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midiologia

quarta-feira 17 de novembro de 2021

Certamente não foi Regis Débray [1] o primeiro a enunciar a ideia? original do necessário estudo? do meio? [2]. Podemos, no entanto, dizer que Débray soube desenvolver, a partir desta e de outras ideias? correlatas, os princípios que iriam inaugurar uma disciplina? dedicada ao estudo do meio, a chamada midiologia?, segundo uma nova perspectiva?.

Construída a partir de diferentes horizontes do saber?, a midiologia ocupa-se dos signos em sentido? amplo, e não restrito como na linguística; ocupa-se de todos os vestígios sensíveis a uma intenção de sentido. Diferente da semiologia, enfoca o poder dos signos, e não apenas o sentido. Visa ir além do enfoque da pragmática e da comunicação, ir além das relações cara-a-cara e da intersubjetividade?. Busca ser alguma coisa? similar a uma pragmática do pensamento?, na história lenta e longa das sociedades, onde as mensagens se vestem de palavras?, gestos, figuras e imagens?, ou seja, toda panóplia de formas? de arquivamento do signo?.

Em resumo, trata-se de uma disciplina que trata das funções sociais superiores, em suas relações com as estruturas técnicas de transmissão. Podemos defini-la como o estudo das relações entre fatos? de comunicação e de poder, ou da influência complexa de uma inovação técnica sobre um movimento? intelectual?. Seu objeto? é o estudo das vias e meios de eficácia simbólica; “o estudo do sistema? de constrangimentos materiais e condutores técnicos graças aos quais a informação circula” [3]. Em lugar? de formular? a questão “este pensamento é o produto de quê?”, propõe-se uma nova: “o que é que este pensamento produziu efetivamente?”.

Para Débray, o texto? como unidade? ideal? é menos pertinente do que o livro como objeto, que por sua vez é menos pertinente que suas metamorfoses. Objetos e obras de qualquer natureza?, contam menos que as operações; o campo? da midiologia é o intermediário ou o campo intercalar, onde o que importa são justamente os intervalos, os intercessores, as interfaces de transmissão. O meio de encaminhamento de uma mensagem?, no sentido de MacLuhan   (“o meio é a mensagem”), é um elemento? de análise limitado para a midiologia, pois não passa do andar térreo do edifício de compreensão que pretende construir.

Portanto, segundo Débray, descrever o desenvolvimento? de uma filosofia? em não-filosofia, de um discurso? em não-discurso, requer mais do que se acomodar na descrição da episteme? subjacente a este ou aquele campo enunciador, levantar fenômenos mais obscuros e triviais de encaminhamento, difusão e propagação; não se trata de decifrar o mundo? dos signos, mas compreender? o processo? pelo qual os signos tornam-se mundo.

Nesse sentido, a proposta de Débray parece manter uma relação bastante significativa com a geografia, como reconhece Milton Santos   em seu último livro. Uma relação significativa, é claro, na medida? que se possa estabelecer, caso a caso, correlações, se possível verificáveis, entre as atividades? simbólicas de um grupo? humano?, suas formas de organização, inclusive espaciais, e seu modo? de coleta, arquivamento e circulação de vestígios.

As produções simbólicas de uma sociedade? no instante? T não podem ser explicadas independentemente das tecnologias da memória, ou, em termos mais gerais, da inteligência, utilizada no mesmo instante e no mesmo lugar. Isso quer dizer que uma dinâmica do pensamento é inseparável de uma física dos vestígios, expressa também em uma ordem? espaço-temporal?, como nos lembra Debray  .

Dessa forma, as questões ditas, até bem pouco tempo?, ideológicas, seriam melhor qualificadas como simbólicas ou culturais, pois trabalham o corpo? da sociedade, por sua gravidade e organicidade. Ideologia?, em vez de palavra-armadilha, antítese? do saber, inversão especular do real?, seria melhor compreendida como o meio de uma organização (inclusive espacial), de uma incorporação, de uma encarnação coletiva.

Para a midiologia, o meio pode ser entendido em quatro sentidos: primeiro, como, procedimento geral? de simbolização; segundo, como código social? de comunicação; terceiro, como, suporte? material de inscrição e estocagem; e, quarto, como dispositivo de gravação conectado a determinada rede de difusão. A media?ção determina, portanto, a natureza da mensagem, de modo que existe primazia da relação sobre o ser.

