Página inicial > Palavras-chave > Escritores - Obras > Dante / Vita Nova / La Vita Nuova / Comedia / Divina Comédia

Dante / Vita Nova / La Vita Nuova / Comedia / Divina Comédia

Dante Alighieri (Durante degli Alighieri), poeta, político e escritor florentino (1265-1321).


DANTE - VITA NOVA (1294)

OBRA NA INTERNET: LIBRARY GENESIS


Naquela altura, em verdade digo que o espírito da vida, que habita a secretíssima câmara do coração, começou a tremer tão fortemente que aparecia de modo horrível nas menores pulsações; e, tremendo, pronunciou estas palavras: Ecce deus fortior me, qui veniens dominabitur mihi [Eis aqui um deus mais forte do que eu, e quando vem dominará]. Naquela altura, o espírito animal, que habita a alta câmara à qual todos os espíritos sensitivos levam as suas percepções, começou a maravilhar-se muito e, falando especialmente aos espíritos da visão, disse as seguintes palavras: Apparuit iam beatitudo vestra [já apareceu a vossa bem-aventurança]. Naquela altura, o espírito natural, que habita a parte onde se ministra a nossa nutrição, começou a chorar e, chorando, disse estas palavras: Heu miser, quia frequenter impeditus ero deinceps! [Ai de mim, miserável, pois de agora em diante frequentemente ficarei impedido!]

O fundamento desta famosa passagem em que, no início da Vita nova, Dante reflete em uma tríplice alegoria a aparição, vestida de sanguíneo, da “dama da sua mente”, foi rastreado com bastante segurança pelos estudiosos, que mostraram como os três espíritos encontram um sólido cotejo na terminologia médica da época; [1] [157] contudo esta reconstrução é, segundo nossa opinião, incompleta, não apenas porque não nos mostra a fisiologia medieval dos espíritos em todas as suas articulações, mas sobretudo porque a doutrina pneumática que se expressa nesta passagem não é, de modo algum, redutível somente ao âmbito médico-fisiológico. Nela se entrelaçam, pelo contrário, todos os aspectos da cultura medieval, da medicina até à cosmologia, da psicologia até à retórica e à soteriologia, e é precisamente sob o seu signo que conseguem fundir-se harmoniosamente no lançamento de um edifício, que talvez seja a mais imponente catedral intelectual construída pelo pensamento da Idade Média tardia. O fato de tal catedral ter ficado até agora parcialmente sepultada faz com que tenhamos olhado para o seu fruto mais perfeito, a lírica amorosa do século XIII, como se fosse uma das estátuas mutiladas que o tempo separou dos frontões dos templos gregos ou dos tímpanos das igrejas românicas, e que agora nos sorriem enigmaticamente nas salas dos museus. Conforme observava Hegel  , o destino benevolente que nos oferece estes belos frutos caídos da árvore, contudo não nos devolve, junto com eles, “nem a terra que os nutriu, nem os elementos que formaram a sua substância, nem o clima que fazia a sua individualidade, nem a alternância das estações que regulava o processo do seu devir”. E assim como, no capítulo precedente, procuramos reconstruir as linhas gerais da teoria medieval do [157] fantasma, são esta “terra” e este “clima” que agora buscaremos evocar na escavação da doutrina pneumática, na qual a fantasmologia se deixa esclarecer sem resíduos. [AgambenE  :157]


É neste amplo e movimentado cenário que devemos situar a pneumatologia dantesca e estilonovista. Os “três espíritos” do princípio da Vita nova não são uma aparição isolada a serviço de uma intenção alegórica puramente ornamental, mas, assim como no caso da enunciação de um tema no início da sonata, inserem-se em um contexto no qual deverão tocar todos os registros da doutrina pneumática, desde a fisiologia até à cosmologia, desde a psicologia até à soteriologia. Como Klein o viu muito bem, o soneto Oltre la spera che piú larga gira, que termina a Vita nova, retoma tais motivos em uma síntese que, sob muitos aspectos, antecipa e sintetiza a viagem extática da Comédia. O “espírito peregrino”, ao sair do coração (sede, como sabemos do espírito vital), realiza sua viagem celeste “para além da esfera que mais larga gira”, é, conforme nos informa Dante, um “pensamento”, a saber, uma imaginação, ou seja, conforme poderíamos defini-lo aqui com maior precisão, um espírito fantástico, que pode separar-se, como sabemos, do corpo, recebendo a forma da sua visão de tal modo (in tale qualitate) que “o meu intelecto não o pode compreender” (sabemos por meio de Avicena   que o intelecto não pode receber o fantasma a não ser abstraído das qualidades sensíveis; mas precisamente tal limite fundamenta a capacidade visionária do espírito fantástico e quase a sua superioridade sobre o intelecto). Esta concepção do espírito fantástico como sede e veículo dos influxos celestes, [174] que já encontramos em Sinésio  , é afirmada explicitamente por Dante no canto XVII do “Purgatório” na famosa invocação à “imaginativa”, na qual ele se pergunta sobre o que move a fantasia quando, arrebatada na sua visão, ela não pode ser movida pelo sentido.

O imaginativa che ne rube
talvolta sí di fuor, ch’om non s’accorge
perché dintorno suonin mille tube,
chi move te, se’l senso non ti porge?
Moveti lume che nel ciel s’informa
per sé o per voler che giú lo scorge.

[“Ó imaginação, que até nos vetas | de nós mesmos, e da desarmonia | podes nos aportar de mil trombetas, | quem te move, se o senso não te guia? I Move-te um lume que no céu se forma | por si ou por querer que à Terra o envia” — Divina Comédia. Purgatório XVII, 13-18. Trad. portuguesa de ítalo E. Mauro, op. cit, p. 111-112.]

[AgambenE  :174-175]


[1Ver, por todos, G. VITALE. “Ricerche intorno all’elemento filosofico nei poeti dei dolce stil nuovo” (Giornale Dantesco, XVIII, p. 168-174,1910), que remete sobretudo a Alberto Magno. Vitale percebe bem que os espíritos não são simples “personificações das potências da alma”, mas não se dá conta da vinculação entre pneumatologia e teoria da fantasia, e mostra no final acreditar que “os espíritos eram uma das muitas sutilezas entre as sutilezas, uma abstração entre as abstrações, um erro entre os erros”. Só o estudo exemplar de ROBERT KLEIN. “Spirito peregrino” (Revue d’Etudes Italiennes, XI, p. 197-236, 1865; agora em R. KLEIN. La forme et l’inteligible. Paris, 1970, p. 31-64) pôs as bases de uma reconstrução da pneumo-fantasmologia medieval, evidenciando as conexões entre a teoria da fantasia, a teoria neoplatônica do pneuma-ochema, as teorias mágicas e soteriológicas; contudo, tê-las concebido como “níveis” distintos e só casualmente comunicantes, ao invés de concebidas como articulações de um edifício unitário, impediu que Klein tirasse todas as consequências das suas descobertas, sobretudo no que diz respeito à poesia amorosa. Sobre a história da pneumatologia antiga, veja-se VERBEKE. L’évolution de la doctrine du pneuma du Stoïcisme à St. Augustin. Paris-Louvain, 1945.