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socialismo

domingo 17 de outubro de 2021

Desse ponto de vista puramente social, que é o ponto de vista de toda a era moderna, mas que recebeu sua mais coerente e grandiosa expressão na obra de Marx  , todo trabalho é “produtivo” de modo que perde sua validade a distinção anterior entre a realização de “tarefas servis” que não deixam vestígios, e a produção de coisas suficientemente duráveis para que sejam acumuladas. Como vimos antes, o ponto de vista social é idêntico à interpretação que leva em conta apenas o processo vital do gênero humano; e, dentro de seu sistema de referência, todas as coisas tornam-se objetos de consumo. Em uma sociedade completamente “socializada”, cuja única finalidade fosse a sustentação do processo vital – e é esse o ideal infelizmente nada utópico que orienta as teorias de Marx   [1] –, a distinção entre trabalho e obra desapareceria completamente; toda obra se tornaria trabalho, uma vez que todas as coisas seriam concebidas não em sua qualidade objetiva, mundana, mas como resultados da força viva do trabalho e como funções de processo vital. [2] [ArendtCH  :C11]


LÉXICO: socialismo

Observações

[1As expressões vergesellschafteter Mensch ou gesellschaftliche Menschheit eram frequentemente usadas por Marx para indicar o objetivo do socialismo (conferir, por exemplo, o terceiro volume de Das Kapital, p. 873, e a décima das “Teses sobre Feuerbach”: “O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade ‘civil’; o ponto de vista do novo é a sociedade humana, ou a humanidade socializada” [Selected works, II, 367]). Consistia na eliminação da lacuna entre a existência individual e a existência social do homem, de sorte que este,“no seu ser mais individual, seria ao mesmo tempo um ser social (um Gemeinwesen)” (Jugendschriften, p. 113). Marx chama frequentemente essa natureza social de Gattungswesen do homem, sua qualidade de membro da espécie, e a famosa “autoalienação” marxiana é, antes de tudo, a alienação do homem em relação à sua Gattungswesen (ibid., p. 89: “Eine unmittelbare Konsequenz davon, dass der Mensch dem Produkt seiner Arbeit, seiner Lebenstätigkeit, seinem Gattungswesen entfremdet ist, ist die Entfremdung des Menschen vom dem Menschen”). A sociedade ideal é um estado de coisas no qual todas as atividades humanas derivam tão naturalmente da “natureza” humana como a secreção de cera deriva das abelhas para fazer o favo de mel; viver e trabalhar para viver passam a ser a mesma coisa, e a vida já não “começará para [o trabalhador] onde [a atividade do trabalho] cessa” (“Wage, labour and capital”, p. 77).

[2O ataque original de Marx contra a sociedade capitalista não se devia à sua transformação de todos os objetos em mercadorias, mas sim a que “o trabalhador se comporta em relação ao produto do seu trabalho como se este lhe fosse um objeto estranho” (“dass der Arbeiter zum Produkt seiner Arbeit als einem fremden Gegenstand sich verhält” [Jugendschriften, p. 83]) – em outras palavras, que as coisas do mundo, uma vez produzidas pelos homens, são até certo ponto independentes da vida humana, “estranhas” a ela.