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justiça

domingo 17 de outubro de 2021

A interrogação inaugural típica da pesquisa tem, com efeito, a seguinte forma: «é a justiça alguma coisa ou nada?» [Prt., 330bc. Veja-se ainda Prt., 324d, Hp. Ma., 287cd, Grg., 450c, 495c, e cf. Phd., 74a, R., V, 476e; com variações em outros diálogos.].

Nesta pergunta, Sócrates   dirige-se directamente à experiência do interlocutor, i. e., àquela experiência que é necessário supor previamente para a própria compreensão da pergunta e que simultaneamente permite a invariável resposta positiva («é algo»). Todavia, nessa pergunta, e mais certamente ainda nessa resposta, o que se circunscreve é a imediata e irrecusável efetividade da justiça (ou de qualquer outra excelência), manifestada patentemente na ocorrência de pessoas justas, ou de ações justas, ou de instituições justas, e naturalmente elevada à universalidade substantiva de ἡ δικαιοσύνη [dikaiosyne] pelo próprio intuitivo confronto da variedade dessas suas mesmas manifestações com a consistência e permanência de traços que mantém o que assim em todas elas se manifesta.

Entendida deste modo, portanto, a interrogação socrática não pede imediatamente nenhuma anuência para um «universal», que, estranhamente, os interlocutores concederiam, mas aplana a base comum da discussão no consenso imediato da experiência e da comunicação, as quais de forma natural oferecem, quer a evidência da ocorrência de «justos», quer a constitutiva compreensão desses justos como tais, que só uma certa universalidade da justiça permite, independentemente do modo como Sócrates   e os interlocutores a concebem e elaboram.

Ora o que interessa aqui precisamente notar é que, neste estádio, nem sequer é necessário supor nenhuma concepção ou elaboração especial destas noções, senão que tão-só a sua existência mesma, porque tais noções se oferecem imediatamente na experiência como irremediavelmente presentes e fácticas, e —o que é aqui o fundamental para atestar a vinculação das duas vertentes da pesquisa que vimos acompanhando — que a consciencialização dessa facticidade se opera por intermédio da própria questão «o que é», desde logo — precedendo a pergunta socrática e implicando-se na sua resposta —, no momento de circunscrição dos justos como tais (porque os justos são precisamente «aqueles-que-são-justos» e esta consciência complexa presume um tácito questionamento pela qualidade em que aqueles comparecem legitimamente na conversa) e mais tarde, no prolongamento do diálogo, pela sua orientação mesma, que obriga a que teticamente se discuta «o que é então a justiça». [MesquitaPlatão  :49-50]


LÉXICO: justiça