Página inicial > Glossário > fenomenologia

fenomenologia

domingo 17 de outubro de 2021

Quando Edmund Husserl   foi a Freiburg em 1916, a fama da fenomenologia? ainda não saíra do campo? da filosofia? especializada. Mas poucos anos depois, nos primeiros anos do pós-guerra?, uma especialidade filosófica didática já é quase um portador de esperanças em nível de concepção de mundo?. Hans-Georg Gadamer   relata como no começo dos anos vinte, quando os “lemas de derrocada do Ocidente eram onipresentes”, em uma “discussão entre? pessoas? que pretendiam consertar o mundo” se mencionou fenomenologia além de Max Weber  , Karl Marx   e Kierkegaard  , entre as inúmeras sugestões de como salvar a Europa. Portanto em poucos anos a fenomenologia se transformara em um comentário muito promissor, que levou Gadamer   como tantos outros a ir a Freiburg para lá escutar o mestre? da fenomenologia e seu aprendiz de feiticeiro. A fenomenologia tinha a aura? de um novo começo, o que a tornava popular em um tempo? em que a consciência oscilava entre os extremos do espírito? de derrocada e a euforia de um novo começo. Antes de 1916 os bastiões da fenomenologia eram Göttingen, onde Husserl   ensinara entre 1901 e 1915, e Munique onde existia um segundo centro em torno de Max Scheler   e Alexander Pfänder, independente? “dos de Göttingen”. Queriam ser mais que uma escola?, por isso designavam-se “movimento?” [Bewegung]. Não se tratava apenas de recuperar a cientificidade rigorosa na filosofia — era? assim que os fenomenólogos? se autodescreviam oficiosamente, mas também de reforma de vida? sob o signo? da honestidade intelectual?: queriam superar? o falso patos, o autoengano ideológico, a falta? de disciplina? em pensar? e sentir?. O espírito do círculo de fenomenólogos de Göttingen foi assim formulado por Hedwig Conrad-Martius, que pertencia a ele “era o etos da pureza e da honestidade objetivas... Naturalmente isso se refletia em disposição, caráter? e modo? de vida”.

O que o grupo? de Stefan George Kreis fora? na arte?, era, quanto ao estilo? de grupo, o movimento fenomenológico na filosofia. Os dois? círculos queriam rigor, disciplina e pureza [Strenge, Zucht und Reinheit].

“Vamos à questão!” [Zu den Sachen! - Ir às coisas?] — era a divisa dos fenomenólogos. Mas o que era a questão [die Sache - a coisa?]?

Era considerada oculta e perdida na floresta dos preconceitos, das grandes palavras? e das elaborações da concepção de mundo. Era um impulso? parecido com aquele que Hugo von Hofmannsthal expressara no começo do século na famosa carta:

“Perdi inteiramente”, escreve o lord Chandos de Hofmannsthal, “a capacidade? de pensar e falar? coerentemente sobre qualquer coisa... as palavras abstratas das quais a língua naturalmente ainda tem de se servir para fazer? qualquer juízo, desfaziam-se na minha boca como cogumelos embolorados”.

O que lhe rouba a fala? é a evidência muda, inesgotável, opressiva mas também fascinante das coisas que se oferecem como se fosse uma primeira? vez?. Elas abrem-se para a evidência — também os fenomenólogos queriam isso, ignorar tudo o que até ali fora pensado e dito? sobre consciência e mundo, essa era a sua ambição. Procuravam uma nova maneira de deixar as coisas se aproximarem deles sem as recobrirem com o já sabido?. E preciso dar ao real? uma chance de poder? se mostrar. O que aí se mostra e como se mostra a partir de si, era que os fenomenólogos chamavam: o fenômeno.

Os fenomenólogos partilhavam com Hofmannsthal a certeza? de que antes de tudo era preciso reaprender o verdadeiro? alfabeto? da percepção [Wahrnehmung]. Era preciso antes de mais nada? esquecer? tudo o que até ali fora dito e reencontrar a linguagem? da realidade? [Wirklichkeit]. Para os primeiros fenomenólogos porém devia ser reconquistada antes de tudo a realidade da consciência [Bewußtseinswirklichkeit] e, só através dela, também a realidade externa [äußere Wirklichkeit].

Os fenomenólogos eram modestos de maneira imodesta, pois acusavam os filósofos em torno de construírem seus sistemas? sem fundamento?. A consciência [Bewußtsein] não estava suficientemente reconhecida, era um continente não pesquisado. Começavam pesquisando o inconsciente? [Unbewußten], quando ainda nem estavam familiarizados com o consciente? [Bewußtsein].

