente ser confirmada por 3.001, segundo a qual «“um estado de coisas é pensável” significa: podemos fazer uma imagem dele», ou seja, o que é pensável é simplesmente aquilo de que podemos fazer uma imagem em geral, o que podemos reproduzir de uma maneira qualquer, sendo uma reprodução qualquer forçosamente em todos os casos, entre outras coisas, uma reprodução lógica.
27. Ao fazer essas observações não se propõe evidentemente uma interpretação ou reinterpretação, pois elas destinam-se unicamente a sublinhar que, de um lado, o conceito de «imagem lógica» remete, em Wittgenstein, a algo que as diferentes imagens de um mesmo fato têm todas em comum e a um certo tipo de imagem desse fato que elas são necessariamente todas antes de poderem ser imagens dele em qualquer outro sentido, e, de outro, esse conceito tem um vínculo essencial com o de «pensamento», pois o pensamento é uma imagem lógica da realidade, mas não o é, como as outras imagens, entre outras coisas.
28. Na imagem Wittgenstein distingue três formas diferentes: a forma da reprodução, que é a possibilidade da estrutura particular que a imagem verdadeira e a realidade têm em comum e que permite à primeira reproduzir a segunda do modo específico como o faz; a forma da representação, que não é comum à imagem e à realidade, pois é o ponto de vista exterior ao objeto que permite à imagem representar o objeto, sendo essa exterioridade que lhe permite representar correta ou falsamente seu objeto; e a forma lógica ou forma da realidade, que é simplesmente a possibilidade da existência e da não-existência de estados de coisas em geral e que a imagem deve novamente partilhar com a realidade.
29. Quando nada na imagem — naquilo que faz que ela seja uma imagem e a imagem que é — depende do fato de ela ser espacial, temporal, colorida etc., isto é, quando a forma da reprodução não é nada mais específico que a forma lógica, tem-se o que Wittgenstein chama uma «imagem lógica», e, dado que a forma da reprodução é a possibilidade de que as coisas se relacionem umas com as outras como o fazem os elementos da imagem, pode-se considerar que a forma lógica da reprodução é a possibilidade de que os elementos da realidade sejam estruturados como o são os elementos da imagem, abstração feita de todo modo de realização particular dessa estrutura na imagem.
30. Assim, para retomar o exemplo de Wittgenstein, o disco de fonógrafo, a ideia musical, as notas escritas e as ondas sonoras são fatos que têm todos em comum a «estrutura lógica», mas a ideia musical e a partitura, por exemplo, não têm em comum nem a forma espacial nem a forma temporal da reprodução.
31. Quando quase nada se sabe sobre a natureza exata de uma imagem, como é o caso do pensamento, pode-se contudo estar certo de que ela tem em comum com o que deve representar a forma lógica da reprodução, e os pensamentos são imagens lógicas dos fatos, o que parece significar que sua forma da reprodução é unicamente a forma lógica, mas tudo o que se pode dizer em fato é provavelmente que são arranjos de uma espécie desconhecida de elementos de natureza desconhecida.
32. É claro que, se são fatos psíquicos, poder-se-ia perguntar se suas propriedades temporais podem eventualmente reproduzir algo, por exemplo, mas não necessariamente, algo de temporal.
33. A questão poderia incidentalmente colocar-se aqui de saber se as imagens de fatos representam um tipo particular de imagem, aspecto sobre o qual Wittgenstein teria podido querer acentuar na proposição 3, mas não se vê bem como a resposta poderia não ser negativa, pois, se é verdade que «fazemos imagens dos fatos», deve ser verdade também que não podemos fazer imagens de outras coisas que não fatos.
34. Se a forma da realidade, a forma da existência e da não-existência de estados de coisas, ou seja, a forma da faculdade, deve ser em todos os casos a propriedade comum da imagem e do que ela representa, ela é necessária não só para poder ser uma imagem, mas também para poder ser representado por uma imagem, isto é, ser representado de uma maneira qualquer.
