PhiloSophia

PHILO = Apreço + SOPHIA = Compreensão

Accueil > Glossário > matéria

matéria

jeudi 12 novembre 2020

matéria?, materia, matter, matière, ὕλη

Os escolásticos chamam materia, de modo geral, ao que Aristóteles chamava ὕλη [hyle], esta materia, como já dissemos, não deve ser, de modo nenhum, identificada com a « matéria » dos modernos, cuja noção complexa, e até contraditória sob vários aspectos, parece ter sido estranha tanto aos antigos Ocidentais, como para os Orientais ; mesmo admitindo que aquela pudesse tornar-se esta « matéria » em alguns casos particulares, ou melhor, falando com mais exactidão, mesmo que pudéssemos fazer entrar naquela a concepção mais recente, ela é muitas outras coisas ao mesmo tempo, e são estas coisas que é preciso distinguir com cuidado e primeiro que tudo ; para as designar todas em conjunto por uma denominação comum como as de ὕλη e de materia, não temos à nossa disposição, nas línguas ocidentais actuais, um termo melhor que o de « substância ». Antes do mais, a ὕλη, enquanto princípio universal, é a potência pura, em que não há nada de distinto nem de « actualizado », e que constitui o « suporte? » passivo de qualquer manifestação ; neste sentido é Prakriti? ou a substância universal, e tudo o que dissemos atrás sobre esta aplica-se igualmente à ὕλη assim compreendida [1]. Quanto à substância tomada num sentido relativo, como sendo aquilo que representa analogicamente o princípio substancial, e que desempenha esse papel em relação a uma certa ordem de existência? mais ou menos estreitamente delimitada, é ela também que se chama secundariamente ὕλη, nomeadamente na correlação deste termo com εἶδος [eidos] para designar as duas faces essencial e substancial das [existências particulares. [GUÉNON, René. O Reino da Quantidade e o Sinal dos Tempos. Tr. Vítor de Oliveira. Lisboa : Dom Quixote, 1989, p. 21-22]

Notes

[1Notemos que o primeiro sentido da palavra ὕλη ; diz respeito ao princípio vegetativo ; há uma alusão à « raiz » (em sânscrito mula, termo aplicado a Prakriti), a partir da qual se desenvolve a manifestação ; e pode também ver-se nela uma certa relação com o que a tradição hindu diz da natureza « asúrica » do vegetal, que mergulha efectivamente com as raízes naquilo que constitui o suporte obscuro do nosso mundo ; a substância é, de certo modo, o pólo tenebroso da existência, como veremos melhor mais adiante.