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símbolo

domingo 17 de outubro de 2021

Costuma-se falar comumente em pensamento simbólico, em categorias simbólicas, como se a essência do símbolo se resumisse em ser uma forma mental ou interna de traduzir a realidade. A sintaxe do símbolo pertenceria, ao processo relacional do nosso pensamento, a uma lógica sui generis, a uma lógica imagística, sem qualquer atinência com a contextura em si das coisas. Contra essa concepção puramente subjetivista dos valores simbólicos se volveram muitos dos pensadores do Romantismo que viam no mundo das Imagens e em suas conexões e confluências uma autêntica e inultrapassável manifestação do real.

O símbolo seria portanto uma experiência do real, enquanto esse se manifesta de forma dramática ou poemática, e não um ens rationis. Vejamos por exemplo o que diz um grande filósofo do Romantismo, Schelling  , sobre a essência última do fenômeno simbólico. Para esse pensador, o núcleo simbólico assenta numa síntese primordial do particular e do geral, da imagem e do conceito, do singular e do universal. No símbolo, afirma, “o geral é totalmente particular, o particular, ao mesmo tempo, é todo o geral, e não simplesmente o significa”. O símbolo é para ele uma Sinnbild, uma imagem significativa, uma significação [157] mergulhada totalmente na imagem, sendo a possibilidade de superação da significação na Imagem a própria possibilidade do simbolismo. Um exemplo esclarecerá talvez os enunciados que estamos estudando. Tudo o que podemos pensar (momento significante conceitual) do fenômeno do amor, do eros em seu mais amplo sentido, estaria implicitamente contido na figura mítica de Afrodite e no seu complexo vicissitudes divinas (momento fantástico simbólico); estaria contido, dizemos, como virtualidade lógica e como conhecimento possível. Afrodite encarnaria, enquanto símbolo, não uma sinopse alegórica das manifestações eróticas, mas, pelo contrário, seria a própria revelação do mundo enquanto amor. O símbolo é a própria coisa, é uma tautegoria. O drama simbólico de Afrodite seria a própria presença infinita do amor, o seu processo omnicompreensivo na cena da atração universal dos seres. No símbolo, algo de particular, de imagístico, seria ao mesmo tempo e com igual direito, uma universalidade de possibilidades mundiais de ser. Qual a natureza profunda do símbolo que lhe permite transcender a sua forma aparentemente confinada, o seu estar-aí e a multiplicidade de formas ocasionadas ao mesmo tempo a face inteira do mundo? [VFSTM  :157-158]


A linguagem do símbolo colige em si o âmbito total de uma operação, de um ciclo de possibilidades, que em seu registro imagístico transcende qualquer representação unívoca. Uma imagem é um símbolo quando nos dá em pessoa, como na forma tautegórica, o conteúdo de uma protoforma divina. Dioniso é a parreira, a planta embriagadora, o vinho, mas também comparece e se encarna no séquito enlouquecido das bacantes, no coro trágico e no sentimento exuberante e extático da existência. As metamorfoses do símbolo constituem a força inerente à Imaginatio Divina, a força de uma operação proteiforme e errática que não obedece a outra lei senão à da própria metamorfose. Esse o fundamento que determinou a singular concepção de Walter Otto no que diz respeito à natureza essencial do rito religioso. O grande investigador do fenômeno religioso interpretou a cena ritual como um prolongamento ou expressão da própria mitologia ou, em outras palavras, como mais uma hierofania do princípio tutelar. O comportamento e a cerimônia ritual constituiriam um símbolo da mesma natureza que a dos símbolos míticos e não algo de oposto ou diverso das formações des-velantes do processo mitológico. Uma das metamorfoses do mesmo Deus seria o rito desse deus, o seu aspecto cultual, como emblema configurado pela atuação, isto é, como símbolo. Vemos que nessa concepção do simbolismo, este nunca pode ser uma criação meramente humana segundo o arbítrio de sua fantasia. O pôr-se em Imagem do simbolismo é sempre epifania e manifestação e quando o espírito humano cria um universo de vicissitudes de valor simbólico é porque já se abriu previamente ao império de uma presença unívoca, já trabalha nas grandes linhas de um arquétipo fundamental. O fenômeno do símbolo constitui o encontro com uma realidade não-feita-pelo-homem, com uma força plasmadora que nos oferece uma experiência de saber inesgotável. O próprio homem, a sua civilização, só encontram uma elucidação suficientemente profunda quando tentamos sondar os símbolos des-velantes de sua realidade fundada. [VFSTM  :161-162]
Micro-Símbolo é, por excedência, o «objeto» sagrado. A sacralização de «coisas» de uso comum converte-as em símbolos; a dessacralização ou a profanação inverte o processo. Refiro-me, evidentemente, ao sacramental, que comparece com igual dignidade, em rito de qualquer religião. Todas as «coisas» são símbolos ou podem vir a sê-los, quando sacralizadas e porque sacralizadas nelas transparece o seu «ser-origem», o deus de que se diz que a ele foram votadas. Micro-Simbólico é, pois, como um reflexo do Macro-Simbólico, nas «coisas» que transpuseram o horizonte da objetividade. Ao procurar a «cantaridade do cântaro», Heidegger   muito bem diz o que quer dizer; mas, quanto a mim, o que vejo nesse procurar do filósofo é o que faz que a «coisa-cântaro» seja símbolo, o Macro-Símbolo, Quadrado de Céu e Terra, Mortais e Imortais [v. Geviert], encarnado, digamos assim, no micro-símbolo; no cântaro, em que se demoram os Quatro, na ação ritual do ofertar. Não digo, repare-se bem, que o Quadrado de Heidegger   foi transposto para o meu Triângulo, só porque reuni céu e terra no mundo que coloquei em um dos ângulos da base, mas só que o meu símbolo mostra certa relação de semelhança com a «coisa» de que ele tão bem fala; tão bem, que nem de leve pela cabeça me passa a ideia de poder imitá-lo. [EudoroMito:155]
LÉXICO: símbolo