35. De um lado, como dizem as Notas sobre a lógica de 1913, em aRb não é o complexo que simboliza, mas o fato de que o símbolo a está numa certa relação com o símbolo b, de modo que os fatos são simbolizados por fatos, ou mais corretamente, que algo tenha lugar no símbolo diz que algo tem lugar no mundo, e, de outro, é claro que uma imagem em geral nada pode representar senão que as coisas se relacionam umas com as outras de tal ou tal maneira, que tais ou tais coisas «são o caso».
36. Em fato, o Tractatus afirma simultaneamente o caráter factual do mundo, da imagem e, por via de consequência, do pensamento e da proposição, mas afirma igualmente o caráter proposicional do pensamento e, de certo modo, da própria imagem.
37. É preciso insistir aqui no fato de que, quaisquer que sejam as consequências curiosas a que isso finalmente o conduziu, Wittgenstein não pôde «descobrir» que a proposição era uma certa imagem da realidade sem descobrir ao mesmo tempo que toda imagem da realidade era ou podia ser uma espécie de proposição.
38. Essa simetria aparece nitidamente no relato dado por Malcolm do incidente que teria dado ao autor do Tractatus a primeira ideia de sua teoria «pictórica»: a ideia veio a Wittgenstein quando servia no exército austríaco durante a Primeira Guerra Mundial, ao ver um jornal que descrevia o desenrolar e o local de um acidente de automóvel por meio de um esquema ou plano, e ocorreu-lhe que esse plano era uma proposição e que nesse fato se revelava a natureza essencial das proposições, a saber, o fato de que elas retratam a realidade.
39. Poder-se-ia evidentemente objetar que bom número de imagens, no sentido usual do termo, não são de modo algum utilizadas para «dizer» algo sobre a realidade e que a questão de saber se são verdadeiras ou falsas não nos interessa particularmente, mas, a partir do momento em que a imagem representa um fato possível, é claro que ela poderia ser utilizada para dizer, correta ou falsamente, que o fato em questão se realiza.
40. O que interessa à lógica não é que uma imagem seja verdadeira ou falsa, mas que possa sê-lo, e, do mesmo modo, o importante não é que uma proposição ou imagem nos sirvam para afirmar algo, mas que possam servir para isso entre outras coisas, pois só há proposições sem asserção e um juízo, uma ordem, uma pergunta estão todos no mesmo plano, mas têm todos em comum a mesma forma proposicional, e só isso interessa.
41. Nos Carnets encontra-se na data de 29-9-14 a alusão seguinte: «Na proposição, um mundo é composto em vista de uma prova (como quando diante de um tribunal parisiense um acidente de automóvel foi representado por meio de bonecos etc.)», e talvez aí se exprima sob sua forma ao mesmo tempo mais explícita e mais grosseira o princípio fundamental da teoria da depictação: o comportamento dos signos na proposição «mima» de certa maneira o comportamento das coisas na situação concernente.
42. Parece bem que, se a proposição é, contra as aparências, uma espécie de representação quase teatral da situação, a representação é também, contra as aparências, uma espécie de proposição.
43. Pode-se exprimir que «A se bate em duelo com B» por meio de uma proposição, mas igualmente por meio de um desenho mais ou menos semelhante que os represente batendo-se, e a proposição «escrita em imagens» pode, nota Wittgenstein, ser verdadeira ou falsa e tem um sentido independentemente de sua verdade ou falsidade, podendo portanto ensinar-nos tudo o que é essencial sobre a natureza de uma proposição.
44. Em outros termos, que essa imagem possa fazer exatamente o que faz uma proposição, no sentido usual do termo, prova que a essência da proposição e sua natureza exata já aparecem plenamente nela, e em certo sentido poder-se-ia muito bem construir toda a teoria da proposição raciocinando unicamente sobre «proposições» desse gênero.
