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topos / τόπος / lugar / τόπον

      

gr. τόπος, tópos: lugar  . Considerado por Aristóteles   como categoria   em sua enumeração na forma interrogativa: poû (Cat., IV), mas não desenvolvida depois; ao contrário, os Tópicos (topika) são dedicados ao uso dos "lugares"-comuns da discussão. O lugar é tratado mais seriamente em seu sentido cosmológico na Física (IV, 1-9). Os céticos chamam de lugares "os modos   que fazem concluir pela suspensão do juízo"- (Sexto Empírico, Hipot., I, 36).


Yves Albert Dauge

Segundo Yves Albert Dauge, nosso destino está na apreensão da “verticalidade”, quer dizer do “sentido exato de circulação das Forças” — entre Céu e Terra  , Deus   e homem  , Pai   e Filho. A meta   do esoterismo é de se liberar da mobilidade superficial e horizontal para aceder à criatividade essencial que se desdobra “verticalmente”: é o que se pode chamar a “mutação axial” — ou conversão, ou iniciação, ou soerguimento, ou ressurreição. Donde as expressões bem conhecidas: levantar a pedra, elevar a cruz  , subir   a montanha ou a escala. É sempre questão de estabelecer, de restabelecer justas trocas energéticas entre a Fonte   e os “sujeitos” que dela são emanados.

O que é capital, para cada um, é de encontrar o “lugar” de seu soerguimento. Em hebreu, a palavra   que se traduz por lugar contém toda uma filosofia: “maqom (MQWM), da raiz qum (QWM) que significa “se levantar, se soerguer, se manter de pé”, ou “reerguer-se, endireitar-se, restabelecer-se”. Um lugar, no sentido profundo do termo, é portanto um ponto do espaço onde intervém a verticalidade. Um exemplo tão célebre quanto instrutivo nos é fornecido pelo episódio do Sonho   de Jacó (Gen 28, 11-19).

A notar:

  • A importância da palavra “lugar”, repetida seis vezes;
  • A pedra onde deita a cabeça, inspiradora enquanto figurando a unidade   Pai-Filho;
  • A escada levantada entre Terra e Céu com a circulação dos Anjos  , símbolo do Nome Divino — retoamda do tema em Jo 1,51: “Vereis o Céu aberto e os Anjos de Deus (Yod) subir (He) e descer (He) acima do Filho (Waw) do Homem (Filho do Homem);
  • YHWH que se mantém de pé (Abraão = Lei  , Isaque = Jogo  , YHWH = Vivente em sua totalidade;
  • O Tema da Aliança;
  • O caráter central deste lugar, qualificado de “terrível”, da “Casa   de Elohim” (mais adiante Beith-El = Bethel = “Casa de Deus” — se opndo ao Arcano XVI do Tarô, a “Casa-Deus”), de “Porta dos Céus” (o motivo “xamânico” da Ascensão);
  • A pedra onde deita a cabeça levantada como estela (eixo   Pai-Filho) e ungida de óleo (Espírito  );
  • A troca de nome: Louz — Bethel. Louz simboliza o núcelo indestrutível do ser humano, princípio-germe de sua ressurreição, garantia de sua imortalidade (v. René Guénon, O REI   DO MUNDO): si Louz se torna Bethel, Casa de Deus, é para indicar a tomada de consciência por Jacó desta essência divina, deste poder   axial, experimentada sob forma de sua própria religação ao Nome e a suas Energias. Iniciação vertical, logo, soerguimento do olhar, de conversão da vontade — e materializada pela pedra levantada. [Excertos de "L’ésotérisme pour quoi faire ?]

René Guénon

El «lugar» donde se sitúa este «hombre verdadero», es el punto central donde se unen efectivamente las potencias del Cielo y de la Tierra; así pues, por eso mismo, él es el producto directo y acabado   de su unión; y es por eso también por lo que los demás seres, en tanto que producciones secundarias y parciales en cierto modo, no pueden más que proceder de él según una graduación indefinida, determinada por su mayor o menor alejamiento de este mismo punto central. Así pues, como lo indicábamos al comienzo, solo de él se puede decir propiamente y con toda verdad que es el «HIJO DEL CIELO Y DE LA TIERRA»; lo es «por excelencia» y en el grado más eminente que pueda ser, mientras que los demás seres no lo son más que por participación, siendo él mismo, por lo demás, necesariamente el medio de esa participación, puesto que es solo en su naturaleza donde el Cielo y la Tierra están inmediatamente unidos, si no en sí mismos, al menos por sus influencias respectivas en el dominio de existencia al cual pertenece el estado   humano [1]. [O HOMEM VERDADEIRO E O HOMEM TRANSCENDENTE]

