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positivismo

domingo 17 de outubro de 2021

O negativista que o positivista, na verdade, é, também é a mais perfeita encarnação do «Espírito que sempre nega», do Grande Separador, do que quer só uma parte, do «todo» se fazendo desentendido, do todo de que a parte é parte, do que aceita recusando, do que recusa escolhendo, do impassível e incompassível Pai dos que «por si se fizeram», do que enche de nada os «cheios de si», do Senhor dos condicionados, dos indisponíveis, dos concentrados, dos voluntariosos, do Grande Mantenedor da sub-humanidade, do que não tolera o mais-que-homem, do que nos faz acreditar no progresso de um nada pensado como tudo, do promotor do «desenvolvimento» mortificante — do Diabo, numa palavra só.

56. O negativismo «positivista» sufoca a imaginação que é alma de um pensamento em palavras sempre mal expresso, isto é, expresso sem o rigor que se exige da expressão científica. [EudoroMito:143]


59. A trans-objetividade seria quase a aquém-objetividade da filosofia pré-crítica, se uma vez não tivesse soado a hora do criticismo kantiano. Mas não podemos passar ao lado de um «objetivismo» que nos coage por meio da Cultura que tanto e tão profundamente o absorveu, que nos irrequieta ainda e sempre, pelas solicitações do seu mais natural prolongamento. Na verdade, o positivismo prolonga o criticismo, quando este se afunila até à exclusão definitiva de um número incognoscível. O que, antes, dissemos do Diabo, ao afirmar que o mais ardiloso de seus ardis fora o fazer-nos crer na sua inexistência, aplica-se ao criticismo, prolongado pelo positivismo. Hoje, o positivismo dá-se por superado e ultrapassado por sistemas filosóficos que, bem vistos por quem tem olhos para ver, se mostram como a mais triste das mascaradas. O positivismo é negativista: a forma que assume a indisponibilidade, por concentração em métodos que são exclusivos do que não decorre logicamente de uma axiomática deliberadamente, arbitrariamente, decididamente constituída para esse mesmo fim: excluir, como destituído de qualquer significado, o que, a priori, por deliberação, arbitrariedade e decisão gratuita, não se quer aceitar, por irrazoada e irrazoável concessão aos valores predominantes de uma Cultura que se nega como tal, na medida em que repele e de si expulsa bens culturais que, surpreendentemente, reconhece por válidos, quando se trata de estudar outras culturas. [EudoroMito:146-147]
O positivismo é a mais sedutora sedução, que sempre seduziu e continua seduzindo os que já de si propendem para recusar o limite que dizem inultrapassável, o limite que não se nos apresente como liminar. Mas isto nos vale: a proibição, mesmo a que se tome por persuasiva, atrai a transgressão, ainda que, por momentos longos ou breves, só tenda a proibir a proibição. Mas o positivismo tem mais: atrai a antipatia dos que não suportam que os queiram deter no caminho que caminham pelo gosto de caminhar. Estes dirão: «Fiquem por aí, se por aí querem ficar, mas não pretendam que eu fique onde não quero ficar.» Destes, há os que são premiados pela graça daquela loucura a que Platão se referia no Fedro  . Nem todos: só alguns. Só os que, tendo deixado pelo caminho todos os pedaços do nada que os enchia de «si», passam o liminar da [165] trans-objectividade, só porque se volveram em inteira disponibilidade. O vazio de «si» não será, por muito tempo, vazio de Outro. O vazio também atrai e seduz; o vazio total quer total plenitude; e como esta quer derramar-se por onde passa, em breve o disponível se encherá, do modo miraculoso como tudo acontece na trans-objectividade: por muito cheio que fique o homem do que já não é personalidade sua, sempre viverá na disponibilidade. [EudoroMito:165-166]
LÉXICO: positivismo