45. Os Carnets dizem que os temas musicais são em certo sentido proposições e que o conhecimento da natureza da lógica conduzirá por aí ao conhecimento da natureza da música, e, se de modo geral «a imagem pode substituir uma descrição», é evidentemente na medida em que ela é ela mesma uma espécie de descrição.
46. À natureza «pictural» da linguagem corresponde uma certa natureza linguística da imagem em geral, e a teoria da proposição é igualmente uma teoria da imagem em geral, na medida em que esta comporta necessariamente um aspecto proposicional.
47. Para compreender a essência da proposição, Wittgenstein convida a considerar os sistemas de escrita que utilizam coisas como pictogramas, ideogramas ou hieróglifos, pois as propriedades mais fundamentais da proposição não se manifestam em nenhum lugar de modo mais direto que nos simbolismos que são em certo sentido mais ou menos literalmente «imagens» do que representam.
48. Seria totalmente errôneo crer que Wittgenstein considera esse tipo de simbolismo como um caso limite ou degenerado, pois tudo indica, ao contrário, que para ele os sistemas de representação figurativos ou icônicos constituem o modelo a partir do qual devemos conceber nosso sistema fonético, que deve ter conservado, contra as aparências, a característica essencial, como se lê em 4.016, segundo o qual da escrita hieroglífica nasceu a escrita alfabética sem perder o elemento essencial da reprodução.
49. Wittgenstein não hesitara em afirmar pouco antes que, à primeira vista, a proposição tal como é dada por exemplo impressa no papel não parece ser uma imagem da realidade de que trata, mas que a notação musical também não parece à primeira vista ser uma imagem da música nem nossa escrita fonética uma imagem de nossa linguagem vocal, e no entanto essas linguagens de signos revelam-se igualmente, no sentido ordinário, imagens do que representam.
50. Essa observação é sem dúvida, como nota Black, difícil de defender, mas é em realidade totalmente lógica e em certo sentido nem mais nem menos defensável que a teoria da significação do Tractatus em seu conjunto.
51. Se era necessário sublinhar esse ponto, é porque alguns comentadores parecem estimar que o que torna necessária a intervenção do pensamento no Tractatus é o fato de que, à diferença do signo pictural ordinário, o signo proposicional não põe diretamente em cena uma situação no espaço lógico e só pode ser posto em relação com uma situação desse gênero por intermédio de um pensamento.
52. Mas a articulação lógica dos dois aforismos 4.016 e 4.02 mostra bem, ao contrário, que, no espírito de Wittgenstein, é precisamente porque é — apesar do que se poderia crer à primeira vista — um signo pictural, que o signo proposicional exibe claramente seu sentido, sem que este deva ser-nos explicado o menos que seja.
53. O que parece distinguir à primeira vista a reprodução proposicional da reprodução pictural é evidentemente a «semelhança» mais ou menos acentuada que, no caso normal, existe entre o quadro e seu objeto e que não existe entre o signo proposicional e a situação que ele descreve, donde a ideia de que o quadro representa de certo modo por si mesmo o que representa, enquanto o signo proposicional precisa da mediação do pensamento.
54. Mas Wittgenstein sublinha precisamente que o signo proposicional tem ele também, em última análise, uma semelhança suficiente com seu objeto para poder retratá-lo, a semelhança estrutural que consiste no fato de que eles têm em comum a forma, ao menos lógica, da reprodução, e, como toda imagem, a proposição é necessariamente ainda icônica em algum grau, mas essa iconicidade só lhe permite ser a reprodução de algo na medida em que uma relação projetiva apropriada foi estabelecida entre o fato proposicional e a situação que ele deve descrever.
55. É claro que a existência de um «método de projeção» determinado é necessária além de toda espécie de semelhança, e isso vale naturalmente também para um quadro no sentido habitual do termo, pois uma semelhança tão estreita quanto se queira entre dois objetos não acarreta por si mesma de modo algum a existência de uma relação de representação de um ao outro.