Adin Steinsaltz

A santidade   de um lugar é objetiva, uma coisa por direito próprio  . Mas, para estar consciente dessa santidade, a pessoa   tem de conceder certa experiência. Porque poucas vezes essa santidade se evidencia externamente no mundo material. Os locais onde é reconhecida são usados frequentemente para os esforços mais profundos destinados a invocar a Fonte Suprema da Abundância. Também a revelação da santidade em algum lugar especial não tem sempre um efeito totalmente positivo; porque para estar corretamente receptiva à santidade, a pessoa precisa ter atingido um alto grau de purificação. Na ausência de consciência e purificação, o sentido da santidade pode ficar obscurecido ou até não ser captado em absoluto  , e consequentemente, seu efeito pode ser o exato oposto da santificação. De fato, o poderoso atrativo enaltecedor é frequentemente contrabalançado por sentimentos precisamente de recusa e rebelião contra sua santidade. Porque onde quer que haja santidade, também estão essas forças parasitas irresistivelmente atraídas pela santidade, tentando viver   dela e ao mesmo tempo   destruí-la. Somente quando o aparelho inteiro da revelação é fixado e organizado até a perfeição, um lugar sagrado   pode revelar-se a todos os homens, sem distinção, independentemente dos estados mentais subjetivos das pessoas, ou da presença de forças parasitas destrutivas.

Então, a santidade de um lugar implicaria que havia existido alguma revelação da Santidade Suprema num ponto do espaço físico escolhido para ser um veículo da abundância divina. Há outros tipos de lugares sagrados, com certeza   — lugares que não atingiram a santidade no sentido mais completo da palavra, mas que ficaram, no entanto, sob a influência de algum evento ou personalidade santa. Os túmulos dos santos e dos sábios, por exemplo, ou os lugares onde efetuaram atos memoráveis, podem adquirir grande valor   espiritual. Mas esses locais não são da mesma ordem, e não devem ser confundidos com essa verdadeira ligação entre Deus e o lugar que foi revelado na santidade radiante do Templo   Sagrado. [Adin Even Yisrael. Excertos de "A Rosa de Treze Pétalas". Maayanot, 1992.]

Claude Froidebise

Sem deixar de nos referir ao Nome de Deus que dormita em nosso coração  , oferecemos o comentário de Rabi Joshia com respeito a: "Em todo lugar onde eu recordarei meu Nome, irei até ti".

A ideia que ocorre é que se faz "em todo lugar", mas este versículo deve se interpretar da forma seguinte: "Em todo lugar onde eu vá até ti e te bendiga, recordarei meu Nome". E, onde irei até ti e te bendirei? No Templo. Ali recordarei meu Nome: no Templo.

Mas isso Louis Cattiaux   precisa que "não há mais que um templo de Deus, é o coração do homem" e fala dos "crentes de Deus que adoram o Santo Nome em seus corações".

Este mesmo versículo do Êxodo foi relacionado com o texto que conta a chegada de Jacó ao Monte Moriá: "Alcançou o Lugar e nele se deteve para passar a noite  , pois o Sol   se havia posto".

Por que se atribui ao Santo, bendito   seja, o nome de "Lugar"? Porque em todo lugar onde se encontram os Justos, permanece com eles. Com efeito está escrito: "Em todo lugar onde eu recordarei meu Nome, irei até ti" (Ex XX,24).

Não há Justo, pois, sem um lugar onde é recordado o nome do Sonher. Estes homens divinos sem os quais o mundo não poderia manter-se em pé, são justos por nascimento. Que nobreza! [Excertos de LA PUERTA]

Zumthor

As línguas medievais não possuíam uma palavra permitindo exprimir, mesmo com aproximação, nossa ideia de espaço. Eis aí um índice que convém interpretar. As línguas romanas todas herdaram o latim “locus” ou (como o espanhol e o português) um de seus derivados: os termos que proveem designam a localização onde se encontra um objeto determinado. O germânico “rum”, derivado do alemão “raum”, do neerlandês “ruimte” e do inglês “room”, tiveram originalmente o mesmo sentido, que se conservou nestas línguas até a época pré-moderna. O francês, por outro lado, tirou do baixo latino “platea” a palavra “place” para significar (como o alemão “statt”, o antigo inglês “stede”, o islandês “stadhur”) a posição mesmo onde se está; o inglês e o neerlandês o tomaram emprestado em lhe dando o sentido geral de “locus”. “Spatium”, em revanche, parecem não ter jamais entrado no uso geral: palavra de letrados, passado   ao francês somente (ao qual o tomaram em seguida outras línguas), ele aí designou até o século XVI ou XVII um intervalo   cronológico ou topográfico separando duas referências. A expressão “sem espaço”, que se encontra desde cerca 1175, significa banalmente “imediatamente”.

