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dúvida

domingo 17 de outubro de 2021

A dúvida? é um estado? de espírito? polivalente. Pode significar o fim? de uma fé, ou pode significar o começo de uma outra. Pode ainda, se levada ao extremo?, institucionalizar-se como “ceticismo?”, isto é, como uma espécie de fé invertida. Em dose moderada estimula o pensamento?. Em dose excessiva paralisa toda a atividade? mental. A dúvida como exercício intelectual? proporciona um dos poucos prazeres puros?. Como experiência moral? ela é uma tortura. A dúvida, aliada à curiosidade?, é o berço da pesquisa?, portanto de todo conhecimento? sistemático. Em estado destilado mata toda curiosidade e é o fim de todo conhecimento.

O ponto? de partida da dúvida é sempre uma fé. Uma fé (uma “certeza?”) é o estado de espírito anterior à dúvida. Com efeito?, a fé é o estado primordial do espírito. O espírito “ingênuo” e “inocente” crê. Ele tem “boa-fé”. A dúvida acaba com a ingenuidade? e a inocência do espírito e, embora possa produzir? uma fé nova e melhor, esta não mais será “boa”. A ingenuidade e a inocência do espírito se dissolvem no ácido corrosivo da dúvida. O clima de autenticidade se perde irrevogavelmente. O processo? é irreversível. As [10] tentativas de espíritos corroídos pela dúvida de reconquistar a autenticidade, a fé original, não passam de nostalgias frustradas. São tentativas de reconquistar o paraíso. As “certezas” originais postas em dúvida nunca mais serão certas autenticamente. A dúvida metodicamente aplicada produzirá, possivelmente, novas certezas, mais refinadas e sofisticadas, mas essas novas certezas nunca serão autênticas. Conservarão sempre a marca da dúvida que lhes serviu de parteira.

A dúvida pode ser, portanto, concebida como uma procura de certeza que começa por destruir a certeza autêntica para produzir certeza inautêntica. A dúvida é absurda. Surge, portanto, a pergunta?: “Por que duvido?”. Essa pergunta é mais fundamental que a outra: “De que duvido?”. Trata-se, com efeito, do último passo do método cartesiano?, a saber?: trata-se de duvidar? da dúvida. Trata-se, em outras palavras?, de duvidar da autenticidade da dúvida em si. A pergunta: “Por que duvido?” implica outra: “Duvido mesmo??”.

Descartes  , e com ele todo pensamento moderno?, parece não tomar este último passo. Aceita a dúvida como indubitável. A última certeza cartesiana, incorruptível pela dúvida segundo Descartes  , a saber: “Penso, portanto sou”, pode ser reformulada: “Duvido, portanto sou”. A certeza cartesiana é, portanto, autêntica, no sentido? de ser ingênua e inocente. É uma fé autêntica na dúvida. Essa fé caracteriza toda a Idade Moderna, [11] essa Idade cujos últimos instantes presenciamos.

Essa fé é responsável pelo caráter? científico e desesperadamente otimista da Idade Moderna, pelo seu ceticismo inacabado, ao qual falta? tomar o último passo. A fé na dúvida cabe, durante a Idade Moderna, o papel? desempenhado pela fé em Deus? durante a Idade Média.

A dúvida da dúvida é um estado de espírito fugaz. Embora possa ser experimentado, não pode ser mantido. Ele é sua própria negação. Vibra, indeciso, entre o extremo: “Tudo pode ser duvidado, inclusive e dúvida” e o extremo “Nada? pode ser autenticamente duvidado”. Com o fito de superar? o absurdo? da dúvida, leva esse? absurdo ao quadrado. Oscilando, como oscila, entre o ceticismo radical (do qual duvida) e um positivismo? ingênuo radicalíssimo (do qual igualmente duvida), não concede ao espírito um ponto de apoio para fixar-se. Kant   afirmava que o ceticismo é um lugar de descanso para a razão, embora não seja uma moradia. O mesmo pode ser afirmado quanto ao positivismo ingênuo. A dúvida da dúvida impede esse próprio descanso. O espírito tomado por essa quinta-essência da dúvida está, em sua indecisão fundamental, numa situação de vaivém que a análise de Sísifo feita por Camus   ilustra apenas vagamente. O Sísifo de Camus   é frustrado, em sua correría absurda, por aquilo dentro? do qual corre. Daí o problema? básico camusiano: “Por que não me mato?”. O espírito tomado pela dúvida da dúvida é frustrado por [12] si mesmo. O suicídio não resolve a sua situação, já que não duvida suficientemente da dubiedade da vida eterna. Camus   nutre ainda a fé na dúvida, embora essa fé periclite nele. [FlusserDuvida?:9-12]

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