56. Como sublinha Goodman em outro contexto, é um fato patente que uma pintura, para representar um objeto, deve ser um símbolo para esse objeto, significar esse objeto, referir-se a ele, e nenhum grau de semelhança é suficiente para estabelecer a relação de referência requerida, nem a semelhança é necessária para a referência, pois quase qualquer coisa pode representar qualquer outra.
57. Que este tinteiro esteja sobre a mesa, nota Wittgenstein, pode exprimir que estou sentado na cadeira, e essa «proposição» teria provavelmente com o fato descrito mais semelhança no sentido usual do termo que a proposição linguística que enunciasse que «estou sentado na cadeira», e menos que um croqui, um quadro ou uma fotografia que fossem utilizados para dizer ou «mostrar» que estou sentado na cadeira.
58. Mas nenhum dos três signos proposicionais representa por si mesmo o fato de que estou sentado na cadeira, pois o desenho que me representa nessa posição poderia ele mesmo muito bem ser utilizado para exprimir não, como é «natural», o fato de que estou sentado na cadeira, mas por exemplo justamente o fato de que este tinteiro está sobre a mesa.
59. Uma semelhança qualquer, qualitativa ou estrutural, de uma imagem com um objeto pôde no máximo predispô-la a ser uma imagem «natural» desse objeto, e em fato, como sublinha claramente Peirce, nem um símbolo nem um índice nem um ícone podem funcionar realmente como signos de algo a menos que sejam interpretados.
60. O benefício essencial da teoria depictiva é evidentemente fazer-nos compreender como o sentido de uma proposição, em particular de uma proposição que nunca encontramos antes, pode ser-nos imediatamente claro, pois o poder de enunciação e o poder de reprodução da proposição são uma só e mesma coisa: a proposição só enuncia algo na medida em que é uma imagem, e compreendemos uma proposição porque «vemos» de certo modo o que ela representa, como o vemos num quadro.
61. Mas a assimilação da proposição a um quadro só pode ter interesse verdadeiro, desse ponto de vista, se a proposição é, contra o que se poderia crer, um quadro num sentido suficientemente próximo do sentido literal, e, quando se percebe que o elemento decisivo é a lei de projeção ou de transformação que permite, por exemplo, obter a sinfonia a partir da partitura musical ou a partitura a partir da sinfonia, e não a comunidade de forma requerida em todos os casos para que uma lei desse gênero possa ser estabelecida, percebe-se que se enfraqueceu, quase se poderia dizer «matematizou», o sentido intuitivo da palavra «imagem» a um ponto tal que a analogia perde praticamente toda virtude explicativa.
62. Além disso, mesmo sendo verdade que a maneira como a proposição representa seu objeto é tão clara quanto a maneira como o quadro representa o seu, é preciso pensar também que ela não o é e não pode sê-lo mais.
63. Na Philosophische Grammatik Wittgenstein julga assim o procedimento do Tractatus: em vez de harmonia, de congruência do pensamento e da realidade, poder-se-ia dizer aqui figuratividade dos pensamentos, mas a figuratividade é uma congruência, e no Tractatus ele dissera algo como que ela é uma congruência da forma, o que é uma coisa que induz em erro, pois tudo pode ser uma imagem de tudo se estendermos correspondentemente o conceito de imagem, e por outro lado é preciso precisamente explicar o que chamamos uma imagem de algo e ao mesmo tempo o que queremos ainda chamar a congruência da figuratividade, a congruência das formas.
64. O que ele dizia equivale a rigorosamente isto: que toda projeção, qualquer que seja o método segundo o qual é efetuada, deve ter algo em comum com o projetado, mas isso diz apenas que se estende aqui o conceito de «ter em comum» e o torna equivalente ao conceito geral de operação de projeção, não se fazendo por conseguinte senão chamar a atenção para uma possibilidade de generalização, o que certamente pode ser muito importante.
