Página inicial > Glossário > antropologia

antropologia

domingo 13 de fevereiro de 2022

Ou a culturologia a que se dá o nome menos assustador de antropologia (cultural) é de uma hipocrisia revoltante, levando muito a sério «fenômenos culturais» dos mais insólitos, ou esse mesmo «levar a sério» fenômenos tais já devia [147] ter surtido efeitos deletérios e mortais para o positivismo da Cultura, que, malgrado suas características dominantes, despende, numa das suas disciplinas mais favorecidas pela frequência estudantil, esforços que muito naturalmente devia considerar inúteis. É claro que dou por desnecessário e impertinente demonstrar que a antropologia, caso não se considere a si mesma como história, não relega para o passado nenhum dos «objetos» de sua investigação, e se a todos vê «presentes» em todas as culturas, não há como excluí-los da nossa. [EudoroMito:146-147]


A antropologia “social” ou “cultural” é assim chamada – ou antes, deveria sê-lo – não por contraste com uma antropologia “física” ou “biológica”, mas porque a primeira real questão com que ela se defronta é determinar o que faz as vezes do “social” ou do “cultural” para o povo que ela estuda, ou seja, qual é a antropologia desse povo – a antropologia que tem esse povo como agente e não como paciente especulativo. Isso equivale a dizer que fazer antropologia é comparar antropologias, e pouco mais que isso – mas nada menos que isso. A comparação não é apenas nosso instrumento analítico principal; ela é também nossa matéria-prima e nosso horizonte último, pois o que comparamos são sempre e já necessariamente comparações, no mesmo sentido em que, para o método estrutural (tal como aplicado nas Mitológicas), o objeto de toda transformação é necessariamente uma outra transformação, e não alguma substância originária. Não poderia ser de outro modo, uma vez que toda comparação é uma transformação. Se a cultura, na elegante definição processual de Strathern (1992c: 47), “consiste no modo pelo qual as pessoas estabelecem analogias entre os diferentes domínios de seus mundos”, então toda cultura é um gigantesco, multidimensional dispositivo de comparação. E se a antropologia – agora cito Wagner ([1975] 2010: 75) – “estuda a cultura por meio da cultura”, então “quaisquer operações que caracterizem nossa investigação também devem ser propriedades gerais da cultura”. Em suma, o antropólogo e o nativo estão engajados em “operações intelectuais diretamente comparáveis” (Herzfeld 2001: 7), e tais operações são antes de mais nada operações comparativas. Relações intraculturais, ou comparações internas (as “analogias entre domínios” de Strathern), e relações interculturais, ou comparações externas (a “invenção da cultura” de Wagner), estão em estrita continuidade ontológica. [Viveiros de Castro  , Metafísicas Canibais]
LÉXICO: antropologia e afins