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manas

dimanche 7 juin 2020

Manas?, “mente” (será o latino mens),“pensamento”. Mas, em primeiro lugar, o puro fato de estar consciente, desperto. Para os homens védicos, tudo derivava da consciência?, no sentido de pura consciência, desprovida de qualquer outro atributo. Invocavam-na com toque delicado, como “a divina que aparece vinda de longe quando despertamos e que volta a cair quando adormecemos” [Rgveda, 1,164,20]. Como “aquela graças à qual os videntes, hábeis artífices, operam no sacrifício e nos ritos” [Satapatha Brähmana, 12,3,4,11]. Disseram que era um “prodígio inaudito, instalado nos seres” [Brhadäranyaka Upanisad, 1,4,1]. Nela reconheceram “o que envolve tudo o que foi, é e será” [Ibid., 1,4,5]. Disseram-na “estável no coração e, no entanto, móvel, infinitamente veloz” [Chändogya Upanisad, 7,1,1]. A inalcançável velocidade da mente : aqui, talvez pela primeira vez, era nomeada, evocada, adorada. Enfim, o desejo, várias vezes repetido : “Que possa o que ela [a Mente] concebe ser propício” [Ibid]. A mente é uma potência externa, equivalente à dos deuses, que concebe em solidão e pode, por sua graça, reverberar na mente de cada um. E o primeiro desejo, o mais alto, é que isso possa ocorrer de modo “propício”. Então manas agiria como “um bom auriga”, tornando-se [138] aquela “que conduz vigorosamente os homens como corcéis, com as rédeas” [Ibid., 7,1,2].

O absolutismo da mente, pressuposto do pensamento védico, não significava de forma alguma uma onipotência da mente, como se a ela se atribuíssem poderes mágicos soberanos. Se assim fosse, o resultado seria uma construção no fundo tosca, inteiramente equivalente — ao inverso — àquela em que tais poderes soberanos foram atribuídos a uma entidade chamada “matéria?”. (Roberto Calasso?, Ardor, p. 137-138)