65. A congruência entre o pensamento e a realidade reside em que, se declaro falsamente que algo é vermelho, resta que ele não é de todo vermelho, e se quero explicar a alguém a palavra «vermelho» na frase «isto não é vermelho», mostro para isso algo de vermelho.
66. Considerada enquanto simples fato, abstração feita de todo uso convencionado, uma proposição possui uma estrutura que determina a priori a forma, mas não o conteúdo, de toda significação que é suscetível de ter, e o fato de ser composta de elementos em tal ou tal número, relacionando-se uns com os outros de tal ou tal maneira, confere-lhe uma potencialidade interna de significação, a saber, a possibilidade de receber um certo tipo de significação, ou seja, de ser afetada à representação de um certo tipo de situação.
67. Mas ela só adquire efetivamente uma significação em virtude de uma correlação estabelecida do exterior entre seus elementos e os do fato possível que se quer fazer-lhe reproduzir, como Wittgenstein exprime nas observações segundo as quais à proposição pertence tudo o que pertence à projeção, mas não o que é projetado, e na proposição está contida a forma de seu sentido, mas não o conteúdo deste.
68. É claro que o exame mais exato do signo proposicional não pode fornecer o que ele enuncia, mas bem o que ele pode enunciar.
69. A forma da reprodução é definida como «a possibilidade de que as coisas se relacionem umas com as outras como os elementos da imagem», e Wittgenstein acrescenta que a imagem é assim ligada à realidade, que ela vai até ela, comentando Black que o quadro está ligado à realidade porque sua forma é a mesma que a do estado de coisas que ele retrata, estando assim de certo modo em contato com a realidade ou «indo até ela».
70. Mas a interpretação dada pelo próprio Wittgenstein desse passo em Some Remarks on Logical Form indica que em fato a conexão em questão é algo diverso do contato estabelecido, em sentido mais ou menos metafórico, pela simples identidade de forma, pois ele diz ter querido significar que as formas das entidades estão contidas na forma da proposição que trata dessas entidades, já que a frase, tomada com o modo de projeção que projeta a realidade na frase, determina a forma lógica das entidades, como na analogia de um desenho no plano II que, tomado com seu modo de projeção, determina a forma da figura no plano I.
71. Wittgenstein entende visivelmente por «proposição» o par constituído pelo signo linguístico e um método de projeção, e é da proposição, portanto do signo linguístico «interpretado», completado por algo que não faz parte de seu conteúdo nem de sua forma, que se pode dizer que se trata de algo que está «em contato» com a realidade.
72. Wittgenstein fala alhures das coordenações estabelecidas entre os elementos da imagem e as coisas como de «antenas» com as quais a imagem toca a realidade, e as Cartas a C. K. Ogden precisam que se trata de antenas mais ou menos no sentido em que se fala das antenas de uma borboleta, podendo-se mesmo dizer que, graças a elas, a imagem proposicional pode de certo modo «tatear» e explorar a realidade.
73. A analogia a que Wittgenstein alude no passo citado consiste em considerar dois planos paralelos I e II, que representam respectivamente a realidade e a linguagem, nos quais se traçam figuras, por exemplo elipses e retângulos de dimensões e formas diferentes no plano I, tudo se passando como se, por razões de comodidade, se tivesse estipulado que a projeção das figuras do plano I no plano II deveria efetuar-se de modo que toda elipse no plano I aparecesse como um círculo e todo retângulo como um quadrado no plano II.
74. É claro que, nessas condições, não podemos deduzir imediatamente das imagens que observamos no plano II a forma exata das figuras originais, podendo apenas inferir que o original era uma elipse ou um retângulo, mas não que era esta elipse ou este retângulo de tal forma particular, sendo as elipses e os retângulos do plano I os fatos da realidade e os círculos e quadrados do plano II as formas lógicas de nossa linguagem usual.