O “espaço” medieval é portanto o que está entre dois  : um vazio   a preencher. Não se o fez existir senão disseminando sítios. O lugar é, ele, pesado de um sentido positivo, estável e rico: descontinuo, sucede na extensão  ; é o pedaço da terra onde se estadia, que se pode sair e onde se pode retornar. Em relação a ele se ordenam assim os movimentos do ser. Não se pode dividir um lugar em partes, pois ele totaliza os elementos   e as relações que o Constituem. Um conjunto   de signos aí se acumulam e aí se organizam em um Signo   único e complexo  . De onde sua coerência, análoga àquela de um texto. É um texto com efeito, onde se inscreve uma história. Os eixos aí se cruzam, segundo os quais se articulam as propriedades físicas e simbólicas da natureza. É neste sentido que Tomás de Aquino  , comentando da “Física” de Aristóteles, definia o “locus” como “quoddam receptaculum” (“um certo continente”); que o alemão gestattet, literalmente “posto em lugar”, qualifica o que é permitido. Ao redor do lugar, onde experimento neste instante meu enraizamento nos cosmo, eu conheço ou imagino todos os outros, em zonas concêntricas: os mais próximos e familiares; os mais distantes e estranhos; aqueles que ignora e do qual não pude saber se são agradáveis e assustadores; aqueles enfim que meu desejo e meu temor lançam aos poderes fantásticos.

Todo humano, no curso de sua vida, conhece muitos lugares. Sem dúvida os eventos ou lembrança estabelecem entre estes uma hierarquia, em virtude   de sua capacidade emocional. Mas, por um lado, cada um deles possui um valor intrínseco pois é uma presença humana que a instituiu tal como é; por outro lado, todos meus lugares têm de alguma maneira devem àquele que foi minha estada original: uma matriz. Meu nicho, donde os outros lugares não são talvez senão metáforas,e de onde provêm meu pavor desta “inerência privilegiada” que invoca P. Kaufmann, falando do “poder prodigioso do lugar”. A poesia medieval testemunha a intensidade com a qual o homem de então ressentia estas relações. Um lugar não é jamais desprovido de sentido para quele que “aí se encontra”. Talvez mesmo tenha ele o poder de integrar o evento no tempo, se se crê em expressões tais como “ter lugar”, “platz finden” em alemão. É a este nível profundo que se origina o sentido da palavra “demeure” (morada), que em francês antigo: etimologicamente derivada da noção de duração (o latim “mora”), designa, de maneira intemporal, o fato de ser aí (ou estar aí), em uma espécie de degustação do lugar.

Ideias tomadas em Macróbio e nos médicos antigos confirmavam aos olhos dos doutos a existência, entre o vivente e os lugares onde ele tem estada, relações de equivalência, se demarcando na aparência e no temperamento. O lugar de um ser, não menos que aquele de um objeto, é percebido como uma qualidade própria deste objeto ou deste ser. Pouco a pouco, é verdade  , se chegará a não mais ver no lugar senão um acidente topográfica: mas esta reviravolta não será totalmente cumprida antes do século XVI, ou XVII.

A identificação de si não pode se distinguir   da apropriação de um lugar nem da adaptação a seu ambiente imediato. O alemão “Dasein  ”, literalmente “ser-aí” (Martin Heidegger  ), exprime no uso corrente a ideia de existência. A velha epopeia escandinava. da qual testemunham as sagas islandesas, não nomeia jamais um herói sem precisar seu lugar de origem. Sobre o continente, um costume bastante geral (antes da invenção, tardia, e a difusão dos patrônimos) foi de designar assim o estrangeiro, chegado de um alhures que se lhe colava uma etiqueta: nenhuma dúvida que frequentemente o indivíduo em pauta se dava espontaneamente esta apelação. A força destes encadeamentos variou sem dúvida ao longo do tempo, e certas épocas (como a nossa) visam dissociar os fatores. Tal é o paradoxo daquilo que denominei o nomadismo medieval: os traços mentais que enumerei anteriormente não excluem esta incessante descoberta de si mesmo   pelo lugar. [Paul Zumthor. Excertos traduzidos de La mesure du monde]


[1Esta última restricción la necesita la distinción que debe hacerse entre el «hombre verdadero» y el «hombre transcendente», o entre el hombre individual perfecto como tal y el «Hombre Universal».