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deus

domingo 17 de outubro de 2021

Ponto de partida, eleito entre todos os elegíveis, pode ser este: «um deus é um aspecto do mundo» (fórmula breve, em que «mundo» é ele mesmo com o homem que nele habita). Hesito, porém, em aceitar como adequada a determinação «aspecto do mundo». Aspecto é uma figura em que mundo se nos afigura, quando o olhamos de certo ponto de vista. Determinante seria, pois, o ponto do qual, em se olhando, o mundo se faz presença de um deus. De que ponto de vista se nos aparecerá o mundo como presença de Dioniso ou Apolo, Deméter ou Atena, Zeus ou Plutão, Afrodite ou Ártemis, e assim por diante? Pelo menos, é assim que se diz, quando dizer se queira que uma coisa se nos apresenta sob aspectos diferentes. Mas a ninguém ocorrerá afirmar que uma coisa «virou» outra de cada vez que mude o aspecto por simples mudança de aspecção. Todos os possíveis aspectos [41] são-no da mesma coisa. Então, se «um deus é um aspecto do mundo», não há motivo para lhe atribuir consistência maior do que tem qualquer aspecto. A consistência é a do mundo. O que, afinal, queremos dizer é que, para insistir em crença nos deuses, necessário se torna desistir da crença no mundo. Por outras palavras: «aspectos do mundo» encobre «mundos diferentes», e, sendo assim, melhor se diria: «um deus é um mundo» e «outro deus é outro mundo», em suma, cada deus munda, faz seu mundo do que ainda o não era — diacosmiza, numa palavra só. Um deus imerge no mundo que ele emerge, morre a vida do mundo que vive a sua morte, encobre-se no mundo que é descoberta sua, oculta-se no mundo que desocultou. Por isso a mitologia está por fazer. [Eudoro de Sousa  ; EudoroMito:41-42]


86. Não podemos explorar aqui o significado que se poderia atribuir a esta última proposição [ontocriptia é teofania]. Voltemos atrás, onde não se pensou como e por que os deuses são protagonistas de seus mitos. Quando os conhecemos, parece que melhor se diria que mito é porta pela qual os deuses saem de seu «oculto reinar», que, pelo dizer o mito ou representá-lo por rito, não pode haver mais um «reinado oculto» dos deuses. Para sustentar, sem contradição flagrante, que os deuses permanecem em seu «oculto reinar», acenando de dentro dele o aceno cosmo-antropogônico, é preciso esforçar-nos por compreender isto mesmo: que é do aceno do deus, e não do deus-acenante, que o mito nos fala. No entre-acenos está o «oculto reinar» dos deuses, e deste não nos fala o seu mito; o mito também tem por linguagem o silêncio que perpassa por toda a linguagem. Note-se bem: aqui, ganhamos bem clara consciência de todas as contradições que não pudemos evitar em todo o curso de um pensar, atrás manifestado como pensar que ainda não tentáramos pensar. O leitor atento a inconsequências lógicas facilmente detectará os erros que sobressaem a cada passo; mas não quisemos escondê-los, para que ninguém pudesse supor que ao pensamento não seja inerente o errar. A nossa conclusão provisória é a que Heidegger   talvez desse por definitiva: nenhum falar do que os deuses fazem (mitos) faz que os deuses saiam do seu «oculto reinar» — o que, todavia, não impede que não se possa, alguma vez, remover os impasses que tivemos de reconhecer, os que, a pensar nosso, reconhecemos como erros. Talvez, entre eles, algum esteja prenhe de verdade. [EudoroMito:175]
LÉXICO: deus