75. Essas formas, diz Wittgenstein, são as normas de nossa linguagem particular na qual projetamos de não sei quantas maneiras diferentes não sei quantas formas lógicas diferentes, e por essa razão precisa não podemos tirar conclusões, a não ser conclusões muito vagas, do uso dessas normas quanto à forma lógica real dos fenômenos descritos.
76. Em outros termos, só as proposições elementares ou atômicas, que fazem parte de uma espécie de linguagem oculta subjacente à nossa linguagem real, refletem de modo exato a forma lógica dos fatos descritos, e não podemos mais prever, em fato, as formas lógicas elementares da realidade do que podemos prever as formas de proposições elementares.
77. Mas o que é claro, e é o único ponto que interessa diretamente aqui, é que, na medida em que as figuras traçadas no plano da linguagem nos informam, completa ou incompletamente, sobre a natureza dos originais no plano da realidade, elas não o fazem por si sós, mas em virtude de uma lei de transformação sistemática que conhecemos por outro lado.
78. Depois de expor em 2.1-2.1511 sua teoria geral da imagem, Wittgenstein observa que, segundo essa concepção, a imagem inclui igualmente a relação reprodutiva ela mesma, que faz dela uma imagem, mas por outro lado 2.14 afirmava que «a imagem consiste no fato de que seus elementos se relacionam uns com os outros de uma maneira determinada» e 2.141 que «a imagem é um fato», portanto em última análise um simples arranjo de objetos no qual uma relação de reprodução que envolva algo de exterior não pode estar contida sob nenhuma forma.
79. Um fato não «toca» a realidade de nenhuma maneira, ele faz simplesmente parte dessa realidade, sendo preciso portanto admitir que a imagem é algo mais que o fato que lhe serve de suporte, pois a relação de reprodução é uma propriedade externa do fato, mas é uma propriedade interna da imagem, já que é ela que faz da imagem uma imagem.
80. Favrholdt resolve as dificuldades evocadas supondo que, quando redigiu as proposições 2.1 a 2.225, Wittgenstein pensava em fato numa categoria de imagens para as quais o simples fato de serem constituídas de elementos dispostos uns em relação aos outros de certa maneira é condição não só necessária, mas também suficiente, para representar algo, a saber, precisamente os Gedanken.
81. O que caracteriza, com efeito, o pensamento enquanto imagem é a intencionalidade, a «projetividade» constitutiva, pois, à diferença de uma imagem ordinária, «um pensamento tem um sentido espontaneamente», não contendo apenas a possibilidade de um sentido, mas imediatamente e por si mesmo um sentido.
82. Parece, em todo caso, que deve necessariamente ser assim, pois o pensamento é concebido ao mesmo tempo como uma imagem de um certo tipo e como o que permite à imagem proposicional, e talvez a toda imagem, ser a representação de algo.
83. O signo sensível da proposição é utilizado como uma projeção da situação possível, e o método de projeção é o pensamento do sentido proposicional, e pensar o sentido da proposição não pode ser nada além de formar o pensamento que o signo proposicional exprime, pôr no lugar dos signos materiais signos mentais aos quais eles correspondem, para os quais não é preciso de novo um método de projeção, isto é, um pensamento.
84. A proposição da qual Wittgenstein diz que mostra seu sentido não pode ser senão a proposição «cheia de sentido», tendo não só uma capacidade, mas também um conteúdo de sentido, isto é, uma entidade que ele identifica precisamente com o pensamento.
85. Exprimir um pensamento determinado, mostrar seu sentido e representar uma certa situação são evidentemente coisas que, para a proposição, não são separáveis e em certo sentido se confundem, e é o pensamento que realiza, nos três sentidos de abbilden, anlegen e anwenden, a aplicação da proposição à realidade, não respeitando Pears e McGuinness completamente o sentido de 3.5 quando substituem a aposição por uma correlação.
