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Sobre a essência da ciência, Américo Pereira

No sentido mais vasto, mais rico, mais essencial, mais esclarecedor do seu papel antropo-poiético e antropo-cosmológico, não é possível distinguir logicamente “ciência” de “saber” ou de “conhecimento”, bem como todos estes termos e as realidades que designam do mesmo acto lógico próprio do homem, isto é, da sua mesma vida, de seu mesmo bios próprio e adequado como vida de colheita de sentido; vida que ou é colheita de sentido ou não é propriamente humana, indiscernível do que é, na sua mesma totalidade, a vida vígil do homem, seja em que nível e de que modo esta se considere, desde que em acto.

[6] Assim, há ciência desde que haja humano logos em acto; concretizando, desde a mais frustre noção em acto, ao mais ténue sonho qualquer, à mais formal e formalizada teoria científica, etc., estamos perante esta forma genérica, universalmente necessária à espécie humana, verdadeiramente transcendental, portanto, de ciência.

Podemos, pois, dizer que, desde este ponto de vista, ciência e homem, no que este tem de propriamente humano, que é o seu acto de logos, são o mesmo. Não há homem sem ciência qualquer e o todo do homem em seu acto lógico é a mesma ciência entendida em sentido lato. Não é, pois, possível distinguir entre ciência e acto inteligente do homem, na sua mais vasta e universal latitude lógica, independentemente da sua profundidade, densidade ou outra qualquer qualidade. Chamar ciência apenas a um certo tipo desta inteligência sempre actual e relegar para um outro qualquer campo todo o outro acto de inteligência é quebrar o que é o acto único da inteligência humana, tendo necessariamente de se escolher a que parte chamar inteligência: mas, então, se se escolher uma qualquer, que estatuto atribuir à outra, às eventuais ou actuais outras? Se não se escolher, como vencer esta equivocidade? Expressões como “quasi-ciência” ou outras semelhantes são simplesmente inaceitáveis, dado que não é possível definir o “quasi” de modo que não seja meramente impressionista ou caprichoso, logo, irracional.

Todas as formas de acto da inteligência são formas de ciência, sem o que se retira imediatamente a possibilidade semântica a estes actos: cada um deles, na sua forma própria e em seu mesmo acto, é constitutivo de sentido, sentido próprio seu, que há que tomar no que é e como é, sem que se reduza a uma outra qualquer forma, tomada como padrão. Deste modo, a ciência do sonho, em sentido objectivo, o que o acto de sonhar tem de acto de inteligibilidade e de saber, é precisamente isso que é como sonho, na sua mesma realidade semântica própria, não podendo ser reduzida a uma outra [7] forma qualquer, por exemplo, de “ciência verdadeira”, de semântica de uma outra qualquer forma empírica, dado que, logicamente, as realidades a que se referem são diferentes e necessitam de actos de inteligibilidade e de inteligência diferentes, sendo incomunicáveis nas e por meio de suas linguagens próprias, comunicando apenas por meio de linguagens de protocolo transposicional de realidade para realidade.

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