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creatio ex nihilo

A definição clássica de creatio reza assim: Creatio est productio rei ex nihilo sui et subjecti. Ex nihilo sui significa que Deus não recorreu a matéria preexistente. ... et subjecti quer dizer que Deus não tirou nada de si, não se depauperou, não se despotencializou. [Ullmann  ]


Elevando-se acima de todo o ser (epékeina tès ousías), o Uno não se isola dos seres como tais. “Ele não é nenhum dos entes, e contudo ele é todos ao mesmo tempo; não é nenhum deles, porque são posteriores a ele; é todos, porque são derivados dele. Ele tem o poder de produzir todos (...)” [En. VI, 7  , 32, 13-15]. Em outras palavras, ele é dynamis tôn pántôn [En. III, 8  , 10, 1]. Essa produção ou emanatio não se diferencia, essencialmente, da noção cristã de creare ex nihilo, conquanto haja diferenças nalguns pontos: processão sucessiva e mediadora do Nous e da Alma do mundo para o surgimento dos seres e eternidade do mundo. Porém, a excelsitude do Uno fica resguardada: “O Bem é a causa de todas as coisas, sem se misturar com elas; ele está acima de todas as coisas” [En. V, 5  , 13, 35]. Não era desconhecida de Plotino   a doutrina criacionista, devido ao seu convívio com Amônio   Saccas [1]. Esse fato, sem dúvida, terá influído na complexa síntese do [20] seu pensamento, elaborado, em grande parte, na cidade de Roma, onde teve diuturno contato com o cristianismo [2]. Ao menos pela rama o licopolitano conhecia a doutrina cristã [3]. [Ullmann  :20-21]

[1“Che Ammonio non solo potesse, ma dovesse conoscere la dottrina della creazione è fuori dubbio, dato che nacque e fu educato in una famiglia cristiana e dato che in Alessandria già con Filone la dottrina aveva avuto larga risonanza” (REALE, Giovanni, Storia della Filosofia Antica, 9. ed. (Milano, 1992), v. IV, p. 468). Na época de Plotino, a criação era expressa pelo substantivo grego poíêsis o qual deriva do verbo poiein. No Credo niceno-constantinopolitano. Deus criador é denominado Theòs poiôn, isto é, o criador fez tudo do nada. Ora, o Uno, archê de tudo. também não recorreu a matéria preexistente nem se depauperou ao dar origem às coisas.

[2Indubitavelmente, Plotino conhecia os atributos dados pelos cristãos a Deus. Nas Enéadas encontram-se reflexos evidentes disso, v.g., quanto à criação consciente por parte do Uno. A esse respeito é elucidativo este comentário: “Rien d’inconscient ni d’inerte en l’Un. C’est en ‘pleine maîtrise de soi’ (En. VI, 8, 13, 10) qu’il produit” (TROUILLARD, Jean, Im procession plotinienne (Paris, 1935), p. 77). Cf. etiam En. V, 4, 4, 16-17). “II est donc difficile de croire que ce qu’il (l’Un) fait ou ce qui sort de sa puissance lui échappe de quelque façon que ce soit” (id., ibid., p. 79).

[3“Notre philosophe (= Plotin), rappelons-Ie encore, n’a pas été initié à la vie intime des communantés chrétiennes; il les connaît du dehors et assez en gros” (GUITTON, Jean, Le temps et l’éternité chez Plotin et Saint Augustin, 4. éd. (Paris, 1971), p. 87).