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coisa

domingo 17 de outubro de 2021

A interrogação inicial é, como se deveria esperar, a interrogação: Entretanto, o que é uma coisa? Doch was ist ein Ding? Implica essa pergunta a suspeita de que o homem negligenciou até hoje a coisidade das coisas, sobrepondo à sua essência uma série de representações que ocultaram totalmente seu perfil nascente. Uma coisa é, por exemplo, um cântaro? Evidentemente, um objeto fabricado pelo homem para um uso determinado. Ora, Heidegger   começa por afirmar que o “coisal, a essência das coisas, não consiste nem no fato de ser um Objeto representado, nem é apresado a partir da Objetividade do objeto”. Como objeto representado ou produzido pelo homem, o cântaro pertence à esfera do feito-pelo-homem, à imanência da indústria e das representações utilitárias. Mas, segundo as suas palavras, qualquer representação das coisas presentes, no sentido do fabricado ou do objetivado, nunca alcança a coisa como coisa. As nossas representações e em especial as representações técnico-científicas hoje em vigor tendem a um aniquilamento das coisas, a uma eliminação do Bildwelt [o mundo visual] em proveito da formação de uma pura armação mecânico-mundial. A ciência, em particular, só pode apresar e compreender o que lhe é oferecido pelo quadro de categorias que comanda o seu processo de conhecimento. Através dessas categorias o [146] conhecimento científico reduz “as coisas” a entidades físico-matemáticas, a um sistema de energias e forças, apagando totalmente o ser-coisa das coisas. [VFSTM  :146-147]


Tenho diante de mim uma laranja e, apesar de parecer supérfluo, pergunto: o que é a laranja?

Um botânico, um agrônomo, provavelmente técnico da EMATER ou de O Globo Rural (!!), responde-me algo mais ou menos assim: "é um fruto da espécie citrus sinensis, com a forma de uma grande baga esférica, dividida em vários septos ou gomos e cuja casca é de um amarelo dourado (cor de laranja!) no estado de maturação". Surpreende-me que, para o sitiante que a planta e a cultiva, assim como para o caminhoneiro que a transporta, ela, a laranja, é subsistência, sobrevivência — pão para seus filhos e famílias; ela é vida, é um extraordinário sentimento de elevação e de redenção para o enfermo, para o convalescente, que sorve seu sumo saboroso; dois guris a surrupiam do cesto e, na farra deles, ela é bola de futebol; abandonada na fruteira ou jogada sobre a mesa ela é, ela "vira" "natureza morta" ("vida serenada") na tela de um pintor, de um Cézanne; ela é ainda tão-só a "cor laranja" que embriaga algum descuidado contemplador do horizonte no crepúsculo, na alba; ela é também uma "porcaria", uma "droga", uma "sujeira" para o varredor de rua, que a encontra esmagada, pisoteada e toda mosquitos pelo chão, depois da feira...

Surpreende-me o fato de que a laranja, na verdade, não é tão tranquilamente laranja, isto é, não é tão uniforme, tão unidimensional ou tão univocamente laranja. Para espanto nosso, constata-se que há muitas laranjas... E eu volto a perguntar: o que é realmente a laranja? Qual é de fato a essência da laranja? O que é afinal a laranja em-si?

Espanta-me que ela realmente não é nada em-si — nenhuma coisa final, absoluta, definitiva, mas que ela é um aparecer e mostrar-se ora como isso, ora como aquilo, ora como aquilo outro. Enfim, sempre como isso ou como aquilo, isto é, sempre já desde uma "pré-ocupação" ou desde uma ótica, uma perspectiva, um interesse. A laranja — isto é, uma ou toda e qualquer coisa — é, na verdade, essa "pré-ocupação", essa perspectiva, esse interesse. É aí que ela é e está; é aí e como esse aí que ela se define, determina-se. Vê-se então que, de fato, isso que aqui se está chamando "pré-ocupação", perspectiva ou interesse é o lugar da coisa ou sua gênese — enfim, é a "coisa" in statu nascendi. Daí que "coisa" nenhuma é realmente coisa, mas... interesse, perspectiva, "pré-ocupação". [Gilvan Fogel  , «CONHECER É CRIAR»]


LÉXICO DE FILOSOFIA