Em uma acepção bastante vizinha, talvez como eco? do conceito? transversal de meio, fala?-se em Sociologia? de “campo”, em Geografia de “ambiente?”, de “ecossistema”, de “biotopo”, de “território”, até mesmo de “redes” (tão em moda?, ultimamente). De acordo? com a midiologia, em cada um destes casos, o meio, ou seu eco, é complementar ao assunto considerado, ou ao objeto de estudo: é aquilo sem o qual este não teria explicação, nem a menor chance de sequer existir?.

No entanto, como afirma Bougnoux   [4], essa explicação não é linear nem mecânica; o ser e o meio parecem deter cada um a metade de um programa, como as mensagens rasgadas dos romances de espionagem; e não é fácil delimitar o círculo fechado que formam entre si: se o meio M age sobre o indivíduo I, este, em troca, modifica M e o co-produz.”.

Não podemos entender essa interação dinâmica como uma influência do tipo? estímulo-resposta. A psicologia? da forma (gestalt) já havia feito sobressair com bastante ênfase, que é próprio da natureza do ser vivo selecionar, até mesmo fazer seu meio. O Umwelt? ou o mundo circundante percebido por um organismo?, e pertinente a ele, resulta de uma retenção bastante seletiva: sobre o conjunto virtual? dos fenômenos disponíveis, o indivíduo apenas retém o que faz sentido para ele.

Dito? de outra maneira, o meio não age por pressão mecanicista, mas por excitações que fazem sentido, deixando ao organismo certa margem de interpretação, de eleição, de tempo, de resposta, enfim de liberdade?. Quanto mais complexo? for o nível de organização de um indivíduo, mais seletivo será, e menos numerosos serão os acontecimentos suscetíveis de alterá-lo diretamente. Como já afirmava Vidal de La Blache: “o meio propõe, o ser vivo dispõe - e inversamente” [5].

Portanto, na interação do ser com o respectivo meio, é impossível, a priori?, separar o que é rumor, informação pertinente, mensagem e contexto, de tal forma essas noções são relativas à configuração de cada um. De nosso meio, apenas conhecemos o que permite nosso confinamento cognitivo, organizacional e informacional. Nossa mais louca especulação permanece coextensiva a nossas ações e não sai do raio, nicho, ou clareira bastante extensa na aparência, que nosso organismo cava no mundo circundante, sem que nos apercebamos do restante. Os seres parecem se mover em universos compartimentados.

O meio tem um estatuto? ontológico desconcertante, é capaz de situar indivíduos, mas escapa, em primeira análise, à sua própria individuação, à sua identidade? estável no espaço e no tempo, à simples? decomposição oposicionista ser-meio, ao princípio linear da causalidade?. Pascal   explorou a riqueza? desse conceito equívoco em seus Pensamentos?: “Desproporção do homem, [...] um meio entre nada? e tudo” (II, 72).

Observações

[1DEBRAY, Regis (1993), Curso de Midiologia Geral. Petrópolis, Vozes; DEBRAY, Regis (1995), Manifestos Midiológicos. Petrópolis, Vozes; DEBRAY, Régis (1997), Transmettre. Paris, Odile Jacob.

[2Para o geógrafo Augustin Berque, já no século XIX, se enunciava uma tentativa de ciência do “meio”, através do que se denominou de “mesologia”, instaurada por Louis-Adolphe Bertillon (1821-1883). A mesologia pretendia ser uma síntese do que chamamos hoje de ecologia e sociologia, pois tendia para uma fenomenologia do “meio” físico, em associação com uma teoria da imitação (mimesis) quanto ao “meio” social. (Berque, 1990)

[3“O midiólogo não considera o pensamento como já elaborado, espontâneo ou disponível de antemão, mas como adaptação sonambúlica a essas redes às quais responde na medida em que se ajusta a elas”. (BOUGNOUX, Daniel. Introdução às Ciências da Informação e da Comunicação. Petrópolis: Vozes, 1994)

[4Idem

[5Idem