Husserl   foi o iniciador do movimento. Exortava seus alunos a serem rigorosos: “Não devemos nos considerar bons demais para trabalhar nos fundamentos” costumava dizer. Os alunos deviam considerar uma honra? serem operários “nas vinhas do Senhor” [Weinberg des Herrn], e não se definia que “Senhor” era aquele. Pensemos no espírito da humildade? e da ascese?, da honestidade e da pureza — que nos fenomenólogos por vezes também era chamada “castidade” [Keuschheit] e não pode mais ser considerado acaso? que alguns dos fenomenólogos mais tarde se tornassem muito devotos. O mais destacado exemplo? é Edith Stein  , agora? canonizada. Ela “serviu” [diente], era a expressão que usava — à fenomenologia nos primeiros anos de Göttingen, antes de 1914; entre 1916 e 1918 foi assistente de Husserl   em Freiburg, nos anos vinte converteu-se à fé católica, por fim? entrou no convento, de onde os nazistas a tiraram, matando-a em Auschwitz por ser judia.

A fenomenologia era um projeto?, disse o discípulo de Husserl  , Adolf Reinach, “que precisava do trabalho? de séculos para ser executado”. Quando Husserl   morre em 1938, deixa um maço de quarenta mil páginas manuscritas inéditas. E comparação com isso sua obra? publicada em vida parece modesta. Depois das Investigações lógicas, de 1901, dois livros fundamentaram sua fama e ajudaram sua filosofia a se impor: Filosofia como ciência rigorosa, de 1910, e o primeiro volume? (único publicado em sua vida) das Ideias? sobre uma fenomenologia pura e filosofia fenomenológica, de 1913.

Em seus audaciosos sonhos?, confiados ao diário, Husserl   imaginara que o futuro? da filosofia pudesse continuar tecendo o que ele iniciara. Repetia sempre que era um “iniciador” [Anfänger]. E foi isso, também na lida com sua própria obra. Quando queria aprontar para publicação um manuscrito realizado há algum tempo, começava a reescrever todo o texto?, para desespero? de seus assistentes que tinham de ajudar nisso. E também sempre recomeçava com seu próprio pensar, portanto era-lhe difícil fazer valer? o que escrevera. A consciência, especialmente a sua própria, era para ele um rio do qual sabidamente não se pode mergulhar duas vezes nas mesmas águas. Dessa postura desenvolveu-se nele uma verdadeira fobia? de publicar. Outros filósofos, que não tinham esse? problema?, como por exemplo Max Scheler  , para quem obviamente era uma ninharia preparar para publicação três livros ao mesmo? tempo, pareciam-lhe suspeitos. As vezes falava de modo desrespeitoso de Max Scheler  , apesar de? reconhecer sua genialidade: “E preciso ter boas ideias; mas não as devemos tornar públicas”, costumava dizer Husserl  . Max Scheler  , que tinha suas melhores ideias enquanto conversava e, se não tinha papel? disponível, as anotava até nos punhos engomados, realmente não queria nem podia guardar nada para si. Diferente de Husserl  , que meditava tanto em sua obra que ela cresceu naquele gigantesco maço de manuscritos que um padre? franciscano salvará dos nazistas em uma ação aventuresca em 1938 contrabandeando-a para Louvain na Bélgica — onde ainda hoje estão preservados em um local de pesquisa? especialmente instalado.

Husserl  , nascido na Morávia em 1859, crescendo em condições judaico-burguesas sólidas na monarquia do Danúbio, marcado por um tempo em que a “sensação de segurança... era o bem? mais desejável, o ideal? de vida comum?” (Stefan Zweig), estudara matemática porque essa ciência lhe parecia confiável e exata. Depois percebera que também a matemática precisava de ser fundamentada. O fundamental, o certo, o alicerce — essa era a sua paixão. E assim ele chegou à filosofia, mas não, como escreve em seu retrospecto de vida, para uma “filosofia tradicional?” na qual ele descobre “por toda parte? falta de clareza, audácia imatura, vaguidão, quando não até desonestidade intelectual, nada que se pudesse aceitar?, deixar valer como peça, como começo de uma ciência séria”. [SAFRANSKI  , Rüdiger. Heidegger. Um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. Tr. Lya Luft. São Paulo  : Geração Editorial, 2000, Capítulo V.]

LÉXICO: fenomenologia

HEIDEGGER: Phänomen / phénomène / fenómeno / phenomenon / phainomenon / phainomena / phénomènes / phenomena / phänomenologisch / phénoménologique / fenomenológico / phenomenological / phänomenal / phénoménal / fenomenal / phenomenal / fenoménico / Phänomenologie / phénoménologie / phenomenology / fenomenologia / fenomenología / phainesthai / Urphänomen / primal phenomenon